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Tecnologia e Ciência
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Fofocas e vício em pornografia: tribo isolada enfrenta problemas após se conectar à internet

Os marubos são uma das comunidades da Amazônia que receberam a Starlink, a internet via satélite de Elon Musk

Tecnologia e Ciência|Jack Nicas, do The New York Times


Comunidade marubo de dois mil membros é uma das centenas no Brasil que receberam conexão da Starlink Victor Moriyama/The New York Times - 08.04.2024

À medida que o discurso da primeira líder mulher do grupo se prolongava, os olhos começaram a se desviar para as telas. Adolescentes navegavam pelo Instagram. Um homem mandava mensagem para sua namorada, e um grupo deles se aglomerava em torno de um telefone que transmitia um jogo de futebol – cena que seria comum em qualquer outro lugar, mas que se passou numa aldeia indígena em uma das regiões mais isoladas do planeta.

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Há muito tempo, os marubos vivem em ocas comunitárias espalhadas por centenas de quilômetros ao longo do Rio Ituí, no coração da selva amazônica. Falam uma língua própria, fazem uso de ayahuasca para se conectar com os espíritos da floresta e capturam macacos-aranha para fazer sopa ou tê-los como animais de estimação. Em razão do isolamento, mantiveram esse estilo de vida durante séculos – alcançar algumas das aldeias leva semanas. Mas desde setembro, graças a Elon Musk, os marubos têm internet de alta velocidade.

Essa comunidade indígena de dois mil membros é uma das centenas no Brasil que de repente estão se conectando por intermédio da Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX, empresa espacial privada de Musk. Desde sua chegada ao Brasil, em 2022, a Starlink conectou a maior floresta tropical do mundo, levando a internet a um dos últimos lugares do planeta que permaneciam desconectados.

O “The New York Times” viajou ao coração da Amazônia para visitar as aldeias dos marubos e entender o que acontece quando uma civilização pequena e reclusa de repente se abre para o mundo.

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Na tribo, adolescentes grudados aos celulares e grupos de mensagens estão cheios de fofocas Victor Moriyama/The New York Times - 02.06.2024

“Quando a internet chegou, todo mundo estava feliz. Mas, agora, as coisas pioraram”, disse Tsainama Marubo, de 73 anos, sentada no chão da maloca de sua aldeia, uma oca de cerca de 15 metros de altura na qual os marubos dormem, cozinham e comem juntos. A internet trouxe benefícios claros, como videochamadas com entes queridos distantes e ligações de emergência. Ela amassava jenipapo para fazer tinta corporal preta e usava colares feitos de conchas de caracol – atividades que, recentemente, os jovens perderam o interesse em executar, segundo ela:

“Estão ficando preguiçosos por causa da internet. Estão aprendendo os modos dos brancos. Mas, por favor, não tirem da gente a internet”, concluiu ela, depois de uma breve pausa.

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Os marubos estão lutando com o dilema fundamental da internet: ela se tornou indispensável – mas isso tem seu preço.

Depois de apenas nove meses com a Starlink, os marubos já estão enfrentando os mesmos desafios que vêm abalando os lares americanos há anos: adolescentes grudados aos celulares, grupos de mensagens cheios de fofocas, redes sociais viciantes, estranhos on-line, videogames violentos, golpes, desinformação e menores expostos à pornografia.

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A sociedade moderna tem enfrentado esses problemas ao longo de décadas, à medida que a internet continua sua marcha incessante. Os marubos e outros povos indígenas, que resistiram à modernidade durante gerações, atualmente estão confrontando o potencial e o perigo da internet, tudo ao mesmo tempo, enquanto debatem o que isso vai significar para a identidade e a cultura deles.

O debate surgiu por causa da Starlink, que rapidamente dominou o mercado global de internet via satélite, oferecendo um serviço que antes parecia impensável em áreas tão remotas. A SpaceX fez isso lançando seis mil satélites da Starlink em órbita baixa – cerca de 60% de todos os artefatos ativos no espaço – para fornecer velocidades mais rápidas do que muitas conexões domésticas em quase qualquer lugar do planeta, como no Saara, nas estepes da Mongólia e em pequenas ilhas do Pacífico.

O negócio decolou. Recentemente, Musk anunciou que a Starlink ultrapassou três milhões de usuários em 99 países. Analistas estimam que as vendas anuais aumentaram cerca de 80% desde o ano passado, o que equivale a aproximadamente US$ 6,6 bilhões.

A ascensão da Starlink deu a Musk controle sobre uma tecnologia que se tornou uma infraestrutura crucial em muitas partes do planeta – está sendo usada por tropas na Ucrânia, forças paramilitares no Sudão, rebeldes hutis no Iêmen, um hospital em Gaza e equipes de emergência no mundo inteiro.

Mas talvez o efeito mais transformador da Starlink esteja nas áreas que antes estavam fora do alcance da internet, como a Amazônia. Agora existem 66 mil contratos ativos na Amazônia brasileira, abrangendo 93% dos municípios da região. Isso abriu novas oportunidades de trabalho e de educação para os que vivem na floresta – e também deu aos madeireiros e garimpeiros ilegais da Amazônia uma nova ferramenta para se comunicar e evitar as autoridades.

Após apenas nove meses com a Starlink, os marubos já estão enfrentando vários desafios Victor Moriyama/The New York Times - 08.04.2024

Um líder marubo, Enoque Marubo (todos os marubos usam o mesmo sobrenome), de 40 anos, disse que viu o potencial da Starlink imediatamente. Depois de passar anos fora da selva, acreditava que a internet podia dar a seu povo uma nova autonomia: conseguiriam se comunicar melhor, se informar e contar sua história.

No ano passado, ele e uma ativista brasileira gravaram um vídeo de 50 segundos solicitando ajuda para obter a Starlink de potenciais benfeitores. Sentado na maloca, ele usava seu cocar marubo tradicional. Uma criança pequena, que usava um colar de dentes de animais, estava ao seu lado. O vídeo foi publicado. Dias depois, receberam uma resposta de uma mulher de Oklahoma.

A tribo

A Terra Indígena do Vale do Javari, um dos lugares mais remotos do planeta, é uma faixa estreita de floresta tropical do tamanho de Portugal, sem estradas, e com um labirinto de vias fluviais. Dos 26 povos, 19 vivem em completo isolamento – a maior densidade do mundo.

Os marubos também já viveram isolados, percorrendo a selva durante centenas de anos, até a chegada dos extratores de borracha, perto do fim do século XIX, acarretando décadas de violência e de doenças, além da introdução de novos costumes e tecnologia. Os marubos começaram a usar roupas. Alguns aprenderam português. Trocaram o arco por armas de fogo, para caçar javalis, e o machado pela serra elétrica, com o objetivo de limpar áreas para o cultivo de mandioca.

Uma família em particular impulsionou essa mudança. Na década de 1960, Sebastião Marubo foi um dos primeiros a viver fora da selva. Quando voltou, trouxe outra nova tecnologia: o barco a motor – e reduziu as viagens de semanas para dias.

Atualmente existem 66 mil contratos ativos da Starlink na Amazônia brasileira, abrangendo 93% dos municípios da região Victor Moriyama/The New York Times - 06.04.2024

Seu filho, Enoque, emergiu como o líder da geração seguinte, ansioso para levar sua comunidade ao futuro. Ele tem dividido a vida entre a floresta e a cidade, e chegou a trabalhar como designer gráfico para a Coca-Cola. Por isso, quando os líderes marubos demonstraram interesse em obter conexões de internet, recorreram a ele para orientá-los. Enoque obteve sua resposta quando Musk veio ao Brasil. Em 2022, o proprietário da SpaceX e Jair Bolsonaro, então presidente, anunciaram a chegada da Starlink em frente a uma tela que dizia “Conectando a Amazônia”.

Enoque e Flora Dutra, ativista brasileira que trabalha com povos indígenas, enviaram cartas para mais de cem membros do Congresso solicitando a Starlink. Nenhum deles respondeu. No começo do ano passado, ela viu uma mulher americana dando uma palestra sobre o espaço e, ao checar sua a página do Facebook, a viu posando do lado de fora da sede da SpaceX. “Eu sabia que ela era a pessoa certa”, comentou Dutra.

A benfeitora

A página do LinkedIn de Allyson Reneau a descreve como consultora espacial, palestrante, autora, piloto, equitadora, humanitária, CEO, diretora do conselho e mãe de 11 filhos biológicos. Pessoalmente, ela diz que ganha a maior parte de seu dinheiro treinando ginastas e alugando casas perto de Norman, em Oklahoma.

Sua história é perfeita para o programa “Today Show” e, de fato, Reneau já a contou lá. Entrou na faculdade aos 47 anos, fez o mestrado na Escola de Extensão de Harvard, aos 55, e depois se tornou palestrante motivacional itinerante. Suas redes sociais a mostram com crianças em Ruanda, na televisão paquistanesa e em conferências na África do Sul.

A atenção que atraiu nem sempre foi bem recebida. Em 2021, foi entrevistada na CNN e na Fox News por “resgatar” uma equipe de robótica composta exclusivamente por meninas do Afeganistão durante a tomada do Talibã. Mas, dias depois, advogados da equipe disseram a Reneau que parasse de assumir crédito por um resgate no qual teve pouca participação.

Em entrevista, Reneau garantiu que não estava visando à fama: “Caso contrário, eu estaria contando todos os projetos que faço ao redor do mundo. É o olhar no rosto, a esperança nos olhos. Esse é o prêmio.”

Ela afirmou que teve essa perspectiva quando recebeu um vídeo de um estranho, no ano passado, solicitando ajuda para conectar uma comunidade remota na Amazônia. Nunca tinha vindo ao Brasil, mas pensou que o retorno do investimento seria alto. Enoque solicitou 20 antenas da Starlink, o que custaria cerca de US$ 15 mil, para transformar a vida da tribo.

Muitos integrantes da tribo estão viciados em redes sociais e conversam com estranhos on-line Victor Moriyama/The New York Times - 08.04.2024

“Você se lembra do Charlie Wilson?”, ela me perguntou, referindo-se ao congressista do Texas que assegurou mísseis Stinger americanos que ajudaram os mujahidin – militantes afegãos – a derrotar os soviéticos na década de 1980, mas que os críticos dizem que também inadvertidamente fortaleceram o Talibã.

“Wilson mudou a guerra com uma única arma. Eu podia ver que isso era parecido. Uma ferramenta que mudaria tudo na vida deles. Saúde, educação, comunicação, proteção da floresta.” Reneau disse que comprou as antenas com o próprio dinheiro e com doações de seus filhos. Depois, reservou um voo para ajudar a entregá-las.

A conexão

A internet chegou carregada nas costas dos homens, que caminharam por quilômetros pela floresta, descalços ou de chinelos, carregando duas antenas cada. Foram acompanhados de perto por Enoque, Dutra, Reneau e um cinegrafista que documentou a viagem.

Nas aldeias, fixaram as antenas no alto dos postes e as ligaram a painéis solares, possibilitando a conexão dos satélites da Starlink aos telefones dos habitantes. (Alguns marubos já tinham celulares, muitas vezes comprados com auxílio da assistência social do governo para tirar fotos e se comunicar quando estavam na cidade.)

A internet foi uma sensação imediata. “Mudou tanto a rotina que foi prejudicial. Na aldeia, se você não caça, pesca ou planta, não come”, admitiu Enoque.

Os líderes perceberam que precisavam impor limites. A internet só seria ligada durante duas horas de manhã, cinco horas à tarde e o dia inteiro aos domingos. Nesses períodos, muitos marubos ficam curvados ou deitados na rede, olhando para o telefone. Passam muito tempo no WhatsApp. Lá, os líderes fazem a coordenação entre as aldeias e alertam as autoridades sobre problemas de saúde e destruição ambiental. Os professores marubos compartilham lições com seus alunos em diferentes comunidades. E todo mundo está muito mais próximo de seus familiares e amigos que vivem longe.

Para Enoque, o maior benefício foi em relação às emergências. A picada de uma cobra venenosa pode exigir um resgate rápido de helicóptero. Antes da internet, os marubos usavam rádios amadores, que transmitiam uma mensagem ao longo de várias aldeias até chegar às autoridades. A internet torna essas chamadas instantâneas. “Já salvou vidas.”

O debate

Em abril, sete meses depois da chegada da Starlink, mais de 200 marubos se reuniram na aldeia. Enoque trouxe um projetor para mostrar um vídeo sobre a chegada do recurso às aldeias. Quando as atividades começaram, alguns líderes no fundo da plateia se manifestaram, dizendo que a internet teria de ser desligada durante a reunião. “Não quero as pessoas postando nos grupos, tirando minhas palavras de contexto”, disse outro.

Durante as reuniões, os adolescentes navegavam no Kwai, rede social chinesa; crianças pequenas assistiam a vídeos do astro do futebol Neymar Jr. e duas garotas de 15 anos disseram que estavam conversando com estranhos no Instagram. Uma delas comentou que agora sonhava em viajar pelo mundo, enquanto a outra queria ser dentista em São Paulo. Essa nova janela para o mundo exterior deixou muita gente na comunidade se sentindo dividida. “Alguns jovens mantêm nossas tradições. Outros só querem passar a tarde toda no celular”, disse TamaSay Marubo, de 42 anos, a primeira líder feminina da tribo.

Recentemente, Musk anunciou que a Starlink ultrapassou três milhões de usuários em 99 países Victor Moriyama/The New York Times - 09.04.2024

Kâipa Marubo, pai de três filhos, afirmou que estava feliz porque a internet está ajudando na educação de seus filhos, mas que também estava apreensivo em relação aos videogames de tiro que eles jogam: “Tenho medo de que, de repente, eles possam querer imitá-los.” Tentou apagar os jogos, mas acredita que seus filhos têm outros aplicativos escondidos.

Alfredo Marubo, líder de uma associação de aldeias marubo, tem se destacado como o maior crítico da internet. Os marubos transmitem sua história e sua cultura oralmente, e ele teme que esse conhecimento possa ser perdido: “Todo mundo está tão conectado que às vezes nem fala com a própria família.”

O que mais o preocupa é a pornografia. Ele contou que os homens jovens compartilham vídeos explícitos em grupos de chat, desenvolvimento impressionante para uma cultura que desaprova beijos em público. “Estamos preocupados com a possibilidade de os jovens quererem reproduzir isso”, disse sobre o sexo mostrado nos vídeos. Acrescentou que alguns líderes relataram um comportamento sexual mais agressivo por parte dos homens jovens.

Alfredo e Enoque, como líderes de associações marubo rivais, já eram oponentes políticos, mas a discordância sobre a internet criou uma disputa mais acirrada. Depois que Dutra e Reneau entregaram as antenas, Alfredo as denunciou por não terem as permissões necessárias das autoridades federais para entrar em territórios indígenas protegidos. Por sua vez, Dutra criticou Alfredo em entrevistas e Enoque disse que ele não é bem-vindo às reuniões comunitárias.

O futuro

Dutra agora tem o objetivo de levar a Starlink para centenas de outros grupos indígenas ao longo do Amazonas, incluindo a maior tribo isolada do Brasil, os yanomamis. Algumas autoridades do governo brasileiro e organizações não governamentais declararam temer que a internet esteja chegando às comunidades indígenas depressa demais, frequentemente sem abordar os perigos envolvidos.

Dutra afirmou que os grupos indígenas querem e merecem a conexão, e que a crítica faz parte de uma longa tradição de estrangeiros dizendo aos indígenas como viver: “Isso é chamado etnocentrismo: o homem branco pensando que sabe o que é melhor.” Enoque e ela anunciaram que planejam ministrar treinamento sobre a internet. Nenhum marubo entrevistado disse ter recebido isso até agora.

Em abril, Reneau voltou à floresta. A pedido de Enoque, comprou mais quatro antenas. Duas foram para os korubos, tribo com menos de 150 pessoas que foi contatada pela primeira vez em 1996 e que ainda tem alguns membros em completo isolamento.

Sentada em um tronco, comendo carne seca e mandioca cozida no chão de terra da maloca, Reneau disse que reconhece que a internet é “uma faca de dois gumes”. Por isso, quando publica no Facebook sobre o fato de ter levado a internet para os marubos, sempre enfatiza que foi solicitada por um líder. “Não quero que as pessoas pensem que estou trazendo isso para forçá-los a aceitar, e espero que eles possam preservar a pureza dessa cultura incrível, porque se ela desaparecer não tem volta.”

Mais tarde, na mesma refeição, Sebastião, pai de Enoque, comentou que a jornada da comunidade com a internet já tinha sido prevista. Décadas atrás, o xamã marubo mais respeitado teve visões de um dispositivo manual que poderia se conectar com o mundo todo. “Seria para o bem do povo. Mas, na verdade, não. No fim, haveria guerra.”

Enoque estava sentado em um tronco na frente dele, ouvindo. “Acho que a internet nos trouxe muito mais benefícios do que danos. Pelo menos até agora. Os líderes foram claros: não podemos viver sem internet”, frisou ele, alegando que voltar atrás já não é uma opção.

c. 2024 The New York Times Company

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