Internacional Seis meses após Idai, Moçambique teme nova temporada de ciclones

Seis meses após Idai, Moçambique teme nova temporada de ciclones

Cerca de 95 mil pessoas estão vivendo em tendas, segundo a UNICEF, e podem ser atingidas. País se reconstrói lentamente depois de furacão

Pelo menos 2 milhões de pessoas foram afetadas pelo Ciclone Idai, em Moçambique

Pelo menos 2 milhões de pessoas foram afetadas pelo Ciclone Idai, em Moçambique

Foto: Siphiwe Sibeko/Reuters - 21.3.2019

Quase seis meses depois da passagem do Ciclone Idai, Moçambique se prepara para uma nova temporada de chuvas e ciclones. Em março, a tempestade tropical passou também pelo Zimbábue e pelo Malaui e deixou mais de 800 mortos nos três países.

Só em Moçambique, pelo menos 2 milhões de pessoas foram afetadas de alguma forma. Energia elétrica e comunicação foram cortadas, casas foram alagadas e destelhadas, hospitais foram atingidos e precisaram lidar com a superlotação de feridos e doentes.

Segundo Claudio de Sandra Julaia, especialista em emergências do Unicef em Moçambique, pelo menos 95 mil pessoas ainda estão desabrigadas desde a passagem do furacão e vivem em tendas e acampamentos criados pelo governo. Com a nova temporada de chuvas, eles podem ser atingidos novamente.

Com os recursos escassos e limitados, o governo de Moçambique ainda depende da ajuda de instituições humanitárias internacionais para ajudar em algumas áreas.

A proteção e as condições de habitação dessa população em risco podem ficar por conta da Cruz Vermelha e da Organização Internacional de Migração, que ainda estão ajudando na recuperação do país.

Segundo a ONU, ainda existem dois milhões de pessoas no país precisando de assistência humanitária, e pediu ajuda de quase US$ 400 milhões, cerca de R$ 1,6 bilhão, para continuar os projetos em andamento no país.

“Existe uma obrigação moral e é urgente que a comunidade internacional forneça apoio para salvar as vidas dos mais vulneráveis", disse Myrta Kaulard, coordenadora humanitária da ONU, segundo a agência EFE.

Cerca de 95 mil pessoas estão vivendo em tendas desde o ciclone

Cerca de 95 mil pessoas estão vivendo em tendas desde o ciclone

aron Ufumeli/ EFE - 23.3.2019

A ajuda internacional

Presente no país desde antes do ciclone, com projetos ligados à saúde e educação de crianças, a Unicef se prontificou a ajudar o governo logo após a passagem do furacão Idai. Com as inundações, a água foi contaminada e se tornou perigosa para consumo, além de comida ter se tornado escassa.

“Nós ajudamos no reestabelecimento da água potável, com caminhões cisterna e expansão do sistema de abastecimento, na área do saneamento nós construímos latrinas coletivas nos lugares que as famílias foram mandadas temporariamente e latrinas individuais onde elas foram restabelecidas”, contou Claudio.

Os fortes ventos acabaram destelhando casas, hospitais e escolas, e muitos lugares ainda não conseguiram se reconstruir. A organização também ajudou na reforma desses lugares, além de ajudar a controlar o surto de cólera que apareceu depois do Idai.

“Precisamos de um lugar para conservação de vacinas e demos apoio massivo na vacinação contra cólera e sarampo”, explica. Com a ajuda internacional, a epidemia da doença teve fim em julho.

A falta de alimento, que já era um problema existente no país antes do desastre, ampliou a desnutrição aguda. Com o agravamento da situação causado pelo Idai, o Unicef ajudou no fornecimento de alimentos e divulgação de planos nutricionais para gestantes e famílias.

O governo também recebeu ajuda do Unicef na emissão de novos documentos para a população, que acabou perdendo os originais nos alagamentos. Além disso, as crianças receberam ajuda psicossocial, reunificação familiar e algumas escolas acabaram sendo transferidas para outros lugares. 

Claudio destacou que a ajuda humanitária internacional é fundamental para ajudar o governo nas áreas com déficit, além de advogar pelas áreas que precisam de orientação e fundos e garantir que a assistência oferecida seja de qualidade e não prejudique ninguém.

Moçambique recebeu ajuda de diversos países nos mais variados setores. O Brasil enviou uma equipe de bombeiros que ajudou nos resgates e buscas em Brumadinho, depois do rompimento de uma barragem da Vale.

Claudio também destaca a ajuda do Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul, Angola, Espanha, Itália, Japão e Índia, que ficaram no país entre abril e junho.

“Eles ajudaram na assistência alimentar, abrigo, assistência médica, apoio aéreo [para ir em regiões de difícil acesso]” conta.

Reconstrução lenta

Seis meses depois, Moçambique se reconstrói paulatinamente. Claudio diz que muitas áreas afetadas ainda não receberam ajuda, mas em Beira, segunda maior cidade do país e uma das mais afetadas “nem parece que passou um ciclone”.

“A situação agora está mais calma. A energia elétrica e comunicação foram restabelecidas, muitas pessoas foram realocadas para outros lugares”, diz.

Apesar da situação mais controlada, muitas crianças ainda não estão frequentando a escola, já que muitas unidades ainda vão precisar de reformas e muito material didático foi perdido. Além disso, os hospitais ainda precisam de recursos.

“O governo tem um projeto de 5 anos para a reconstrução do país”, explica, e doadores já garantiram mais de 3 bilhões de dólares (cerca de R$ 12,25 bilhões) para os projetos. O dinheiro, porém, ainda não está disponível.