Saúde Sem medo de doenças, jovens não se protegem na hora do sexo e casos de DSTs disparam no Brasil

Sem medo de doenças, jovens não se protegem na hora do sexo e casos de DSTs disparam no Brasil

Médicos alertam que relação sexual sem proteção pode deixar sequelas para a vida toda

Sem medo de doenças, jovens não se protegem na hora do sexo e casos de DSTs disparam no Brasil

A camisinha é usada em apenas 40% das relações sexuais

A camisinha é usada em apenas 40% das relações sexuais

Thinkstock

Apesar das informações sobre as DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis) circularem livremente, especialmente hoje em dia por causa das redes sociais, o jovem brasileiro não se preocupa em se prevenir. Seja por não ter tido contato com alguém doente ou por acreditar que “isso nunca vai acontecer” com ele. Só de HIV, uma das mais graves DSTs, houve aumento principalmente entre os mais jovens. Na faixa etária dos 20 aos 24 anos, a taxa de detecção subiu de 16,2 casos por 100 mil habitantes, em 2005, para 33,1 casos em 2015, informou o Ministério da Saúde.

Outra DST que preocupa as autoridades é a sífilis, devido ao disparo no número de casos. A doença pode provocar sequelas graves para a vida toda. Segundo o ginecologista e obstetra e membro da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), Geraldo Duarte, o motivo do aumento da transmissão das DSTs se deve à falta conscientização.

— O maior aumento acontece entre jovens que não têm medo. Já entre os mais velhos, o aumento se explica porque o preservativo incomoda e eles não usam. Eles não foram educados para usá-lo.

O infectologista e supervisor médico do ambulatório do Hospital Emílio Ribas, Francisco Ivanildo de Oliveira Júnior, afirma que o fator determinando para o aumento da transmissão das DSTs é a negligência com o uso da camisinha, atribuído à diminuição da preocupação ou do descuido da população.

— Como a evolução no tratamento do HIV, por exemplo, a Aids deixou de ser sentença de morte. Apesar de não se conseguir a cura, os remédios fazem com o que a doença se torne crônica, administrável. O indivíduo consegue conviver com o vírus, e isso certamente elevou a diminuição dos hábitos que vinham sendo criados principalmente na década de 1990.

No caso da Aids, a infecção cresce entre os homens em todas as faixas etárias, de acordo com o Ministério da Saúde. De 827 mil infectados no Brasil, 112 mil pessoas não sabem que têm o vírus. Segundo o infectologista, dentro dessa população jovem e masculina, a prevalência de HIV é especialmente maior em grupos específicos, como transexuais, gays, homens que fazem sexo com homens e presidiários.

A incidência de outras doenças sexualmente transmissíveis também aumentou, já que o fator em comum entre elas continua o mesmo: a falta de camisinha nas relações sexuais. Porém, de acordo com Júnior, o número de infectados com sífilis, HIV e outras DSTs, como hepatites B e C, gonorreia e clamídia não são notificadas.

— No mundo inteiro, a tendência é de aumento das doenças sexualmente transmissíveis porque as pessoas não estão usando preservativo. Pesquisas tentam investigar o porquê disso. Já se sabe que a utilização [da camisinha] nas relações sexuais é menos de 40%. E nem sempre conseguimos medir os dados que são, muitas vezes, baseados na percepção dos próprios médicos. Desde 2010, percebe-se isso em relação à sífilis. Os dados de notificação mostram o aumento não só de sífilis adquirida (por transmissão sexual) em adultos, mas também da congênita, transmitida da mãe para o bebê, que pode ocorrer durante toda a gestação.

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Dados do Ministério da Saúde apontam que entre os anos de 2014 e 2015, a sífilis adquirida teve um aumento de 32,7%, a sífilis em gestantes 20,9% e congênita, de 19%. Em 2015, o número total de casos notificados de sífilis adquirida no Brasil foi de 65.878. No mesmo período, a taxa de detecção foi de 42,7 casos por 100 mil habitantes e a maioria são em homens, 136.835 (60,1%). No período de 2010 a junho de 2016, foi registrado um total de 227.663 casos de sífilis adquirida.

Se diagnosticada com antecedência, é possível prevenir a transmissão da sífilis para o bebê, conforme explicou o especialista. Porém, em alguns casos, a doença só é diagnosticada depois que a criança nasce. Isso pode acontecer se a mãe não fizer o pré-natal ou se o acompanhamento não seguir as recomendações médicas.

— Uma ideia ainda muito disseminada entre os mais pobres é de que só precisa começar a fazer o pré-natal depois que a barriga cresce. Então, às vezes, se começa [o pré-natal] no 2º ou 3º trimestres da gestação. O correto é iniciar o acompanhamento assim que se descobre a gravidez e o obstetra deve fazer a sorologia (exame) para sífilis. Se diagnosticada a doença, deve-se começar o tratamento e pedir outro exame pouco antes do parto.

Duarte reitera que o problema maior da sífilis não é a doença em si, mas suas consequências. De dez bebês nascidos de mulheres infectadas que não se tratam, quatro morrem no final da gravidez, outros quatro desenvolvem sífilis congênita e somente duas nascem saudáveis.

— A gravidade dos sintomas da sífilis congênita depende do grau de acometimento da criança, que pode ter problemas ósseos e consequente dificuldade para andar a vida ou até atingir o sistema nervoso, comprometendo todo o desenvolvimento.

O ginecologista também ressalta que a sífilis é uma doença silenciosa.

— Depois de um ano, desaparecem os sintomas, mas ela fica dentro do organismo. E pode voltar em anos em forma de diversas lesões, como comprometimento da aorta (artéria do coração), lesões cerebrais graves, rompimento da medula (a pessoa fica paralítica), demência, entre outras complicações irreversíveis. Há casos de pessoas que apresentam esses sintomas até 30 anos depois do contágio.

Tabu da nova geração

O ator Gabriel Comicholi descobriu ser portador de HIV aos 21 anos

O ator Gabriel Comicholi descobriu ser portador de HIV aos 21 anos

Reprodução/ Instagram

O ator Gabriel Comicholi, de 21 anos, só passou a ter mais contato com portadores do vírus HIV quando descobriu que também havia sido infectado, há sete meses. Ao acordar com um caroço no pescoço, ele pensou que se tratava de caxumba e foi ao médico. Dentre os exames solicitados, estava o de HIV. Dias após o diagnóstico, o jovem abriu um canal no Youtube para contar sua recém-descoberta.

— Os jovens também deixaram de falar sobre DSTs e HIV, que ainda é um tabu. Eu tive mais contato [com pessoas infectadas] quando descobri que tinha o vírus. Logo depois, mandei mensagem para todos com quem eu tive relação sexual. Todos responderam, com todo tipo de reação, desde achar que era brincadeira até pessoas que foram fazer seus exames por conta disso e que nunca tinham feito. E ninguém afirmou estar infectado.

Comicholi diz sempre carregar parte da medicação na bolsa para não correr o risco de atrapalhar o tratamento. O ator se mudou do Rio de Janeiro para Curitiba (PR), sua cidade natal, para se tratar ao lado da família.

— A minha família reagiu bem. Eu esperava reação mais drástica, mas eles deram todo o apoio. Eu contei para a minha por Skype e ela me apoiou totalmente, assim como meu pai. Apoio nesse momento é uma das melhores coisas.

Na opinião do jovem o número de infectados aumentou porque as pessoas se esqueceram do assunto, e faz um apelo.

— Fazer o teste e descobrir logo é a melhor opção. Se der positivo, vá atrás do tratamento para levar uma vida saudável.

Não basta ter só informação

Para o infectologista do Hospital Emílio Ribas, a conscientização da população pode mudar se forem intensificadas ações específicas e direcionadas para cada grupo.

— A mesma campanha [de prevenção] não consegue ser eficiente para mulheres casadas ou para homens que fazem sexo com homens ou mesmo para idosos, porque o risco a que cada um se expõe é diferente. A gente também não pode só jogar todas as fichas na utilização do preservativo. Sabemos que é o método mais útil, mas existem outras formas de se prevenir, como a abstinência sexual em determinadas situações. Pessoas alcoolizadas ou drogadas, por exemplo, não costumam usar preservativo.

Quando se trata uma pessoa infectada, reduz-se o risco de ela transmitir o vírus a praticamente zero, explicou o médico. Mas não recomenda aos casais que tomam o [coquetel] retroviral que abandonem a camisinha.

— É necessário detectar o máximo possível de infectados. Pelo menos 20% das pessoas que têm HIV não sabem disso. Não pode esperar elas irem até o hospital. Tem que levar o exame de forma mais fácil até as pessoas, com ações afirmativas, como testes de saliva, colocar van com o teste na balada etc.

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Ainda de acordo com Júnior, mesmo que a pessoa não use camisinha, há recursos que podem impedir a contaminação.

— Há anos está disponibilizada a PEP (profilaxia pós-exposição) para pessoas com exposição inesperada ao vírus. Se a camisinha furou ou houve estupro, por exemplo, o indivíduo pode recorrer ao serviço público. Ao ser medicado com combinação de drogas, se diminui o risco de contrair o vírus. O procedimento é gratuito, mas só é eficaz se for ingerido em, no máximo, 72 horas após a exposição.

A outra maneira de prevenir e evitar doençasé a PREP (profilaxia pré-exposição), explica o especialista.

— Determinadas pessoas têm comportamento sexual que as expõe frequentemente ao vírus. Quando o parceiro dessa pessoa tem Aids, por exemplo, e não usa preservativo ou não está se tratando. Nesse caso, a pessoa é medicada todos os dias enquanto estiver exposta para prevenir a contaminação. O risco é reduzido de forma significativa (cerca de 99%).

No entanto, estudos revelam aumento de outras doenças sexualmente transmissíveis nessas pessoas, porque a medicação só previne o HIV. Além disso, o custo é alto, em torno de R$ 300 por mês.

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