Grupo de alunos ataca professores usando o TikTok, e gera alerta em escolas
Ao menos 20 funcionários de uma escola nos EUA foram vítimas de vídeos agressivos na plataforma
Internacional|Natasha Singer, do The New York Times
Em fevereiro a professora de espanhol Patrice Motz, com vasta experiência de trabalho na escola pública Great Valley, foi avisada por outro professor de que problemas estavam surgindo. Alguns alunos do nono ano criaram perfis falsos no TikTok e se passavam por professores. Motz nunca havia usado a plataforma antes, mas criou uma conta e assim encontrou um perfil fictício com seu nome @patrice.motz, que postara uma foto verdadeira dela na praia com seu marido e seus filhos pequenos. “Você gosta de mexer com crianças?”, perguntava a legenda. Resposta: “Sim”, dizia um texto em espanhol sobre a foto das férias em família.
Nos dias seguintes, cerca de 20 professores – aproximadamente um quarto do corpo docente da escola – descobriram que eram vítimas de contas falsas cheias de insinuações pedófilas, memes racistas, homofobia e relações sexuais inventadas com outros docentes. Centenas de alunos viram, seguiram ou comentaram nas contas fraudulentas. De acordo com os educadores, como punição, a escola suspendeu por um breve período vários alunos. E durante um almoço, o diretor repreendeu a turma do nono ano pelo comportamento.
Entre os mais afetados estava Motz, que se sentiu “com o estômago revirado” pelo fato de os alunos atacarem tão descaradamente a família dos professores, fazendo com que alguns deles, em decorrência do assédio on-line, temessem que as redes sociais contribuíssem para a falta de empatia entre os estudantes. Alguns passaram a hesitar chamar a atenção de quem se comporta mal em sala de aula. Outros dizem que tem sido um desafio continuar ensinando. “Foi muito desanimador. Nem posso acreditar que ainda me levanto e vou para o trabalho todos os dias”, disse Motz, que leciona há quatorze anos nessa escola de um subúrbio abastado da Filadélfia.
Até onde se tem notícia, o incidente em Great Valley é o primeiro ataque coletivo desse tipo no TikTok feito por alunos do ensino fundamental contra seus professores nos Estados Unidos. Representa uma escalada significativa na forma como os estudantes do ensino médio e do fundamental assumem identidades de outros, provocam e assediam professores nas redes sociais. Até então, antes deste ano, os alunos fingiam ser um professor ou um diretor por vez.
O ataque dos estudantes do ensino fundamental também reflete outra grande preocupação das escolas sobre como o uso e o abuso de ferramentas on-line populares estão invadindo a sala de aula. Recentemente, alguns estados e distritos restringiram ou proibiram o uso de celulares dentro das escolas, em parte para limitar o bullying entre alunos, e também o cyberbullying em aplicativos como o Instagram, Snapchat, TikTok e outros.
Postagens agressivas
As redes sociais estão contribuindo para tornar postagens, memes agressivos e anônimos mais comuns, permitindo que alguns jovens os usem para atacar os adultos.
“Antes não enfrentávamos ataques desta magnitude contra professores. Não é só desmoralizador. Pode fazer com que os docentes se perguntem: ‘Por que devo continuar nesta profissão se os alunos fazem o que querem?’”, disse Becky Pringle, presidente da Associação Nacional de Educação, o maior sindicato de professores dos Estados Unidos.
Em comunicado, o Distrito Escolar de Great Valley afirmou ter tomado medidas para lidar com as “22 contas fictícias do TikTok” que se passavam por professores da escola, e descreveu o incidente como “um grave uso indevido das redes sociais que impactou profundamente nossa equipe”.
No mês passado, duas alunas dessa escola publicaram um vídeo de “supostos pedidos de desculpas” em uma conta do TikTok usando o nome de um professor do oitavo ano. As garotas, que não se identificaram, descreveram os vídeos falsos como uma brincadeira, e disseram que os docentes reagiram com exagero. “Nunca pretendemos ir tão longe, obviamente. Eu nunca quis que me suspendessem”, disse uma delas no vídeo. “Vamos seguir em frente. Aprenda a lidar com brincadeiras. Tenho 13 anos e você tem quase 40 ou 50″, disse a outra aluna a respeito de um professor, usando um palavrão para enfatizar.
Em um e-mail ao “The New York Times”, um dos estudantes disse que as contas falsas de professores tinham como objetivo fazer piadas ingênuas, mas que alguns alunos foram longe demais nas imitações.
Um porta-voz do TikTok disse que as diretrizes da plataforma proíbem comportamentos enganosos, incluindo contas que se passam por pessoas reais sem divulgar que são paródias ou contas de fãs. A rede social afirmou que uma equipe de segurança sediada nos Estados Unidos validou informações de identificação – como carteiras de motorista – em casos de falsificação de identidade, e que depois removeu os dados.
A escola Great Valley, conhecida localmente por sua comunidade muito unida, atende cerca de mil e cem alunos em um complexo moderno de tijolos e cercado por extensos campos esportivos verdes. Mas, de acordo com entrevistas com sete professores, quatro dos quais pediram anonimato por razões de privacidade, os impostores do TikTok alteraram o equilíbrio da escola. Alguns docentes já usavam o Instagram ou o Facebook, mas não o TikTok.
Na manhã seguinte em que a professora de espanhol Motz descobriu quem era a pessoa que a imitava, os perfis depreciativos no TikTok já não eram mais segredo entre os alunos. “Havia um rumor constante por todos os corredores. Vi um grupo de alunos segurando o celular na frente de um professor e dizendo: ‘TikTok’”, contou Shawn Whitelock, professor de ciências sociais de longa data.
Os alunos pegaram imagens do site da escola, copiaram fotos de família que os professores tinham postado e encontraram outras on-line. Com elas, criaram memes recortando, colando e sobrepondo texto às fotos. Essas imagens de “cheapfake”, feitas com tecnologia barata, diferem das imagens usadas em incidentes escolares recentes em que alunos usaram aplicativos de inteligência artificial (IA) para gerar imagens digitalmente alteradas, conhecidas como “deepfakes”.
Conteúdo ofensivo
Por mais que algumas postagens falsas de impostores de professores da escola Great Valley parecessem engraçadas e inofensivas – como: “Memorizem os estados, alunos” –, outras continham conteúdo sexual. Uma conta falsa de um professor publicou uma imagem editada com a cabeça de dois docentes coladas no corpo parcialmente nu de um homem e de uma mulher, na cama. As contas fictícias também seguiam e interagiam com outros perfis falsos de professores. “Isso virou uma distração para eles”, disse Bettina Scibilia, professora de inglês do nono ano que leciona há 19 anos na escola, em referência aos perfis do TikTok.
Os estudantes também atacaram Whitelock, que foi conselheiro do grêmio estudantil da escola durante anos. Uma conta falsa com o nome @shawn.whitelock postou uma foto dele em pé em uma igreja, durante seu casamento, com sua esposa praticamente recortada da imagem. A legenda mencionava um membro do grêmio estudantil, implicando que o professor tinha se casado com ele. “Vou tocar em você”, comentou o impostor posteriormente. “Passei 27 anos construindo uma reputação como um professor dedicado à profissão. Um farsante destruiu isso e difamou a mim e à minha família”, disse Whitelock em entrevista.
Scibilia disse que já tinha sido explicitamente ameaçada de morte em uma postagem de um estudante no TikTok no começo do ano letivo, e que havia feito uma denúncia à polícia. As imitações de professores aumentaram sua preocupação. “Muitos dos meus alunos passam horas e horas no TikTok, e acredito que isso os tornou insensíveis para o fato de que somos pessoas reais. Eles não percebem o quão invasivo é criar um perfil falso, imitar nossa identidade, zombar de nossos filhos e do que amamos”.
Poucos dias depois de descobrir os vídeos, Edward Souders, diretor da escola, enviou um e-mail aos pais dos alunos do nono ano descrevendo as contas falsas como retratos “desrespeitosos aos nossos professores”. A Great Valley também fez uma assembleia para o nono ano onde se falou sobre o uso responsável da tecnologia.
A escola disse que tinha recursos limitados para lidar com a situação. Geralmente, os tribunais protegem o direito dos alunos à liberdade de expressão fora do ambiente escolar, o que inclui paródias ou críticas aos professores on-line, a menos que as postagens dos estudantes ameacem outras pessoas ou perturbem o programa escolar.
Daniel Goffredo, superintendente do distrito escolar, disse em comunicado: “Gostaríamos de fazer mais para responsabilizar os alunos, mas estamos legalmente limitados quanto às medidas que podemos tomar quando os estudantes se comunicam fora do campus durante o horário não letivo em dispositivos pessoais.” O distrito também se posicionou alegando que não podia comentar sobre as medidas disciplinares para proteger a privacidade dos alunos.
Em meados de março, Nikki Salvatico, presidente da Associação de Educação de Great Valley, sindicato de professores, alertou o conselho escolar que os perfis no TikTok estavam perturbando “a segurança do ambiente educacional” da escola. “Precisamos passar a mensagem de que esse tipo de comportamento é inaceitável”, disse Salvatico em uma reunião do conselho escolar, no dia 18 de março.
No dia seguinte, Souders enviou outro e-mail aos pais. Alguns posts continham “conteúdo ofensivo”, escreveu ele, e acrescentou: “Estou otimista e acredito que, se abordarmos essa questão juntos, podemos evitar que isso se repita.”
Por mais que algumas contas tenham sido removidas – incluindo aquelas que usavam os nomes de Motz, Whitelock e Scibilia –, outras surgiram. Em maio, uma segunda conta no TikTok se passando por Scibilia postou vários novos vídeos zombando dela, que, assim como outros professores da escola, disse ter denunciado os perfis falsos ao TikTok, mas que não teve resposta. Vários docentes que achavam que os vídeos violavam sua privacidade, entretanto, disseram que não forneceram à plataforma uma identificação pessoal para verificação de identidade.
No dia três deste mês o TikTok removeu a conta que imitava Scibilia e outros três perfis falsos de professores da Great Valley que tinham sido apontados por um jornalista.
Scibilia e outros professores ainda estão ruminando o incidente. Alguns pararam de aparecer em fotos e de publicar imagens para evitar que sejam usadas indevidamente pelos alunos. Especialistas disseram que esse tipo de abuso pode prejudicar a saúde mental e a reputação dos professores.
Susan McMahon, professora de psicologia da Universidade DePaul, em Chicago, e presidente do Grupo de Trabalho sobre Violência contra Educadores da Associação Americana de Psicologia, disse: “Isso traumatizaria qualquer pessoa.” Ela acrescentou que as agressões verbais dos alunos contra os professores estão aumentando.
Agora, educadores como Scibilia e Motz estão pressionando as escolas para conscientizar os alunos sobre o uso responsável da tecnologia e reforçar políticas para melhorar a proteção dos professores.
No “pedido de desculpas” das estudantes da Great Valley no TikTok, no mês passado, as duas meninas afirmaram que planejavam postar novos vídeos. Dessa vez, disseram que fariam postagens privadas para que os professores não pudessem encontrá-las. “Estamos de volta e vamos continuar postando, mas vamos tornar todos os vídeos privados no começo do próximo ano letivo para que eles não possam fazer nada”, disse uma delas.
No dia seis, depois que um jornalista do “Times” solicitou ao distrito escolar que notificasse os pais sobre esta matéria, as alunas excluíram o vídeo de “pedido de desculpas” e removeram da conta falsa o nome do professor, e também adicionaram um aviso: “Pessoal, não estamos mais fingindo ser nossos professores, isso é coisa do passado!”
c. 2024 The New York Times Company