São Paulo Homem acusado de golpe com o Tinder é investigado também por estelionato contra os pais

Homem acusado de golpe com o Tinder é investigado também por estelionato contra os pais

Rafael Siqueira teria vendido a casa dos parentes após fazê-los assinar um documento. Ele é alvo de ao menos cinco boletins de ocorrência na polícia

  • São Paulo | Mariana Rosetti, da Agência Record, com informações do Fala Brasil, da Record TV

Uma mulher sofreu um golpe milionário após conhecer um homem pelo Tinder e perdeu ao menos R$ 50 mil. Informações da polícia dão conta, no entanto, de que ela pode não ser a única vítima. O mesmo suspeito é investigado por outros crimes semelhantes em diferentes municípios de São Paulo. 

Pelo menos cinco boletins de ocorrência aparecem nos registros da Polícia Civil quando o nome, sobrenome e CPF de Rafael de Jesus Siqueira, de 26 anos, são consultados. Em meio às vítimas, estão até mesmo os pais de Rafael. Procurado pela Record TV, ele não se manifestou e disse que falaria apenas na presença de um advogado. 

Rafael, suspeito de aplicar golpes

Rafael, suspeito de aplicar golpes

Reprodução/Record TV

São dois boletins de ocorrência de estelionato, um de calúnia e um de disposição de coisa alheia como própria, além de ameaça e violência doméstica, registrados em diferentes delegacias. A Agência Record obteve os documentos com exclusividade após uma vítima denunciar Rafael, em maio de 2022, ao conhecê-lo em um aplicativo de relacionamentos.

A advogada Janaína Padilha de Alvarenga, representante dos pais de Rafael, foi até a Delegacia de Atibaia em 8 de março de 2021 para relatar que o casal foi vítima de estelionato pelo próprio filho.

Em 5 de janeiro daquele ano, Rafael convocou os pais dizendo que queria adquirir um carro e que precisava da assinatura deles para serem avalistas na compra. Confiando no filho, o casal assinou documentos no cartório de Atibaia.

Os pais são analfabetos e não sabiam o conteúdo dos papéis, conta a advogada. Sem que soubesse, o casal assinou uma procuração que dava a Rafael direito sobre o imóvel onde eles moravam.

Alguns dias depois da visita ao cartório, a mãe de Rafael foi até a delegacia e registrou um boletim de ocorrência não criminal. O intuito da mulher era notificar a Polícia Civil de que assinou documentos que acreditava ser da venda do imóvel.

A preocupação da mãe de Rafael ganhou vida em 4 de março, quando um policial militar tocou a campainha da residência. Ele estava ali para passar a titularidade do terreno que adquiriu com Rafael.

Após conversar com o casal, o policial percebeu que todos foram vítimas de estelionato. Ele registrou um boletim de ocorrência no 17 º Distrito Policial (Ipiranga).

Segundo a advogada dos pais de Rafael, o processo ainda tramita na Justiça, tanto na esfera cível, já que ela tenta reverter a procuração e a venda da casa, como na esfera criminal, que investiga o crime de estelionato.

Outro boletim de ocorrência, registrado na Delegacia de Atibaia, em 23 de fevereiro de 2021, também carrega a natureza de estelionato e tem Rafael como autor.

Uma mulher, com 60 anos na época, contou à Polícia Civil que negociou aproximadamente 60m² de um terreno, pelo valor de R$ 5 mil, em janeiro daquele ano. O vendedor era Rafael.

Hoje, com 62, ela conta que soube da venda do terreno por intermédio da filha, que era amiga de Rafael. A vítima lembra que se sentiu pressionada a fazer a compra, já que o suspeito dizia ser uma boa oportunidade e que várias pessoas estavam interessadas.

A mulher reuniu as economias e sacou o montante de R$ 5 mil. Após o pagamento, Rafael não foi mais visto.

Segundo o boletim de ocorrência, no cartório da cidade ela constatou que o terreno era, na verdade, uma viela. Sendo assim, não poderia usufruir do espaço. À Agência Record, a vítima disse que procurou a Prefeitura de Atibaia dias depois do golpe e descobriu que o terreno negociado pertence à casa dos pais de Rafael.

Ela não chegou a processá-lo e não teve o dinheiro de volta.

Calúnia e demissão

Rafael também foi denunciado por calúnia por uma colega de trabalho, que contou à Polícia Civil ter sido demitida por conta dele. O boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia de Taquaritinga, em 12 de maio de 2021.

Na época com 20 anos, a mulher contou que trabalhava em uma empresa de venda de pacotes de internet. Ela era responsável por realizar novos contratos, então, qualquer cliente, instalação e emissão de nota fiscal passava pelo seu aval.

O comprador fazia o pedido e Rafael era acionado para realizar a instalação no imóvel, que era gratuita para o cliente, conta a vítima. Ele trabalhava como técnico em uma empresa terceirizada.

Segundo o boletim de ocorrência, alguns clientes começaram a denunciar que Rafael cobrava R$ 400 pela instalação da rede de internet. Ao ser confrontado, o homem disse que cobrava o valor e repassava o dinheiro à vítima.

Com base no relato de Rafael, em 6 de maio de 2021, a mulher foi demitida do seu emprego com a alegação de que recebia repasse do dinheiro das instalações, o que era ilegal.

Ela disse que acionou um advogado e, além de registrar o boletim de ocorrência contra Rafael, também moveu um processo contra a empresa, que acabou por retirar a queixa e indenizá-la, por falta de provas.

Rafael saiu da empresa e não foi mais visto. Na época, segundo a vítima, ele morava em Araraquara, no interior de São Paulo.

Venda de veículo

Registrado como "disposição de coisa alheia móvel como própria", um boletim de ocorrência da Delegacia de Presidente Prudente, de setembro de 2021, também menciona Rafael.

Uma fisioterapeuta de 38 anos narrou à Polícia Civil que conheceu Rafael como sendo amigo do seu falecido marido. Ela conta que Rafael se identificou como bombeiro militar e disse que havia estudado com o marido da vítima e frequentado vários lugares em comum. Após ganhar a confiança da mulher, se prontificou a ajudar na venda de um carro, um Fusca vermelho de colecionador.

No dia 19 de agosto de 2021 ele pegou o veículo para mostrar a um suposto comprador e desapareceu. A fisioterapeuta contatou Rafael, que disse ter vendido o carro e depositado dinheiro na conta dela, o que não aconteceu.

A mulher ressaltou que Rafael já havia pegado o carro outras vezes, mas sempre o devolvia. O veículo estava à venda por R$ 20 mil.

Em 1º de setembro, um boletim de ocorrência complementar foi anexado ao registrado pela fisioterapeuta, já que a Polícia Militar encontrou o Fusca em uma tapeçaria, onde passaria por reforma nos bancos.

O novo proprietário contou à Polícia que comprou o veículo de Rafael pelo valor de R$ 5 mil de entrada, mais algumas parcelas de R$ 3 mil. As duas vítimas, tanto a dona do Fusca, como o novo comprador, estiveram na delegacia. Rafael não foi encontrado para ser ouvido.

A mulher disse que o processo tramita na Justiça.

Violência doméstica e ameaça

A vítima mais recente de Rafael, segundo os registros na Polícia Civil, é uma atendente de telemarketing, de 31 anos, que o denunciou por violência doméstica, ameaça e estelionato. Ela teve um prejuízo de mais de R$ 30 mil após conhecê-lo no Tinder.

Rafael estava em Mauá, no ABC paulista, onde mora a vítima, fazendo um serviço para sua suposta empresa de alvenaria, quando se conheceram através do Tinder.

Eles saíram e se deram muito bem logo de início, conta a mulher. Aos finais de semana, o homem viajava para visitá-la e sugeriu alugar um imóvel para ficar ainda mais perto.

A vítima, então, ofereceu que Rafael ficasse com ela em um imóvel no fundo da casa dos pais e os dois passaram a morar juntos. Tudo aconteceu de forma rápida e intensa, conta.

Rafael incluía os sogros em tudo o que fazia e começou a frequentar eventos familiares, ganhando a confiança e afeto de todos.

O mundo da atendente desabou completamente em 11 de abril, quando atendeu a ligação de uma financeira que pedia dados para concluir a solicitação de um empréstimo. Ela se assustou e disse que não havia solicitado empréstimo algum ao banco.

Ao consultar suas contas, no entanto, soube que Rafael havia acessado os aplicativos e feito, pelo menos, três empréstimos. No banco Nubank, o homem pediu o valor de R$ 20 mil, no Itaú, R$ 18 mil e depois outro de R$ 7 mil.

A vítima conta que Rafael estruturou o golpe de uma maneira complexa. À vítima, ele dizia que estava com o nome sujo por conta da empresa que tinha e, por esse motivo, não possuía cartões de crédito.

No primeiro mês, ele pedia que a mulher passasse as compras em seu próprio cartão e transferiu o valor corretamente na data do vencimento. Depois de ganhar a confiança da mulher, Rafael pedia que ela pagasse contas ainda mais altas.

Só depois ela soube que o valor era pago com o dinheiro adquirido a partir dos empréstimos em seu nome, feitos em 7 de março. Quando confrontou Rafael, o homem primeiro disse que iria pagar o que estava devendo. Em seguida, ameaçou a atendente, dizendo que a mataria se ela contasse a alguém.

Em outro período Rafael planejou viagens com a parceira, dizendo que tinha ganhado um dinheiro extra no trabalho. Ela não desconfiava que o dinheiro gasto nos passeios, na verdade, era dos empréstimos que ele havia feito sem o seu consentimento, desabafa.

A mulher relata que demorou muito tempo para entender que estava sendo vítima de um estelionatário. Além disso, sentiu muita culpa, tendo em vista que usufruiu do dinheiro, ainda que sem saber de sua origem ilícita.

Aline conta que os bancos se recusam a retirar a dívida, uma vez que as solicitações foram feitas a partir do seu aparelho telefônico.

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou que "o caso citado foi registrado pela Delegacia Eletrônica e encaminhado à Delegacia de Defesa da Mulher de Mauá. A vítima foi ouvida e a autoridade solicitou medida protetiva de urgência para a vítima à Justiça. As investigações do caso prosseguem para esclarecer todas as circunstâncias do fato. Mais detalhes serão preservados para garantir a autonomia do trabalho policial", segundo a secretaria.

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