Luto intenso e prolongado vira dor física e afeta a saúde

Luto por mais de um ano se torna um transtorno e órgão de menor resistência é atingido; arranjar um sentido para a morte ajuda a superá-la

Quase 5% das pessoas desenvolvem o transtorno do luto complexo persistente

Quase 5% das pessoas desenvolvem o transtorno do luto complexo persistente

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Perder um ente querido sempre é um desafio e cada um reage de uma maneira diferente. A tristeza é um sentimento comum a todos. A dificuldade em retomar a rotina e a saudade também aparecem em um segundo momento.

Mas quando esses e outros sentimentos relacionados ao luto continuam por um período superior a um ano, vira um transtorno, que, em alguns casos, prejudica também a saúde física.

Segundo o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), de 2,4% a 4,8% das pessoas (com maior incidência entre mulheres) desenvolvem o transtorno do luto complexo persistente.

O manual explica que para se encaixar nessa definição, o luto precisa durar mais de 12 meses em adultos. Esse período é considerado por especialistas porque ao longo de um ano existem datas importantes em que o ente querido será lembrado, como o primeiro Natal sem ele e o aniversário de nascimento.

No caso dos adultos, os sintomas do luto prolongado incluem: saudade persistente do falecido; intenso pesar e dor emocional em resposta à morte; preocupação com o falecido e com as circunstâncias da morte; dificuldade em aceitar a perda; dificuldade de ter memórias positivas do falecido; sensação de culpa; sentir-se sozinho, com a vida vazia; dificuldade ou relutância em buscar interesses desde a perda ou em planejar o futuro.

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O transtorno do luto complexo persistente pode desencadear problemas de saúde, segundo a médica psiquiatra Tania Alves, do Ambulatório do Luto do IPq (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

"Quando a pessoa enluta, tem a dor física e a dor psíquica. A dor psíquica pode virar depressão, ansiedade, abuso de substâncias. A dor física se transforma em arritmias, pressão alta, gastrite, dores crônicas... Se for uma pessoa idosa, o luto é vivido no corpo como um grande estresse biológico e o órgão de menor resistência vai sofrer mais."

Alguns fatores aumentam o risco de desenvolver o luto persistente, acrescenta a médica.

"A inversão na ordem da natureza - pais que perdem filhos; quando a pessoa já tem uma doença psíquica e aí vem a morte de alguém; um luto seguido do outro; quando a perda é inesperada, sem tempo de adaptação; e morte do tipo violenta; como homicídio e suicídio, ou desaparecimento."

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Acolhimento

A maior parte das pessoas, acrescenta a psiquiatra, passa pelo luto naturalmente, "porque há uma colhimento social e entre os familiares daquele que sofreu a perda".

No entanto, é preciso estar atento quando alguém em nossos círculos sociais perde um ente querido. A solidão é um fator que preocupa, explica Tania, justamente pela alta dos casos de suicídio.

Ela recomenda a busca de ajuda especializada. Levar a pessoa a uma entrevista com um psicólogo ou um psiquiatra pode ajudar a identificar se ela está sofrendo de luto prolongado e, se for o caso, iniciar o tratamento. "Objetivo do tratamento é arranjar um sentido para aquela morte", afirma.

Finados

Para a médica, este Dia de Finados, tem um papel importante no aspecto social. "O Dia de Finados é um dia escolhido do ponto de vista religioso para visitar os seus mortos. É um dia reservado que dá direito aos enlutados poder visitar, falar, fazer algo e ser aceito socialmente. Existe uma solidariedade, respeito."

"A pessoa [que perde alguém] pode ter os seus rituais unitários, as datas reservadas a cada relação, mas também pode ter a vivência de aceitação comunitária, que é um acolhimento."