Tecnologia e Ciência Chimpanzés no Gabão têm o hábito de tratar feridas com insetos

Chimpanzés no Gabão têm o hábito de tratar feridas com insetos

Cientistas acompanharam um grupo de 45 animais e registraram 19 vezes em que esse tipo de cuidado foi usado

AFP
Chimpanzé usam insetos para tratar as próprias feridas e também de seus pares no grupo

Chimpanzé usam insetos para tratar as próprias feridas e também de seus pares no grupo

TOBIAS DESCHNER / AFP

Para curar feridas, os chimpanzés pegam insetos e os aplicam diretamente na área afetada. Os cientistas observaram esse comportamento em chimpanzés no Gabão, na costa atlântica central da África, e notaram que eles não apenas usam insetos para tratar suas próprias feridas, mas também as de seus pares. 

A pesquisa, publicada na segunda-feira (7) na revista Current Biology, marca uma importante contribuição para o debate científico sobre a capacidade dos chimpanzés e dos animais em geral de ajudar os outros desinteressadamente. 

É como "quando você vai para a escola e lê em seus livros de biologia sobre as coisas incríveis que os animais podem fazer", disse Simone Pika, bióloga da Universidade de Osnabruck, na Alemanha, e coautora do estudo, à AFP. 

"Eu acho que isso poderia realmente ser algo que vai parar nesses livros." 

O projeto começou em 2019, quando uma chimpanzé adulta chamada Suzee foi observada analisando uma ferida no pé de seu filho adolescente. 

De repente, Suzee pegou um inseto no ar, colocou-o na boca, aparentemente apertou-o e depois o aplicou no ferimento do filho. Depois de remover o inseto da ferida, ela o aplicou mais duas vezes.

A cena aconteceu no Parque Nacional de Loango, na costa atlântica do Gabão, onde pesquisadores estudam um grupo de 45 chimpanzés centrais, uma subespécie ameaçada de chimpanzé comum. 

Nos 15 meses seguintes, os cientistas observaram os chimpanzés se submeterem ao mesmo tratamento pelo menos 19 vezes. 

Em duas outras ocasiões eles observaram que chimpanzés feridos eram tratados da mesma forma por um ou mais de seus pares. As feridas, às vezes com vários centímetros de largura, podem ser resultado de conflitos entre membros do mesmo grupo ou de um grupo oposto. 

Longe de protestar contra o tratamento, os chimpanzés machucados ficaram felizes em serem tratados. "É preciso muita confiança para colocar um inseto em uma ferida aberta", disse Pika. 

"Eles parecem entender que se você fizer isso com esse inseto, minha ferida vai melhorar. É incrível."

Os pesquisadores não conseguiram identificar qual inseto foi usado nas feridas, mas acreditam que seja um inseto voador devido ao rápido movimento dos chimpanzés para pegá-lo. Pika diz que o inseto pode conter substâncias anti-inflamatórias com efeito calmante. 

Sabe-se que os insetos têm várias propriedades e os pesquisadores precisarão detectar e estudar o inseto em questão. 

Pássaros, ursos, elefantes e outros animais já foram observados se automedicando, por exemplo, comendo plantas. Mas o que é único nos chimpanzés é que eles não apenas tratam a si mesmos, mas também ajudam os outros. 

Alguns cientistas ainda duvidam da capacidade das espécies animais de exibir comportamentos como cuidar desinteressadamente dos outros, disse Pika. Mas aqui os chimpanzés não têm nada a ganhar, enfatizou. 

Então, por que eles fazem isso? Em humanos, o comportamento pró-social geralmente está relacionado à empatia. Poderia o mesmo sentimento estar presente nos chimpanzés?, perguntou-se Pika. 

"É uma hipótese que devemos investigar", disse.

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