Tecnologia e Ciência Erro de interpretação espalha uma fake news sobre fake news

Erro de interpretação espalha uma fake news sobre fake news

Informações incorretas publicadas em um post no Facebook foram usadas como base para produzir notícias sobre fake news

Uma informação mal interpretada deu origem a uma fake news sobre fake news

Uma informação mal interpretada deu origem a uma fake news sobre fake news

Pixabay

A Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (Aepps) publicou em sua página no Facebook, em janeiro de 2017, um levantamento informal sobre as páginas da internet que não revelam quem são os responsáveis pela produção dos conteúdos publicados. Isso seria um indício de que eram fontes de fake news.

Essa informação teria sido interpretada de maneira incorreta e a diversos veículos e blogs noticiaram um ranking com os maiores responsáveis por publicar fake news.

Fake news são notícias falsas publicadas principalmente na internet. Em geral, tratam de assuntos relacionados à política e usam a estrutura de um texto jornalístico para convencer os leitores. O termo ficou mais conhecido durante a campanha presidencial dos EUA, em 2016. 

"Tudo foi um grande mal-entendido. usaram a lista de sites que nós monitoramos e selecionaram somente as páginas de direita que escondiam quem eram as pessoas responsáveis pelo conteúdo publicado. Na interpretação deles, era um indício de fake news. Dessa forma, um levantamento assistemático virou um ranking e nós viramos autor de um estudo", explica Pablo Ortellado, professor da USP e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital.

As matérias publicadas em sites e blogs diziam que o Movimento Brasil Livre (MBL) seria o primeiro do ranking de responsáveis por publicar boatos. A notícia foi amplamente compartilhada por usuários das redes sociais e chegou até o Supremo Tribunal Eleitoral (STE). O judiciário se posicionou afirmando que abriria um procedimento junto ao Ministério Público Eleitoral para que fosse verificada as irregularidades apontadas pelo "estudo". 

"A lista só se difundiu dessa maneira porque só mostrava sites da direita e foi usada como arma de combate no debate político. Ela encarnava o argumento da esquerda de que a direita joga sujo ou mais sujo. A notícia falsa precisa dessa paixão política como motor. A intenção é passar adiante que aquela posição pessoal é a correta", afirma Ortellado.

O MBL é abertamente de direita e tem rivalidades com os simpatizantes dos partidos de esquerda. Como as notícias traziam o movimento no primeiro lugar de um ranking sobre fake news, rapidamente atriu a atenção de milhares de pessoas.

"Os compartilhamentos das notícias chegaram a um quarto de milhão. Os nossos posts desmentindo o caso não chegavam a uma centena. Isso porque não tinha esse sentimento de rivalidade por trás", argumenta o professor.

A Aepps excluiu o post que deu origem ao ocorrido e publicou esclarecimentos em seu perfil no Facebook.

Segundo Pablo Ortellado, o levantamento que a Aepps tentou realizar é inviável. Seria necessário um conjunto muito grande de notícias e um batalhão de jornalistas trabalhando por alguns meses. Isso seria financeiramente inviável e impossível de ser feito por uma organização acadêmica como o Monitor do Debate Político no Meio Digital.

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