Saúde Inteligência artificial pode acelerar diagnóstico de hanseníase

Inteligência artificial pode acelerar diagnóstico de hanseníase

Aplicativo criado pela Fiocruz identifica a doença como causa de lesões na pele dos pacientes em mais de 90% dos casos testados

  • Saúde | Agência Brasil

Aplicativo reconhece lesões na pele e identifica a hanseníase

Aplicativo reconhece lesões na pele e identifica a hanseníase

Frank Néry/Secom/Governo de Rondônia

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) participaram do desenvolvimento de inteligência artificial capaz de ajudar médicos a identificarem a hanseníase. A criação do assistente de diagnóstico, chamado de AI4Leprosy, contou com a parceria e o financiamento da Microsoft e da Fundação Novartis.

Os resultados foram publicados na revista científica The Lancet Regional Health Americas, e integraram o estudo as universidades da Basileia, na Suíça, e de Aberdeeen, na Escócia.

Segundo a Fiocruz, o software foi capaz de identificar a hanseníase como causa de lesões na pele dos pacientes em mais de 90% dos casos em que foi submetido a teste. Com a publicação dos resultados, os pesquisadores poderão avançar na criação de um aplicativo de celular que futuramente poderá ser usado por profissionais de saúde.

A tecnologia desenvolvida combina a análise de fotos das lesões com os dados clínicos dos pacientes por meio de um algoritmo que faz o reconhecimento de imagens e é capaz de diferenciar variações sutis de tom quase imperceptíveis ao olho humano.

Para que o algoritmo fosse capaz de fazer o reconhecimento, foi necessária a comparação de fotografias de lesões causadas pela hanseníase e por doenças semelhantes, em uma técnica chamada de aprendizado de máquina (machine learning), em que o computador associa padrões nas imagens à doença ou a outras causas. Ao todo, foram usadas 1.229 fotografias de 585 lesões diferentes, com a colaboração de 222 pacientes do Ambulatório Souza Araújo, mantido pelo Laboratório de Hanseníase do IOC/Fiocruz. 

Esse tipo de tecnologia já existe para apoio ao diagnóstico do melanoma, um tipo de câncer de pele. No caso da hanseníase, porém, uma maior variedade de lesões está associada à doença, o que exigiu que o reconhecimento de imagens fosse combinado com o preenchimento de informações clínicas dos pacientes. Desse modo, também foi preciso ensinar ao algoritmo características que já foram descritas como sintomas da doença, como alterações de sensibilidade nos pés e perda de sensibilidade térmica nas mãos, e algumas, como coceira, que têm maior probabilidade de ser causadas por outras enfermidades.

Quando apenas o reconhecimento de fotografias foi usado, o modelo proposto foi capaz de acertar quais casos eram de hanseníase em 70% dos pacientes. A precisão aumenta para 90% quando se levam em conta os dados clínicos.

A Fiocruz destaca que o algoritmo poderia acelerar o diagnóstico da hanseníase por parte dos profissionais de saúde. Em entrevista à Agência Fiocruz de Notícias, o chefe do Laboratório de Hanseníase do IOC/Fiocruz, Milton Ozório Moraes, explicou que, com isso, médicos poderão iniciar o tratamento da doença mais rápido e evitar consequências graves que ela pode causar, como deformidades, perda de movimentos e problemas de visão.

"Essa ferramenta pode apoiar a decisão do médico de iniciar a investigação, acelerando a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento, que é fundamental para interromper a transmissão da doença e prevenir sequelas”, disse. O médico acredita que um aplicativo com inteligência artificial pode estar disponível em dois anos, o que ainda depende de testes em outras partes do mundo e em diferentes contextos sociais e demográficos para validar os resultados obtidos.

A demora na identificação da doença é considerada um dos maiores desafios para seu tratamento e também favorece a disseminação da bactéria causadora, a Mycobacterium leprae. A fundação informa que mais de 200 mil novos casos de hanseníase foram registrados em todo o mundo em 2019, dos quais aproximadamente 10 mil com lesões avançadas. O Brasil, o segundo país mais afetado pela doença, detectou 27 mil novos casos, entre os quais 2,3 mil já apresentavam danos avançados.

Com o início da pandemia de Covid-19, em 2020, especialistas se preocupam com a queda no número de diagnósticos, que pode significar que mais casos estejam avançando sem tratamento. A Fiocruz cita dados de um levantamento da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) que apontou a redução de 35% nos registros de hanseníase em 2020 e de 45% em 2021 em relação aos dados de 2019.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem como meta reduzir em 70% os novos casos de hanseníase até 2030 e, a longo prazo, interromper a transmissão.

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