Rio de Janeiro Sem depender de reservatórios, Itatiaia enfrenta problemas para administrar água

Sem depender de reservatórios, Itatiaia enfrenta problemas para administrar água

Cidade de 28 mil habitantes não tem, sequer, um serviço responsável pelo saneamento básico

Sem depender de reservatórios, Itatiaia enfrenta problemas para administrar água

Em meio à crise hídrica que assola o Sudeste, Itatiaia (RJ) sempre viveu um cenário que poderia ser classificado de “independência de água”. Isso porque a cidade de 28 mil habitantes não usa a mesma fonte de captação das vizinhas: o rio Paraíba do Sul. As nascentes dentro do Parque Nacional do Itatiaia são suficientes, em períodos de chuvas regulares, para abastecer todos os moradores e os cerca de 7.000 turistas que visitam o município todos os meses. Além disso, ninguém paga conta de água.

Mas a cidade ser autossuficiente em água, não significa que todas as calçadas em Itatiaia sejam lavadas com mangueira diariamente. O município enfrenta problemas de tratamento, distribuição e armazenamento. Em algumas épocas do ano, já chegou a haver rodízio. A ausência de uma conta no fim do mês é um dos motivos.

O secretário municipal de Meio Ambiente, Domingos Baumgratz, conta que, desde que Itatiaia se emancipou de Resende, há 25 anos, “pouco foi, de fato, investido na questão de saneamento básico”.

— As nossas redes de água e esgoto são limitadas. O ideal é que, depois da captação, haja reservatórios, o que não acontece na região central. Nossa tubulação não é pressurizada. O sistema de cloração com pastilhas não é hoje o mais adequado.

Sem doer no bolso, há quem exagere. O R7 flagrou, por exemplo, um imóvel de médio porte com três caixas d’água de 25 mil litros. O secretário diz que isso prejudica outros consumidores e que a água de graça em Itatiaia está com os dias contados.

— É inevitável que todos paguem água no futuro. A tarifação é em função do uso. Mas existe, para a população de baixa renda, a tarifa social. O que muda, e aí o comércio tem que entender isso, é que alguém que tem uma reserva de água de 75 mil litros vai pagar por isso.

A prefeitura da cidade começou a dar andamento ao Plano Municipal de Saneamento Básico, elaborado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, e que prevê uma completa restruturação do atual sistema. Um serviço autônomo de água e esgoto será instalado na cidade. As obras serão feitas primeiro na região turística de Penedo.

Abastecido por água da Fazenda da Serra — um curso d’água que foi represado, inicialmente para abastecer a Academia Militar de Agulhas Negras —, Penedo, onde vivem cerca de 5.000 pessoas, concentra um grande número de pousadas. O projeto prevê organizar a captação, o tratamento, o armazenamento e a distribuição da água, além da implantação de novas tubulações. O custo deverá superar os R$ 4,2 milhões, dinheiro disponibilizado pelo Estado. Se tudo correr conforme o cronograma, Baumgratz espera que até o fim de 2016 as obras estejam terminadas.

Ainda não há um projeto específico para a região central. Segundo o secretário, deverá levar mais tempo até que seja readequado o sistema de água das 20 mil pessoas que vivem lá. Quando isso acontecer, todos passarão a pagar pela água.

A notícia não agrada muito a aposentada Regina Valdetaro.

— Se pagar, eu vou pagar e não vou ter uma água de qualidade garantida. Então, eu prefiro não pagar.

A cabeleireira Ana Maria Ribeiro também concorda que a tarifa pode não ser bem-vinda.

— Eu gostaria de nunca ter que pagar. Para o meu negócio, será um custo a mais.

Mas o secretário explica que não há mais como manter a situação do jeito que está.

— A partir do momento em que nós implantarmos uma empresa para tratar da gestão do saneamento básico, implantar os sistemas, rede e tudo isso, não tem como deixar de realizar a cobrança de água. A lei nos obriga. É essencial para que se possa ter até uma sobrevida. 

Baumgratz aposta que a conta no fim do mês seja mais um estímulo para fazer com que as pessoas tenham consciência sobre o uso da água. A crise hídrica no Sudeste serviu como um alerta, segundo ele. 

— A natureza foi muito elegante com Itatiaia. Tem a serra, a mata exuberante e tem os mananciais, que não precisamos depender da água do rio Paraíba do Sul. Apesar desse privilégio todo, a natureza não escolhe lugar, nem hora. Nós também, em período de estiagem, tivemos problemas de abastecimentos por três anos consecutivos. Além das obras necessárias, as pessoas precisam economizar.