Internacional Na capital do Uruguai, número de brasileiros cresce 38% em dois anos

Na capital do Uruguai, número de brasileiros cresce 38% em dois anos

Total foi de 6.127 em 2016 para 8.500 ao final de 2018, diz Itamaraty. Economia e facilidade na obtenção de documentos são atrativos

Brasileiros no Uruguai

Migração de brasileiros para Montevidéu cresceu 38,7%

Migração de brasileiros para Montevidéu cresceu 38,7%

EFE/ Sarah Yáñez-Richards/20.08.2019

Parece que Montevidéu, a capital do Uruguai — que comemora os 194 anos de sua independência neste domingo (25) —, caiu na graça dos brasileiros por motivos que vão além de turismo e dulce de leche. O Itamaraty estima que, nos últimos dois anos, a migração de brasileiros para a cidade tenha crescido 38,7%. O total foi de 6.127 em 2016 para 8.500 ao final de 2018.

Para o professor Adalmir Marquetti, do Programa de Pós-Graduação em Economia da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), o aumento se explica, parcialmente, por fatores econômicos.

“Temos observado, há pouco mais de uma década, a economia uruguaia crescendo a taxas mais altas que a brasileira, principalmente depois da crise de 2015”, avalia o especialista, em entrevista ao R7. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil cresceu 1,1% em 2018; o Banco Central do Uruguai, por sua vez, informa que o PIB do país teve uma expansão 1,6% no último ano.

“Além disso, o Banco Mundial já classifica o Uruguai como uma das economias de renda elevada do mundo, com PIB per capita de mais de 16 mil dólares (cerca de R$ 64,5 mil). O mesmo índice no Brasil é de pouco mais de 9 mil dólares (aproximadamente R$ 36,2 mil), o que representa uma diferença importante”, resume Marquetti.

Além da capital

Fronteira entre Brasil e Uruguai

Fronteira entre Brasil e Uruguai

Odacir Blanco/Wikimedia Commons/CC0 1.0

É possível dizer que o crescimento da comunidade brasileira não fica restrito à capital uruguaia. No país todo, o número de brasileiros chegou a 19.345, pelas estimativas do Itamaraty. 

Na região da cidade de Artigas, que faz fronteira com a gaúcha Quaraí, os brasileiros foram de 1.624 em 2016 para 3.500 em 2018.

Em Rio Branco, que é vizinha de Jaguarão, também no Rio Grande do Sul, a cifra se manteve relativamente estável — com variação de 2.597 para 2.545 nos últimos dois anos. 

Já em Rivera, o número saltou de 270 para 3.900, mas o Itamaraty explica em nota que “as estimativas haviam sido subestimadas em 2017 porque se baseavam apenas nas  matrículas consulares, que geralmente são efetuadas em número  ínfimo. O posto tomou por base, em 2018, os dados dos órgãos de imigração locais para averiguar o quantitativo de brasileiros, muito mais próximo da realidade”.

Para o caso de Chuí, que registrou uma queda vertiginosa de 3.200 para 900, a pasta afirma que “houve superestimação do número em 2017 porque haviam sido incluídos no cômputo residentes no lado brasileiro da fronteira que se deslocam com frequência ao lado uruguaio. Em 2018 chegou-se a número mais próximo da realidade de brasileiros efetivamente residentes no lado uruguaio”.

Política e infraestrutura

Na opinião de Adalmir Marquetti, fora a curta distância para os brasileiros que desejam se mudar, o fato de que o Uruguai tem mais segurança e boa infraestrutura — com saúde e educação públicas de qualidade — também contribuiu para as altas recentes.

“Há ainda, no Uruguai, políticas mais voltadas para as minorias. Com vários países da região tendo seus governos de centro-esquerda substituídos por lideranças mais conservadoras, como é o caso do Brasil, o Uruguai se tornou uma alternativa para setores da população brasileira e também de outras nações latino-americanas.”

Referência regional

De fato, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República do Uruguai divulgou, no último 11 de agosto, que mais de 55.000 migrantes se estabeleceram no país entre os anos de 2013 e 2018. Os maiores grupos foram os de brasileiros, venezuelanos, cubanos e dominicanos — nessa ordem.

“É claro que situações dramáticas de crise econômica e política, como a que a Venezuela está vivenciando, geraram um movimento migratório sem precedentes na região. Mas é importante ressaltar também que, no mundo em que vivemos, a migração global do Sul para o Norte já tem menos peso que a migração interregional”, ressalta Martín Koolhaas, mestre em Demografia e Estudos Populacionais pela Universidade da República do Uruguai.

O pesquisador lembra que o Acordo de Residência do Mercosul — posto em plena vigência a partir de 2009 — favoreceu a migração interregional ao permitir que, entre os cidadãos sul-americanos, seja possível solicitar residência temporária em qualquer um dos países-membros do bloco com comprovação apenas de nacionalidade.

“O Uruguai deu ainda um passo à frente em relação ao Acordo de Residência do Mercosul e passou a oferecer, após uma lei aprovada em 2014, visto de residência permanente para os nacionais de todos os países da América do Sul”, acrescenta.

“Em entrevistas feitas com migrantes em geral, também são mencionados — entre os fatores que diferenciam o Uruguai de seus vizinhos — tranquilidade, estabilidade democrática e menor rejeição a minorias e populações migrantes. São imagens associadas a um país de direitos avançados que se projetaram internacionalmente”, finaliza.

Arte R7