Saúde Vacina contra dengue aliviaria filas no sistema de saúde brasileiro

Vacina contra dengue aliviaria filas no sistema de saúde brasileiro

Imunização poderá evitar que população se contamine e, consequentemente, reduzir busca por atendimento médico em locais com foco da epidemia

Vacina contra dengue pode melhorar sistema de saúde público

Laboratório que desenvolve vacina contra dengue no Instituto Butantan em São Paulo

Laboratório que desenvolve vacina contra dengue no Instituto Butantan em São Paulo

Divulgação

A possibilidade de o Brasil ter uma vacina contra a dengue no futuro pode resultar em um desafogamento do sistema público de saúde. Atualmente, pesquisadores brasileiros do Instituto Butantan, em São Paulo, estão à frente do desenvolvimento de uma imunização contra o vírus que tem apresentado bons resultados — está na última fase de testes em humanos.

Tirar a dengue das filas de atendimento nos hospitais e postos de saúde significaria liberar médicos e enfermeiros para atender casos de pessoas com outros problemas, explica o diretor de ensaios clínicos do Instituto Butantan, Ricardo Palacios. 

“Além da doença ser por si só ser muito ruim, causando, inclusive, muitos óbitos, todo mundo que morou em uma cidade foco de epidemia sabe como o sistema fica sobrecarregado. Pessoas com outras doenças não recebem atenção nas unidades de saúde, pois todo mundo está com dengue.”

Segundo Palacios, que faz parte do projeto de desenvolvimento da vacina, o principal desafio na elaboração dela é encontrar uma fórmula que seja igualmente eficaz para os quatro sorotipos do vírus.

“A dengue é uma doença com uma particularidade. O grande problema é que caso a pessoa pegue um dos sorotipos e se contamine novamente, os anticorpos podem ajudar o vírus e acabar em dengue grave. O mesmo acontece com pessoas vacinadas.”

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Uma vacina chamada Dengvaxia, produzida por um laboratório francês, já está no mercado, mas apenas no sistema privado de saúde, justamente porque só é indicada para quem já foi infectado pelo vírus anteriormente. 

“Se você já teve a doença, ela age como uma segunda infecção mais leve e te imuniza. Pacientes que nunca tiveram dengue correm o risco de ter dengue grave após a vacinação. Como você tem que comprovar laboratorialmente que já teve o diagnóstico, fica inviável para o sistema público.”

Uma outra opção de vacina está sendo desenvolvida por uma companhia japonesa. “Ela também está em uma fase avançada de desenvolvimento. Recentemente alguns dados mostraram que ela é eficaz para dois sorotipos do vírus", acrescenta o pesquisador. 

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O médico explica que a vantagem de desenvolver a vacina no Brasil é que o tempo até a real distribuição para a população é encurtado quando uma solução é elaborada pelo próprio país. 

“É muito melhor do que depender de uma empresa estrangeira. Quando é desenvolvido aqui, sabemos como vai funcionar para as especificidades da nossa população e pode ser utilizada mais rapidamente.”

Essa vacina começou a ser desenvolvida pelo NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos) em 1999. A cepa do vírus chegou para o Instituto Butantan em 2009.

“O interessante é que eles não mandaram apenas para uma companhia farmacêutica, como é feito normalmente. Foram várias companhias de países que tinham problemas com dengue, entre eles o Brasil, Índia e Vietnã.”

Destes, a única instituição que possuía a tecnologia necessária e conseguiu avançar no desenvolvimento da vacina era o Instituto Butantan. Em 2013, foi feito o primeiro teste em humanos, em São Paulo.

Atualmente, mais de 16 mil pessoas estão sendo monitoradas. O recrutamento aconteceu entre 2016 e 2019.

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“Precisamos monitorar essas pessoas para saber se terão algum efeito adverso. Uma preocupação muito grande é que a vacina desenvolvida na França demonstrou resposta imunológica, em testes laboratoriais, para todos os sorotipos, mas quando testada em seres humanos, alguns pacientes se infectaram mesmo assim.”

Outro requisito é saber da segurança da vacina em curto e longo prazo e se funciona da mesma maneira para diferentes faixas etárias e em regiões com maior ou menor presença da doença.

“Esse é um dos maiores ensaios clínicos do Brasil, temos representantes de 2 a 59 anos e de todas as regiões. Isso também adiciona uma variedade de classe social e de pessoas com infecção prévia ou não.”

No momento, a vacina parece responder bem para todos os sorotipos, e os pesquisadores estão otimistas.

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“Estamos indo muito bem. Precisaríamos de cinco anos de monitoramento, ou seja, acabaria em 2024. Mas pode ser que tenhamos uma resposta antes. Infelizmente, não posso afirmar quando, temos que ter certeza que a vacina é segura e eficaz.”

Combater Aedes aegypti é a melhor forma de prevenção

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Uma vez finalizado o monitoramento, a informação reunida é submetida à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Ela só é distribuída após aprovação do órgão. 

Apesar do otimismo em relação à vacina contra a dengue, Palacios lembra que o combate ao mosquito Aedes aegypti não pode cessar, pois ele é vetor de outras doenças (como zika e Chikungunya) e um risco para a população.

“Nós queremos que essa doença se torne história, coisa dos nossos avós, como aconteceu com a pólio e a varíola.”

*Estagiária do R7 sob supervisão de Fernando Mellis

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