São Paulo Ossadas achadas no centro de SP eram de cemitério de excluídos

Ossadas achadas no centro de SP eram de cemitério de excluídos

Área já foi do primeiro cemitério de São Paulo e funcionou entre 1775 e 1858. Local recebia corpos de escravos, presos, pobres e quem não possuía família

Arqueólogos trabalham em terreno no bairro da Liberdade, centro de São Paulo

Arqueólogos trabalham em terreno no bairro da Liberdade, centro de São Paulo

Márcio Neves/R7

As ossadas encontradas em um terreno em que aconteciam obras para a construção de um prédio comercial no bairro da Liberdade, centro de São Paulo, são apontadas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como um antigo cemitério de pessoas marginalizadas que vivam em São Paulo. 

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"A história de São Paulo não foi escrita só de bandeirantes e barões do café, também haviam os pobres, escravos e negros forros (considerados livres), e que sempre foram lembrados de forma genérica nos documentos históricos", explica Leila Maria França, arqueóloga do IPHAN que acompanha os trabalhos.

Arqueólogo trabalha para desenterrar um crânio em terreno no centro de SP

Arqueólogo trabalha para desenterrar um crânio em terreno no centro de SP

Márcio Neves/R7

O terreno de cerca de 400m² fica ao lado da Capela dos Aflitos, uma pequena igreja no fim da rua de mesmo nome. O local e parte de seu entorno é apontado como um dos primeiros cemitérios da cidade de São Paulo e foi utilizado entre os anos de 1775 e 1858 para receber escravizados, presos, pobres, pessoas com doenças contagiosas, condenados à forca e aqueles que não possuíam família.

"As ossadas foram encontradas cerca de 80 cm abaixo da antiga construção, feita na década de 20. As primeiras foram encontradas ainda no início de novembro, aí paralisamos as obras e contratamos uma empresa especializada em arqueologia para iniciar realizar os estudos. Também decidimos remover as ossadas para contribuir com a preservação da história da nossa cidade", diz João Chin, engenheiro responsável pela obra.

Em um trabalho minucioso, os técnicos escavam cada centímetro de terra. As ossadas dão indícios da posição social de quem foi enterrado e até adornos como colares contribuem para a identificação.

Algumas ossadas chegaram a ser danificadas por outras construções

Algumas ossadas chegaram a ser danificadas por outras construções

Márcio Neves/R7

"Eles eram enterrados sem caixões e em uma mortalha (pano usado para enrolar pessoas mortas) e a gente percebe que alguns foram colocados deitados de lado com as mãos sobre os peitos", explica a arqueóloga Natália Rodrigues, uma das responsáveis pelos trabalhos.

No local foram identificadas até agora sete ossadas, que estão sendo catalogados e analisadas. Segundo os arqueólogos que trabalham no local, algumas ossadas estão com a arcada dentária em  boas condições o que permitirá saber até mesmo qual era a alimentação destas pessoas.

Os dados e materiais obtidos no local devem passar por análises em laboratório. "É um material riquíssimo para entendermos um pouco mais a história de nossa sociedade", afirma Leila França.

Ossadas foram achadas em terreno próximo de um dos pontos turísticos de SP

Ossadas foram achadas em terreno próximo de um dos pontos turísticos de SP

Márcio Neves/R7

Centro de São Paulo é sítio arqueológico

O local onde está o terreno em que foram encontradas as ossadas já é uma área de atenção e classificada pelo IPHAN por conta de frequentes ocorrências de encontro de vestígios arqueológicos, incluindo ossadas e outros artefatos.

Está área de abrangência inclui outros importantes espaços históricos como a Praça João Mendes, a Igreja São Gonçalo, a atual avenida Liberdade, a praça da Liberdade e a Igreja Santa Cruz da Alma dos Enforcados.

Segundo o Centro de Arqueologia de São Paulo, responsável por essa delimitação, para qualquer obra, inclusive demolições, remoções de entulhos ou interferência no subsolo nesta região, devem antes passar por um estudo e análises preventivos de arqueologia, para que qualquer artefato ou ossada possa ser analisada e passar a compor os registros sobre a história paulistana.

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