Saúde Suposta 'doença jihadista' se trata de um tipo de leishmaniose 

Suposta 'doença jihadista' se trata de um tipo de leishmaniose 

Fake news divulgam que doença é disseminada por corpos em decomposição, mas infectologistas alertam que cadáveres não transmitem doenças

Suposta 'doença jihadista' se trata de um tipo de leishmaniose 

Menino com leishmaniose no Afeganistão

Menino com leishmaniose no Afeganistão

Getty Images

Circula pela internet a notícia de que bactérias de corpos não-sepultados expostos nas ruas pelo Daesh em países como Síria, Afeganistão e Iraque, estão disseminando uma doença que provocaria o apodrecimento da pele em vida.

Chamada de “doença jihadista”, a enfermidade estaria transformando os infectados em zumbis.

A reportagem do R7 ouviu infectologistas que afirmaram não haver relação entre corpos não-sepultados e doenças contraídas pelas pessoas retratadas nessas publicações.

“As lesões são sugestivas de leishmaniose tegumentar americana, que nada tem a ver com cadáveres ou saneamento básico”, afirma o infectologista Fernando Rodrigues, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, especializado em infecção hospitalar. "Doenças não podem ser transmitidas depois da morte, a não casos de vírus específicos, como o ebola", completa.

Segundo ele, trata-se de uma doença causada por protozoário, o Leishmania spp., e não por bactéria, e transmitida por um inseto, o mosquito-palha, que vive em ambientes silvestres e áreas desmatadas. “O maior risco de adoecer está ligado a frequentar esses ambientes”, diz Rodrigues.

A leishmaniose tegumentar americana ataca a pele e as mucosas, provocando feridas abertas e dolorosas, que podem levar a deformações permanentes, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). 

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A transmissão da leishmaniose ocorre quando fêmeas do mosquito picam uma pessoa ou um animal infectado, como ratos e animais domésticos, e picam uma pessoa saudável, transmitindo o protozoário.

Diferentemente do Aaedes aegypti, que coloca os ovos em água parada, o mosquito-palha faz isso em matéria orgânica, como restos de frutas e de folhas. Não existe vacina contra a doença.

O infectologista Antonio Flores, da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras, explica que leishmaniose tegumentar americana está presente em países assolados pela guerra como Síria, Iraque e Afeganistão porque são regiões que, além da ocorrência do vetor, apresentam fatores que agravam o risco da doença como pobreza, desnutrição e Aids. “A falta de saneamento e a baixa imunidade tornam a pessoa mais vulnerável”, afirma.

A leishmaniose tegumentar americana é a forma mais comum da leishmaniose, segundo a OMS. Em 2015, mais de dois terços dos novos casos ocorreram em seis países: Afeganistão, Argélia, Brasil, Colômbia, Irã e Síria. Estima-se que entre 600 mil e 1 milhão de novos casos ocorram todo ano.

No Brasil, há os dois tipos da doença, a leishmaniose tegumentar americana e da leishmaniose visceral. A frequência de cada uma varia de acordo com a região, segundo Flores. “Por exemplo, na Amazônia a tegumentar é mais frequente e, no Nordeste, a visceral”, afirma.

Segundo ele, a melhor forma de proteção contra a doença é o controle de seu vetor, o mosquito-palha.

Você sabe identificar quais doenças esses mosquitos transmistem?