Moto Segurança e Trânsito SV: O que o Setor de Duas Rodas pode aprender com Setor de Bebidas? 

SV: O que o Setor de Duas Rodas pode aprender com Setor de Bebidas? 

Segurança Viária: O que o setor de duas rodas pode aprender institucionalmente com  o setor de bebidas? É necessário olhar primeiro para o ser humano e depois para a venda

Durante SIPAT na Rede Record, abordando manutenção

Durante SIPAT na Rede Record, abordando manutenção

Foto: Alides Rasabone Garcia

"A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele" Hannah Arendt

Nos fins do século XX e início do século XXI  jamais vimos um setor apanhar tanto na mídia quanto o setor de bebidas.

Foi uma verdadeira avalanche de ações trabalhista, consumerista, do Ministério Público, de órgãos de segurança viária junto ao Poder Judiciário, CONAR e no âmbito político no Congresso Nacional.

Fora as questões de ordem econômica com a fusão de Antarctica e Brahma que criou uma das maiores multinacionais de bebida do mundo, a AMBEV, depois adquirida por um grupo belga mantendo o controle brasileiro para manter acordo no CADE. 

Encurtando a história, a AMBEV lançou uma das mais importantes campanhas institucionais, talvez do século, se eu não estiver exagerando, onde propõe ao cliente beber com moderação, ou ainda, não beber se for dirigir.

Fique claro, que meu olhar é a mais pura lembrança, visto aqui no Brasil, mas, não demorou muito para surgir campanhas fantásticas, como da Heineken que explorou de forma inteligente o papel da mulher na sociedade sem sensualização sendo inserida no futebol e o não beber se dirigir com ex-pilotos da Fórmula 1, primeiro com Jackie Stewart e recentemente com Nico Rosberg.

1200 alunos, além de professores e funcionários da ETEC Fernandópolis assistiram palestra, deslocamento sempre moto para dar exemplo

1200 alunos, além de professores e funcionários da ETEC Fernandópolis assistiram palestra, deslocamento sempre moto para dar exemplo

Foto: André Garcia

Do ponto de vista comercial não deve ter sido fácil criar o consenso da importância institucional dessas ações, mas, perceberam que agindo com ética, buscando orientar a sociedade sem olhar para o bolso a curto prazo, o negócio cresceria ou se multiplicaria a longo prazo e o que considero um dos fatores mais importantes: a imagem institucional ligada quase que por uma simbiose aos ensejos da sociedade e do Estado.

Para quem nunca ouviu falar, Marketing Institucional é a estratégia responsável pelo conjunto de ações de comunicação de uma empresa para com seu público, sociedade e Estado. Tem como objetivo construir e fortalecer a imagem de uma marca no mercado no que diz respeito não só as diretrizes de qualidade e oferta dos seus produtos e ou serviços mas o que ela faz em benefício da sociedade. Curioso que em algumas organizações, o Relações Institucionais responde diretamente ao Presidente ou ao CEO, isso demonstra que no conflito de interesses (por exemplo Institucional X Comercial), quem decide é o executivo que detém a mais alto cargo na instituição.

E o que tudo isso tem a ver com motocicleta?

Tudo!

Que a motocicleta é um veículo incrível, não tenho dúvidas, tanto que utilizo todos os dias, seja em trajetos curtos ou longos.

Mas, infelizmente, o modal lidera as pesquisas de acidentes fatais e com sequelados, tornando-se necessário o aprendizado pelo Setor de Duas Rodas com o exemplo da indústria de bebidas, se fazendo mais claro, preciso, ser mais enfático na divulgação e comercialização da motocicleta, além de, verdadeiramente, atuar proativamente nas questões de segurança viária.

Depois de realizar uma palestra, fui até o hotel (à 400 metros do evento) guardar a moto e voltei para tomar minha cerveja predileta. A responsabilidade do educador é enorme, pois educação também se dá pelo exemplo. Andar sóbrio e equipado (não só capacete) é dever

Depois de realizar uma palestra, fui até o hotel (à 400 metros do evento) guardar a moto e voltei para tomar minha cerveja predileta. A responsabilidade do educador é enorme, pois educação também se dá pelo exemplo. Andar sóbrio e equipado (não só capacete) é dever

Foto: André Garcia

Não basta vender, precisa vender bem e vender bem é o cidadão ou cidadã saber pormenorizadamente o que está comprando, porque está comprado, qual o uso que fará, qual o habitat do produto, qual a sua experiência, manutenção, a necessidade de equipamentos (não só capacete), dos riscos e como evitá-los.

Não basta só sair bonitinho na foto, é necessário deixar a demagogia e a hipocrisia de lado e, realmente, fazer algo, que surta efeito a médio e longo prazo, técnico e pedagogicamente falando.  Adianta gastar milhares de reais, me falaram em R$ 300 mil, em uma blitz para atender 2, 3 mil pessoas paradas a contragosto, sabendo que do ponto de vista pedagógico não se obtém resultado?

Blitz educativa só serve para obter dados, realizar estatística, para saber onde o usuário está falhando na manutenção do veículo de duas rodas, defender que educa, sinceramente é querer enganar.

Blitz alto custo para pouco resultado pedagógico

Blitz alto custo para pouco resultado pedagógico

Foto: Acervo André Garcia

Infelizmente, nos últimos tempos, o termo política no Brasil se tornou palavra de baixo calão, mas quando buscamos sua acepção, sua terminologia, iniciando o estudo por Aristóteles, concluímos que nada mais é que uma ciência que visa administrar determinada organização coletiva, buscando o bem comum dessa organização que denominamos sociedade. E daí chegamos ao altruísmo, fazer o bem sem olhar a quem, ter preocupação com o próximo, chegando a filantropia e até no amor ao próximo, na abnegação, não como religião, mas como filosofia de vida.

Educação começa em casa e com exemplo. Filho na garupa tão bem equipado quanto o pai condutor. Sem equipamento não anda de moto

Educação começa em casa e com exemplo. Filho na garupa tão bem equipado quanto o pai condutor. Sem equipamento não anda de moto

Foto: Alides Rasabone Garcia

Ação institucional realizada só na base de incentivo fiscal, me perdoe, não é ação institucional. E mais uma vez a indústria de bebidas deu exemplo, quando investiu muito dinheiro em propagandas institucionais que não tardou para se tornar um marketing puramente comercial com mote de responsabilidade.

Se, realmente existe uma missão institucional com preocupação social, ambiental etc…Só fazê-la mediante incentivo fiscal é hipocrisia.

E quando discutimos as questões da sociedade brasileira no trânsito, já se tornou retórica e até mesmo redundante que o caminho é a educação. É óbvio demais!

Palestra realizada na ETEC de Palmital em 2018. Educação não se faz no estilo fastfood

Palestra realizada na ETEC de Palmital em 2018. Educação não se faz no estilo fastfood

Foto: André Garcia

Educação é o único meio para transformar o indivíduo.

Que temos uma problema educacional sério no país é fato, mas se cada agente fizer o seu papel dentro da sociedade e ajudar (não só cobrar) o Estado, não tenho dúvida que mudaremos para melhor. Todos estão no mesmo barco e basta um doente para contaminar todos os demais, seja com a própria doença (ignorância), seja com o seu resultado (violência).

Mototaxistas de Guajará-Mirim treinados pelo Projeto Motociclismo com Segurança  com a Universidade Federal de Rondônia

Mototaxistas de Guajará-Mirim treinados pelo Projeto Motociclismo com Segurança com a Universidade Federal de Rondônia

Foto: Renato Pinto de Almeida Neto

Mas, o que é agir dentro do seu papel?

Agir com ética, moral, valor, dentro da sua atividade ou atuação social. Quase que desenhando, não enganar por mero interesse comercial, todavia, a falta de conhecimento somado ao ato de enganar pode levar alguém a morte.

O que muitos enxergam como uma grande dicotomia (institucional X comercial), talvez seja questão de inteligência, afinal o olhar social não é algo idealista ou ingênuo, acaso, esteja sendo cego aquele que entende que não se preocupar com o próximo, não agir com ética, olhando só para números, esteja tornando seu negócio altamente rentável, mas um dia vai para o buraco e o culpado será, sempre, o azar ou a política econômica. 

Após palestra, demonstração de frenagem para todos os funcionários da Antoniosi em Matão-SP

Após palestra, demonstração de frenagem para todos os funcionários da Antoniosi em Matão-SP

Foto: André Garcia

Não adianta ter bons números a curto prazo se a médio e longo prazo as pessoas se afastarem da moto, do motociclismo, porque algo trágico aconteceu com um amigo ou um familiar ou mesmo o próprio motociclista ou motoqueiro nunca mais comprar uma moto ou um capacete ou qualquer outro equipamento, além de alterar toda cadeia familiar, econômica e social.

Nota: Durante apresentação do estudo “Motociclistas na cidade de São Paulo”, Professor David Duarte Lima, da UNB e Instituto de Segurança do Trânsito, narrou o caso de um jovem com 19 anos de Brasília que na rodovia com moto de baixa cilindrada ficou paraplégico, após acidente com caminhão. Não é só mais um sequelado, mas a família não tem dinheiro para comprar um mísero saco de cimento para adaptar sua moradia dentro das necessidades de um cadeirante.  Click aqui e leia sobre o estudo.

Falando sobre a importância do EPI para conduzir motocicleta - ETEC de Taquarituba - Teatro municipal da cidade

Falando sobre a importância do EPI para conduzir motocicleta - ETEC de Taquarituba - Teatro municipal da cidade

Foto: André Garcia

Quando me refiro ao Setor de Duas Rodas não falo só da indústria de veículos de duas rodas (óbvio que é a principal), mas também da indústria e importadores de equipamentos e lojistas.

A liberdade vendida no mundo das duas rodas, é relativa e não absoluta. Sem mencionar, que é muito mais ilusão do que realidade.

Da mesma forma que hoje o setor de bebidas trata abertamente a questão do álcool, informando ao cliente que não deve beber se dirigir ou que deve beber com moderação, fico aqui imaginando quando é que veremos fabricantes falando abertamente que a moto de baixa cilindrada não foi concebida para andar em rodovia ou em vias rápidas, melhor, quando é que fará apologia ao sistema ABS de frenagem (leia aqui sobre o tema) ao invés do sistema combinado, nas motos de baixa cilindrada, que é uma falácia, quando dará atenção a ergonomia na pilotagem dado a péssima ideia de mudar os botões de buzina e seta no punho esquerdo - aceitando uma padronização que vem há mais de 40 anos (leia aqui sobre o tema) e replicado no site do DETRAN/RS (aqui), falar seriamente de pneu (aqui) contra o crime da recauchutagem. tratar do assunto sobre o conjunto de relação (coroa, pinhão e corrente) com seriedade ao invés de fazer lobby (na minha opinião) para flexibilizar norma técnica do INMETRO para importação chinesa mesmo em detrimento da indústria nacional (aniquilando empregos como acontece no Estado de São Paulo)  e pior da segurança do motociclista (leia aqui sobre o tema), pensando só em seus custos e por aí vai… todos temas que são fatores de acidente. Em outras palavras, é a tal da preocupação social, mas, é mais fácil jogar a conta para o Estado.

Palestra realizada na linha de produção parada por determinação do dono da Antoniosi

Palestra realizada na linha de produção parada por determinação do dono da Antoniosi

Foto: Diego Cipó

Sabemos que o acidente pode ser causado por falha mecânica, erro humano (negligência, imprudência e ou imperícia) ou falha na manutenção da via, entretanto, aponto um quarto elemento: a falta de informação (total ignorância, falta de conhecimento e ou ser levado ao erro) sobre um veículo fora do seu habitat ou sobre um capacete (ou equipamento) inadequado para determinada motocicleta ou para determinada prática. Exemplifico: um capacete de casco injetado ou termoplástico com engate rápido não pode ser utilizado em um track day, ou pior, o cidadão compra uma moto de R$ 70 mil reais e ninguém fala que ele deveria comprar um capacete top de linha de fibra sintética, mesmo na cidade e rodovia, não fala para não perder a venda do capacete injetado que remete a alguma piloto de motovelocidade, não se explica porque existe a diferença técnica e de preço. E quando vamos para a base da pirâmide, onde está 80% do mercado, o engodo é surreal.

Equipamento tem preço mais acessível que smartphone.

Equipamento tem preço mais acessível que smartphone.

Foto: André Garcia

Nota: No mundo jurídico há diversas obras desenvolvendo teses, relacionadas a enganos na relação de consumo, vícios de consentimento, vícios sociais do negócio jurídico, mas uma obra vale referenciar: “A reserva mental na teoria geral do negócio jurídico” que deu o título de Mestre pela PUC-SP(entre 1978-1983) ao Prof. Doutor Nelson Nery Júnior.

Aula de ponto cego para alunos da ETEC de Fernandópolis. Todos os 1200 alunos, além de professores e funcionários participaram da ação de segurança

Aula de ponto cego para alunos da ETEC de Fernandópolis. Todos os 1200 alunos, além de professores e funcionários participaram da ação de segurança

Foto: André Garcia

Certa vez, realizando o SIPAT em uma multinacional, quando terminei a palestra, o Técnico de Segurança do Trabalho, pálido, veio conversar e afirmou que não tinha parado para pensar que os perrengues que vinha passando na rodovia, era por conta da motocicleta que utilizava. Terminou afirmando que ele estava na posição de dar exemplo e duas semanas depois, após algumas sugestões, trocou de moto, abandonando a moto de baixa cilindrada que foi pensada para, tão somente, uso urbano.

Pensar institucionalmente, é criar imagem positiva da instituição e ou do produto, informar a sociedade, criar uma relação de intimidade e confiança, priorizar as demandas da sociedade alinhando suas demandas e ajudando o Estado com questões técnicas, já que, no caso, a motocicleta é um veículo peculiar, fascinante, veio para ficar dado sua mobilidade, ocupação de pouco espaço público, economia de combustível, custo de aquisição e manutenção, mas se nada for feito, restará ao Estado proibir com apoio de quem paga a conta (sociedade).

Semana Nacional de Trânsito no DETRAN de Guajará-Mirim-RO com alunos do INFO

Semana Nacional de Trânsito no DETRAN de Guajará-Mirim-RO com alunos do INFO

Foto: Renato Pinto de Almeida Neto

A mentalidade atual, precisamos vender e o ônus que seja resolvido pelo Estado, precisa ser superado. O problema não está só na concessão da CNH. (leia aqui)

É urgente olhar para o ser humano e não para a venda. Olhar para o ser humano, a venda será consequência, natural e não o inverso. Salvo, se o objetivo for vender uma única vez.

O Brasil é um país fantástico, onde é possível andar de moto durante os 12 meses do ano, ao contrário da Europa e América do Norte que só podem andar por 6 meses.

Ensinando que o principal freio da moto é o dianteiro para alunos da ETEC de Taquarituba - SP, já foram 15 atendidas, mas objetivo é passar por todas em toda Estado de São Paulo a custo zero ao erário

Ensinando que o principal freio da moto é o dianteiro para alunos da ETEC de Taquarituba - SP, já foram 15 atendidas, mas objetivo é passar por todas em toda Estado de São Paulo a custo zero ao erário

Foto: acervo André Garcia

No entanto, caso não discutirmos segurança viária de forma verdadeira, séria, técnica e pedagógica, olhando a longo prazo, todo o mercado corre um sério risco, colegas e amigos que tem realizado trabalhos incríveis em prol da história da motocicleta e do mototurismo, não terá público, o Estado estará com um rombo previdenciário sem precedentes e parte da sociedade destruída por algo evitável. Não canso de afirmar: acidente de trânsito não é cármico e ou predestinado, afinal Deus deve ter coisas mais importantes para se preocupar.

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