Saúde Conversar sem julgamento pode prevenir suicídio

Conversar sem julgamento pode prevenir suicídio

Tirar a própria vida está atrelado a transtorno passível de tratamento

Conversar sem julgamento pode prevenir suicídio

Brasil é o oitavo país do mundo com mais casos de suicídio

Brasil é o oitavo país do mundo com mais casos de suicídio

Thinkstock

Mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde). E, entre os transtornos de humor, o diagnóstico mais frequente é a depressão, responsável por atingir 36% das vítimas.

Segundo o psiquiatra José Alberto del Porto, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o transtorno mental prejudica a capacidade de julgamento, tira o direito de escolha da vítima e pode levar ao suicídio. E, na maioria das vezes, está atrelado a transtorno passível de tratamento e prevenção, ressalta o especialista. 

— Muitos acreditam que o suicídio resulta de uma escolha livre, como um exercício da liberdade entre escolher entre a vida ou a morte. Mas uma pessoa com depressão nunca está completamente lúcida e tem plena consciência do que faz. 

A vítima que sofre de depressão chega "a esse ponto" para acabar com um "sofrimento psíquico terrível".

— As crises afetam a percepção da realidade e pode interferir até no livre-arbítrio da pessoa. Ela chega a um ponto em que ela faz qualquer coisa para se livrar disso.

Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de pessoas que cometaram suicídio no Brasil saiu de 9.852 para 11.178 em 2011 para 2015 — o que representa um crescimento de 13%. Já um levantamento sobre a mortalidade por suicídio no Estado de São Paulo, realizado pela Fundação Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados), aponta que 80% das vítimas de suicídio ao longo biênio 2013-2014 eram homens e que 72,3% deles tinham entre 15 e 64 anos de idade, apesar de a prevalência da depressão ser maior nas mulheres. 

Homens cometem mais suicídio

O professor da Unifesp destaca aspectos culturais que podem estar relacionadas às taxas elevadas de suicídio no público masculino.

— Os homens, de fato, sofrem mais pressão para que se mostrem fortes e tendem a procurar menos ajuda do que as mulheres. Além disso, sofrem mais com alguns estressores sociais, a exemplo do desemprego, das instabilidades econômicas e da perda do status social.

Antigamente, o médico ainda afirma que casos de suicídios seguidas de crises de depressão aconteciam mais entre a população idosa por conta de doenças incapacitantes, como mal de Parkinson e Alzheimer, além de problemas cardíacos e pulmonares. Mas hoje, os jovens também estão se tornando potenciais vítimas de suicídio atrelado à depressão, segundo del Porto.

— O que nós temos observado é um aumento de casos entre os jovens e adolescentes por causa do uso de drogas e álcool, a urbanização da cidade e a falta de vínculos familiares, sendo que ainda existem fatores precipitantes como a perda de emprego, por exemplo.

Sinais da depressão

Geralmente, as pessoas atribuem depressão à tristeza. Porém, segundo o presidente do CVV (Centro de Valorização da Vida), Robert Paris, quem está com o transtorno pode ter até pícos de alegria, dependendo do caso, como cansaço, perda de capacidade de sentir prazer, perda ou ganho de apetite, insônia e raciocínio lento.

Por isso, o especialista complementa que "não podemos simplificar demais a depressão, desqualificar, julgar ou criticar".

— O que o paciente precisa é de alguém que o acolha porque ele é uma pessoa doente. Quando alguém tem depressão ela tem receio do que as pessoas vão achar dela, então é importante que familiares se aproximem da dor o outro. Conversar com uma pessoa é como desarmar uma bomba, mas é uma coisa que nós não temos que ter medo de fazer.

Campanhas de prevenção

Para desmistificar a suicídio, desde 2014, o Brasil participa da Campanha Mundial de Prevenção ao Suicídio, lembrado neste domingo (10). Paris explica que a campanha do Setembro Amarelo visa orientar a população quanto à importância dos óbitos como uma questão de saúde pública. "O apoio emocional e o estímulo à inclusão em grupos e vivências sociais que valorizem a pessoa são fundamentais", diz presidente do CVV.

— Até pouco tempo atrás, mesmo os médicos generalistas não falavam sobre o assunto por receio de influenciarem os pacientes a cometerem suicídio. Quando um paciente fala em suicídio, nós não precisamos ter medo. O que nós precisamos é falar abertamente sobre isso e ficarmos atentos.

O médica ainda complementa: "Na verdade, abrir espaço para o paciente falar sobre o tema poderá, muitas vezes, prevenir o problema. Perguntas mais genéricas sobre as perspectivas de vida e os planos desse indivíduo para o futuro podem ajudar a introduzir a temática com leveza”, completa Del Porto.

Como e onde procurar ajuda

Embora, o tratamento mais conhecido para a depressão seja o uso de medicamentos, o professor da Unifesp explica que uma das principais ferramentas para tratar a depressão ainda é o diálogo.

— O tratamento nunca é só farmacológico. É fundamental que o paciente procure ajuda de grupos de apoio e ela faça acompanhamento psicológico.

Para quem está procurando ajuda, o CVV presta um serviço gratuito de prevenção do suicídio. A equipe de voluntários fica disponível para acolher e atender qualquer pessoa que busque apoio emocional, sempre de forma sigilosa. Os atendimentos podem ser de forma presencial, em algum posto do CVV, por telefone (141) ou pelos canais da instituição na internet (chat, Skype e e-mail).

*Caíque Alencar, do R7