Arremetida: uma manobra que você precisa entender

Especialista em prevenção de acidentes e comandantes explicam e garantem aos passageiros que arremetidas são seguras e bem treinadas

Arremetidas: manobras seguras e ensaiadas à exaustão

Arremetidas: manobras seguras e ensaiadas à exaustão

Reprodução

Explorada por parte da mídia como algo incomum.

Classificada por muitos passageiros como manobra perigosa. 

Temida por leigos, que acreditam tratar-se de uma situação de emergência. 

Na verdade, a arremetida de uma aeronave nada mais significa do que um simples contratempo durante a operação de pouso. 

Os profissionais ouvidos pelo blog garantem que arremeter não é nenhum Bicho Papão.

"Podem ser fatores operacionais,  como por exemplo uma  falha não prevista que ocorra, uma aproximação não estabilizada, ou mesmo uma condição meteorológica desfavorável.
Mas pode ser também por fatores exógenos à operação,  como a entrada de um avião na pista que seria usada, ou a demora na saída do avião que pousou a frente. Ou mesmo um vento ou rajada dele que não esteja de acordo com o planejado", explica o comandante Fernando Pamplona, com larga experiência  em vários modelos do Boeing 737 e instrutor de voo.

Ex-piloto de linha comercial, Juliana Steck, a YouTuber do canal Ju Heps confima a simplicidade das arremetidas:

"Um alarme ou um equipamento que deixa de funcionar e pode influenciar no pouso, também pode levar a uma arremetida para que o piloto possa avaliar melhor a situação antes de prosseguir. A arremetida pode até mesmo ser solicitada pelo controlador, caso por exemplo um outro avião a frente esteja muito próximo, ou acontecer depois da aeronave tocar o solo, o "rejected landing" (pouso rejeitado), se o piloto julgar que a pista não será suficiente para parar a aeronave".

"Vários fatores podem influenciar a decisão de descontinuar uma aproximação, as mais comuns são quando os pilotos observam que a aeronave não se encontra estabilizada para o pouso em um determinado ponto geográfico e altura em relação a pista", diz Paulo Licati, comandante de Boeing 737 e especialista em prevenção de acidentes aeronáuticos.

"Variações também podem ocorrer, como o vento, entrada de chuva ou nevoeiro", complementa Licati.

Do ponto de vista operacional, a arremetida é uma manobra simples.

"Não é difícil e é treinada exaustivamente em simuladores de voo e é, até mesmo ,"ensaiada" na cabine durante o briefing de preparação para aproximação, motivo pelo qual procedimentos de arremetida dificilmente dão errado e no geral são responsáveis por evitar incidentes graves ou mesmo acidentes", explica Juliana Steck.

Ju Helps: manobra treinada exaustivamente em simuladores de voo

Ju Helps: manobra treinada exaustivamente em simuladores de voo

Arquivo pessoal

Fernando Pamplona diz que a manobra se assemelha a uma decolagem.

"A diferença é que não há corrida na pista, além disto a configuração do avião está feita para o pouso, o que significa que o objetivo é reduzir sua velocidade,  por meio do abaixamento dos flaps, e na decolagem o maior objetivo é ganhar velocidade,  além de altura, é claro. E neste ponto é que a atenção mais dos pilotos deve se concentrar, pois há uma modificação de atitude e da aerodinâmica do avião,  pois há o recolhimento dos flaps para melhorar a performance de subida, mas é tudo muito ensaiado nos treinamentos, e  a ordem das ações também é pré estabelecida".

Pamplona explica o porquê de alguns passageiros sentirem um pouco de desconforto na manobra: 

"Se usa mais potência (com as manetes à frente) do que nas decolagem normais, onde se usa potência reduzida, e a aceleração é maior, por isto alguns passageiros sentem certo desconforto,  parecendo ser uma manobra brusca"

Paulo Licati afirma que a rota a ser seguida pelo avião após a arremetida deve se livrar de obstáculos ao mesmo tempo em que o piloto aplica potência e "limpa" a aeronave, ou seja, recolhe flaps e trem de pouso.

"As cartas de aproximação por instrumentos têm o caminho a ser percorrido descrito. A comunicação com o Controle de Tráfego Aéreo é obrigatória caso esteja operando um aeródromo desprovido de controle. O piloto deve informar sua intenção e posição à outras aeronaves por meio de uma frequência de rádio conhecida por frequência livre".

 As consequências de uma arremetida são mínimas. Alguns pilotos brincam ao arremeter dizendo que "vão perder o comecinho do futebol", por exemplo.

Comandante Fernando Pamplona: 35 anos de experiência

Comandante Fernando Pamplona: 35 anos de experiência

Arquivo pessoal

"Dependendo da condição de tráfego aéreo ou meteorologia , o atraso para o pouso pode ser maior ou menor, mas em qualquer dos casos, os pilotos já consideram estes atrasos em seu planejamento de combustível necessário para a viagem, assim como o combustível usado caso seja necessário voar até outro aeroporto", diz Juliana Steck.

"Passageiros frequentes provavelmente já passaram por descontinuidade de aproximação. Na primeira vez pode trazer uma certa desconfiança, mas quando entendem que o motivo é a segurança, nas [arremetidas] seguintes com certeza entenderão que o comandante tomou a melhor decisão", garante Paulo Licati.

Fernando Pamplona lembra que além de um pequeno desconforto em alguns passageiros, a arremetida leva a um despejo maior de CO2 na atmosfera:

"Mas essas implicações são aceitáveis para manter a segurança".

E acrescenta:

"Eu como piloto, sendo um executor da manobra, ou mesmo quando viajo como passageiro, sendo um conhecedor do procedimento, não consigo responder se o susto do passageiro é muito grande, pois pra mim a maior preocupação em caso de uma arremetida é o transtorno temporal causado pelo atraso ou até mesmo voar para outro aeroporto de alternativa, e nunca a manobra em si. Portanto não posso dizer se vista de fora ou de dentro da aeronave a arremetida seja  algo que deva causar espanto.

Pamplona informa que em alguns aeroportos, por conta das variáveis de condições, as arremetidas podem ser mais comuns.

"Quanto menores a margens de manobra, por vento, pista curta, grande fluxo, entre outros, maior a chance de haver uma arremetida, eu prefiro não apontar nenhum [aeroporto] pra não criar uma pré disposição a este ou aquele"

Paulo Licati complementa:

"Cada um [desses aeroportos] tem as suas peculiaridades geográficas e meteorológicas, mas nada que impeça as operações"

Comandante Paulo Licati: especialista em prevenção de acidentes

Comandante Paulo Licati: especialista em prevenção de acidentes

Arquivo pessoal

Juliana diz que, definitivamente, o passageiro pode ficar tranquilo quanto ao preparo dos tripulantes para executar uma arremetida.

"O que para o passageiro pode ser uma surpresa, para o piloto faz parte do dia-a-dia, mas logicamente na grande maioria das vezes isso não ocorre".

"Antes de inciarmos a aproximação, fazemos um estudo detalhado e [entre os pilotos] combinamos o que fazer caso  algum parâmetro não esteja adequado", traquiliza Paulo Licati.

A manete de aceleração sempre é acionada durante a arremetida

A manete de aceleração sempre é acionada durante a arremetida

Arquivo pessoal

Cada modelo de aeronave tem um tipo de dispositivo para a arremetida. No Boeing há o botão "Go Around Trigger". Uma vez pressionado, a manete faz o movimento automaticamente.

No Airbus, com o sistema "fly-by-wire", o piloto posiciona a manete pra frente e o avião assume a função "Go Around".

Em aeronaves sem esse tipo de recurso, o piloto dá a potência necessária para a manobra de forma manual.

Para Juliana Steck, "apesar de visualmente a manobra de arremetida parecer algo assustador para um observador leigo em terra, dentro da aeronave só se sente uma leve aceleração, similar a decolagem. Um passageiro mais atento pode ouvir o recolhimento do trem de pouso e flaps, mas igualzinho na decolagem. O único porém é a surpresa, que provavelmente é o grande causador de estresse em alguns passageiros pois, como não há um aviso prévio quando acontece esse tipo de manobra, pode ser assustador para muitos. O importante é saber que se a aeronave arremeteu, está tudo dando certo e o pouso a seguir se dará com muito mais segurança".

Manete utilizada durante a manobra

Manete utilizada durante a manobra

Arquivo pessoal

Com mais de 35 anos de experiência na cabine de aeronaves, Fernando Pamplona ressalta que esclarecer os passageiros é essencial: 

"O importante é desmistificar a arremetida e mostrar que a manobra sempre foi a melhor opção naquele momento em nome da segurança, seja ela suave ou desconfortável. É apenas mais uma parte do voo, que apesar de inesperada pelos passageiros, é prevista, treinada e muito ensaiada pelos pilotos".

Então estão dadas as dicas a você, leitor.

Se a arremetida até agora foi um fator que te levou a sensações como medo ou desconfiança, relaxe. Não significa jamais que você esteja em situação de ameaça.

Alguns comandantes até ironizam quando alguns passageiros imaginam que a arremetida seja algum tipo de perigo ou defeito no avião.

"Se o piloto arremeteu, é porque o avião está funcionando. Se estivesse com problema grave, a gente pousava em vez de subir", disse um piloto de linha comercial que pediu anonimato.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas