Rio de Janeiro Shopping do Rio teve rolezinho de sem-teto há 13 anos; relembre

Shopping do Rio teve rolezinho de sem-teto há 13 anos; relembre

Para pesquisadora, a ocupação de centro comercial em 2000 revelou preconceito velado

Shopping do Rio teve rolezinho de sem-teto há 13 anos; relembre

Em 2000, um grupo de manifestantes invadiu pacificamente um shopping na zona sul do Rio; houve discriminação

Em 2000, um grupo de manifestantes invadiu pacificamente um shopping na zona sul do Rio; houve discriminação

Reprodução / Documentário Hiato

Em agosto de 2000, um grupo de manifestantes sem-teto foi de ônibus ao shopping Rio Sul, em Botafogo, zona sul do Rio, para protestar contra a desigualdade social. Com grande cobertura da imprensa, o fato ganhou proporção devido à reação dos comerciantes e frequentadores do espaço. Sete anos depois, a ocupação foi debatida no documentário Hiato, de Vladimir Seixas, pelos próprios ocupantes. Segundo eles, a intenção do ato era quebrar uma barreira invisível entre as classes (assista ao vídeo abaixo).

Para Ivana Bentes, professora e pesquisadora da Escola de Comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o evento que aconteceu há 13 anos ajudou a revelar um preconceito velado, que as pessoas sabiam que existia, mas que não era tão exposto.

— Pode-se considerar um dos atos mais importantes de intervenção política eficaz. Naquela época era estranho uma pessoa pobre visitar um shopping. A classe C daquela época ainda não tinha esse poder aquisitivo.

Após 13 anos, a ação pode ser considerada precursora do rolezinho, movimento criado pelos jovens da periferia de São Paulo, onde grandes encontros em shoppings da cidade são marcados pela internet. Alguns rolês assustaram os frequentadores e terminaram com intervenções policiais.

No próximo domingo (19), um evento semelhante deve acontecer no Shopping Leblon, na zona sul do Rio. Segundo os organizadores, o rolezinho carioca foi criado em apoio aos paulistas e “contra toda forma de opressão e discriminação aos pobres e negros".

Ivana diz acreditar que esse novo ato é político e visa a inclusão da juventude negra periférica, que, segundo ela, ainda enfrenta a segregação e sofre com a racialização do consumo. Para a pesquisadora, ele se diferencia da ocupação de 2000 pela descentralização.

— É um evento descentralizado, de diferentes grupos sociais, com uma proposta política de ser solidário aos grupos de periferia jovem.

Para o diretor do documentário, Vladimir Seixas, o “rolezinho” é importante para colocar em pauta as questões sobre o preconceito.

— Voltar a discutir isso da maneira como vem sendo colocado significa que todas as questões de segregação e preconceito são latentes em nosso país.

Passeio x arrastão

Em Hiato, os manifestantes colocam em xeque a ação da polícia na ocupação do Rio Sul. De acordo com eles, antes de o ônibus com os manifestantes chegar ao shopping, a polícia já fazia uma barreira na porta do centro comercial.

Um dos ocupantes afirma que, na época, os comerciantes pensavam que haveria um arrastão no shopping, mas a única intenção do grupo era passear e conhecer o local. Outros disseram que se sentiram excluídos quando entraram no local.

— Teve uma hora que eu entrei em uma loja e a mulher se sentiu apavorada, se encolheu no canto. Ela não conseguia falar, só ficava olhando assustada.

Para Ivana, essa reação é sintomática e revela um "racismo velado".

— As pessoas veem o espaço de conforto invadido. O shopping é considerado uma bolha de segurança. Fazer esse tipo de questão chegar nesse espaço é incrível.

No documentário, o cineasta Silvio Tendler diz que a intenção do ato era denunciar o consumo em contraponto com a miséria dos sem-teto.

— Eles denunciam a desigualdade, esse é o ato inteligente deles. Eles usam isso como uma forma de fazer mídia. Eles não reclamam da mídia, eles criam o fato.

*Colaborou PH Rosa, do R7 Rio

Assista ao filme: