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Apenas 20% das pessoas infectadas pelo zika têm sintomas, diz especialista

Médico explica como vírus se comporta no organismo desde o momento da picada do mosquito

Combate à Dengue|Do R7

"É um vírus traiçoeiro", diz Artur Timerman, da FMUSP
"É um vírus traiçoeiro", diz Artur Timerman, da FMUSP "É um vírus traiçoeiro", diz Artur Timerman, da FMUSP

Tudo começa com uma picada que não dói, não coça nem deixa marcas na pele: pronto, seu organismo já está infectado pelo zika, o vírus transmitido pelo mosquito aedes aegypti que tem causado pânico e ganha contornos de epidemia no Brasil. A partir daí, os pacientes se dividem em dois grupos, o dos que apresentam sintomas, e o dos que não têm qualquer sinal de que foram infectados. No entanto, qualquer que seja o desdobramento, o vírus seguirá o mesmo caminho dentro do organismo doente.

A princípio, ele fica de três a sete dias “estacionado” nos vasos capilares, veias muito finas presentes em uma camada superficial da pele, onde o zika vai se multiplicar até finalmente cais na corrente circulatória. De acordo com Artur Timerman, especialista em moléstias infecciosas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em dois dias 20% das pessoas picadas apresentam febre, coceira, dores e manchas.

Já os 80% restantes talvez nunca fiquem sabendo que contraíram zika.

— É um vírus bem traiçoeiro. Se levarmos em conta que só um quinto das pessoas tem sintomas, é possível pressupor que já tivemos 2,5 milhões sem sintomas, que não foram identificados.

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O objetivo do zika, presente no material que o mosquito inocula durante a picada, é, como o de qualquer ser vivo, se replicar. Timerman explica que cada vírus se multiplica de acordo com a célula para a qual ele tem uma afinidade. Como no caso da hepatite, por exemplo, os vírus são programados para se dirigir ao fígado, o zika tem como missão principal atacar as células do sistema imunológico.

— Ele infecta os linfócitos (células de defesa) que estão circulando na nossa corrente sanguínea. Daí acontece a multiplicação do vírus, até que sobrevenha a imunidade, acabando, assim, com o zika.

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Mas, não é só com o sistema imunológico que o zika vírus interage — e é aí que mora seu principal perigo. Estudos feitos com fêmeas de camundongos prenhes descobriram que o vírus, descoberto na década de 40 em macacos, tinha também afinidade com células do sistema nervoso em crescimento.

— O que se viu foi que ele causava uma morte das células que estavam em formação, e isso levava a recém-nascidos microcéfalos. É um mecanismo que se especula que possa ser parecido com o mecanismo que vem acontecendo nos seres humanos, em casos de microcefalia.

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No caso dos adultos, conforme explica Timerman, pode haver uma resposta imunológica alterada por conta da presença do vírus, o que geraria a síndrome de Guillan-Barré, uma doença autoimune que ocorre quando a defesa do organismo ataca, por engano, uma parte do próprio sistema nervoso, levando à inflamação dos nervos, fraqueza muscular e, em casos mais graves, dificuldade para respirar.

O infectologista reforça a recomendação de que, em face do surto de microcefalia já registrado no Nordeste, mulheres que planejem engravidar adiem os planos por enquanto. E que, se vierem a contrair o vírus em algum momento, sigam o protocolo indicado no caso de qualquer outra infecção viral, que é o de esperar até seis meses depois da detecção da doença para programar uma gestação.

— Ainda não está comprovado que, se a pessoa tem zika uma vez, fica protegido o resto da vida. A presunção é que realmente seja assim, que o vírus seja único, que não seja como a dengue, que tem quatro tipos, e que não seja capaz de ter muita mutação. Mas falar em vacina, por exemplo, é um longo prazo. De maneira otimista, se fôssemos muito eficazes, eu diria que teríamos uma vacina em cerca de dois anos. Isso porque precisamos de testes em animais, testes em humanos. A situação é dramática, mas não podemos pular as etapas das pesquisas.

Um avanço no combate ao surto de zika seria, na opinião de Timerman, seria a disponibilização de exames clínicos que detectam o vírus no sangue através de anticorpos produzidos pelo organismo.

— Ele geralmente dá positivo de cinco a sete dias depois do inicio da infecção. Ele ainda não está disponível, e esta é uma das minhas maiores críticas. Porque é ele que vai identificar a real dimensão dessa epidemia, a extensão do problema. É uma demanda muito importante, que tem que acontecer o mais rápido possível. Sem dúvida, seria a ferramenta mais importante neste momento.]

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