Nosso Mundo O que o racismo involuntário pode ter a ver com as críticas a Neymar?

O que o racismo involuntário pode ter a ver com as críticas a Neymar?

Vice-campeão da Copa América, atacante da seleção brasileira sofre com repulsa desproporcional quando comete erros

  • Nosso Mundo | Eugenio Goussinsky, do R7

Neymar tem recebido muitas críticas

Neymar tem recebido muitas críticas

Antonio Lacerda/EFE/02-07-21

Aqui não vai nenhuma acusação direta a alguém específico. O tema, afinal, é delicado e importante. Vale para uma reflexão geral, que inclui toda a sociedade. E aborda o chamado racismo estrutural, involuntário. Muitos garantem que, apesar dele existir, jamais o utilizaram.

Certamente, alguns realmente não fazem uso dele. Quando criticam um cidadão negro, o fazem como fariam com qualquer outro cidadão.

Outra parte, no entanto, pode não enxergar que, imperceptivelmente, quando faz uma crítica, apesar de encoberta por outras roupagens, esta é subjetivamente direcionada pelo fato de o cidadão ser negro. Neste sentido, até que ponto estão sendo justas algumas das críticas a Neymar?

É clara a evolução que o combate ao racismo teve de uns anos para cá. Leis foram criadas e a própria sociedade se deu conta, em grande parte, do quanto essas atitudes se enraizaram, de forma silenciosa, e precisam ser erradicadas.

Questionou-se o porquê dos negros terem um nível de escolaridade menor; por que há mais negros detidos nas prisões e se levantou, para melhorar a situação, outros temas que rejeitam a inaceitável postura de colocar os negros em posições inferiores.

Já não se aceita, pelos menos, no discurso, o que já é um avanço, que, no futebol, torcedores chamem jogadores negros por nomes pejorativos.

Com sabedoria, busca-se evidenciar que não é justo um cidadão negro não ter as mesmas oportunidades de formação cultural, de estruturação econômica e de inserção social que um branco.

Mas, e quando ele, cidadão negro, se destaca em alguma área específica? Mesmo que seja o futebol, onde os atributos físicos são mais valorizados que os intelectuais.

"Curiosamente, o esporte mais popular do mundo é uma das modalidades na qual o negro só é valorizado por causa de seus atributos físicos e qualidade técnica", afirmam os professores de psicologia Paula Ângela de Figueiredo e Fábio Henrique Alves da Silva, formados pela PUC-MG, na tese cujo título é "Os Impactos do Racismo na Subjetividade do Jogador de Futebol Negro".

A impressão que passa é que ainda não se discutiu o suficiente a questão do racismo em caso dos jogadores negros que têm sucesso. Neymar é um exemplo dessa possibilidade.

Ele tem sido criticado, em várias ocasiões, com uma intensidade desproporcional. Quase tudo o que faz vira motivo de repulsa.

Pode haver, em muitas destas críticas, um racismo despercebido, o tal racismo subjetivo citado pelos psicólogos acima, que só permite que um jogador negro seja aceito se não incomodar.

Mas quando Neymar erra, quando ele é debochado, quando dá opiniões equivocadas, ou até mesmo ostenta, vem uma chuva impiedosa de críticos.

Dá a sensação de que um negro não pode ostentar, um negro não pode falar bobagem, um negro não pode simular faltas, um negro não pode reagir com arrogância após superar a pobreza, as dificuldades, a falta de estudos e de oportunidades e lidar com o racismo.

No inverso, muitas destas críticas a Neymar não ocorrem desta maneira quando as mesmas pessoas que criticam, analisam, com toda a razão, com empatia, o caso, por exemplo, de um jovem negro que rouba por causa de um prato de comida.

Neste caso, o jovem acaba sendo compreendido, de uma justificada forma humanista, dentro de uma análise do contexto que cercou sua situação.

Mas a mesma análise do contexto não vale para um negro que se tornou milionário em sua profissão?

A má-vontade contra Neymar, existente em vários setores, da esquerda à direita, suscita essa dúvida em muitos casos.

Jaguaré nos anos 30

Nos anos 30, o goleiro Jaguaré, negro, foi para o Barcelona e teve problemas semelhantes quando, ao ir a boates, se incrementava com joias e roupas caras, como uma resposta ao racismo. Uma atitude compreensível, corajosa e legítima, se contraposta ao sofrimento pelo qual ele havia passado.

Talvez, em alguns aspectos, esteja ocorrendo algo semelhante com Neymar, quando a acidez das críticas não aceita o fato de que, muitas vezes, ele é superficial, imperfeito, gosta de videogames ou se manifesta de alguma maneira indesejada. A tolerância não seria maior se ele não fosse negro? Por que ele é visto, frequentemente, com tanta irritação?

Por outro lado, gestos como o choro após um jogo da seleção, o juramento de amor à camisa do Brasil, o investimento em fundação de auxílio a crianças carentes e até o reconhecimento da derrota, ao abraçar o adversário e amigo, são pouco reconhecidos.

Até mesmo sua grande habilidade e o potencial dele ser um grande ídolo brasileiro são minimizados, em um país que parece estar com sua identidade fragmentada. Vale cada um se perguntar:

"Por que eu não gosto do Neymar por muitas vezes ele não entregar o que promete? O que ele faz de tão grave, qual a sua função como jogador e ser humano que não atende às minhas expectativas?"

E a empatia em relação à formação de Neymar, por seu histórico de dificuldades, onde está? Só porque Neymar faz sucesso não a merece, por parte dos que com ele não simpatizam?

Se a resposta, no íntimo de alguns, for sim, Neymar, em relação a eles, está sendo alvo de um tipo de racismo, que entra em uma etapa avançada do debate, e até pode ser involuntário. Muitas vezes feito até por pessoas que não podem e não devem ser encaixadas no rótulo de racistas. Algo para se pensar.

Tóquio 2020: Veja estádios, ginásios e locais de competição dos Jogos

Últimas