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Tecnologia e Ciência
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Se a inteligência artificial pode fazer seu trabalho, talvez possa substituir seu chefe

Estudos indicam que os chefes executivos de empresas também estão cada vez mais ameaçados pela evolução da IA

Tecnologia e Ciência|David Streitfeld, do The New York Times

Os CEOs são vulneráveis às mesmas forças que afetam seus empregados. Mostrar liderança é essencial, mas ser eficiente e ter a habilidade de reduzir custos também são (STEPH RAMPLIN/Steph Ramplin/The New York Times)

À medida que os programas de inteligência artificial (IA) agitam os locais de trabalho, com a possibilidade de tornar obsoletos milhões de empregos, um grupo de funcionários sempre estressados está especialmente vulnerável.

Eles fazem análise de novos mercados e descobrem tendências, tarefas que um computador poderia executar com mais eficiência. Passam boa parte do tempo se comunicando com colegas, atividade trabalhosa que está sendo automatizada com os novos geradores de voz e imagem. Às vezes, precisam tomar decisões difíceis – e quem melhor para tomar decisões imparciais do que uma máquina? Por fim, possuem um emprego muito bem remunerado, o que significa que a economia de custos resultante de sua eliminação é considerável.

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O CEO, o chefe executivo de uma empresa, está cada vez mais ameaçado pela IA, assim como o assessor de imprensa e o responsável pelo atendimento ao cliente. Fábricas escuras, totalmente automatizadas, em breve terão a companhia, no topo da corporação, de escritórios escuros.

Isso não é só uma previsão. Algumas empresas de sucesso começaram a experimentar e demonstrar publicamente a possibilidade de trabalhar com um líder gerado por IA, mesmo que, no momento, isso seja mais um exercício de branding, ou seja, de promoção de um produto ou de uma empresa.

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A IA vem sendo considerada a solução para todos os problemas corporativos há aproximadamente 18 meses, desde que a OpenAI lançou o ChatGPT, em novembro de 2022. O Vale do Silício investiu US$ 29 bilhões no ano passado em IA generativa, que possibilita criar novos conteúdos, e está vendendo muito. Mesmo em sua forma rudimentar atual, a IA que imita o raciocínio humano encontrou uma posição segura no seio das empresas em dificuldades, com pouco a perder e sem uma liderança forte.

“Nas empresas em dificuldades, você começa substituindo o gerenciamento operacional, mas, provavelmente, vai manter alguns seres humanos que pensem além das máquinas. Olhando o aspecto geral, a mudança proporcionada pela IA vai ser tão grande ou maior nos níveis estratégicos mais elevados de gestão das empresas quanto nos níveis mais baixos”, disse Saul J. Berman, ex-sócio sênior de consultoria da IBM.

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Os próprios CEOs parecem entusiasmados com a perspectiva – ou talvez sejam apenas fatalistas.

Centenas de entrevistas sobre o assunto foram feitas com CEOs e outros executivos no verão setentrional do ano passado. A edX, plataforma de aprendizagem on-line criada pela Universidade Harvard e pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) – que agora faz parte da 2U Inc. (empresa que oferece soluções tecnológicas de educação on-line), de capital aberto –, foi quem fez a pesquisa. Os entrevistados convidados para participar receberam o que a edX chamou de “um pequeno incentivo monetário”. As respostas dadas foram impressionantes. Quase metade – cerca de 47% – dos executivos entrevistados acredita que “a maior parte” ou “a totalidade” da função de CEO deveria ser completamente automatizada ou substituída por IA. Em outras palavras, até mesmo os executivos acreditam que os executivos serão supérfluos no fim da era digital.

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Quando Anant Agarwal, fundador da edX e ex-diretor do Laboratório de Ciência da Computação e IA do MIT, viu essa porcentagem de 47 por cento pela primeira vez, supôs que os executivos quisessem dizer algo totalmente diferente. “Meu primeiro instinto foi pensar que diriam: ‘Substitua todos os funcionários, mas não a mim.’ Depois pensei melhor, e eu diria que 80% do trabalho de um CEO pode ser substituído pela IA.”

Isso inclui escrever, sintetizar e mobilizar funcionários. Mais sutilmente, a IA – se atingir qualquer um dos níveis que seus promotores afiançam – democratizará o trabalho de gestão no topo das empresas, ao mesmo tempo que o reduzirá em escala.

“Normalmente, no passado, havia pessoas que eram boas com números e outras que não eram. O surgimento da calculadora equalizou enormemente as habilidades. Acredito que a IA vai fazer o mesmo com a educação. Todo mundo vai poder ser um CEO”, observou Agarwal.

Muito antes do atual boom da IA, Jack Ma, na época CEO da Alibaba, empresa chinesa de comércio eletrônico, previu que em 30 anos “haverá chances reais de um robô aparecer na capa da revista ‘Time’ como o CEO do ano”, ressaltando que os robôs eram mais rápidos e racionais do que os humanos e não eram movidos por emoções, como a raiva.

Em 2022, a empresa chinesa de jogos on-line NetDragon Websoft, que tem cinco mil funcionários, nomeou o que chama de “CEO rotativo orientado por IA” e lhe deu o nome Tang Yu. “Acreditamos que a IA é o futuro da gestão corporativa”, declarou o fundador da empresa, Dejian Liu, acrescentando que a troca de CEO fazia parte da mudança da NetDragon para uma “comunidade de trabalho baseada no metaverso” (cuja definição pode ser a de um universo digital que vai além da internet que conhecemos hoje).

Tang Yu, que é personificada como uma mulher, não aparece no gráfico on-line da equipe de gestão da NetDragon. A empresa anunciou no mês passado que ela ganhou “o cobiçado título de ‘Melhor Funcionária Virtual do Ano da China’” no Fórum Chinês da Indústria Humana Digital. Outro executivo (humano) recebeu o prêmio por ela. A equipe de funcionários de IA da NetDragon é responsável pelas avaliações de desempenho e orientação, entre outras funções, afirma a empresa.

Do outro lado do mundo, a sofisticada empresa polonesa fabricante do rum Dictador anunciou, em novembro, que possuía uma CEO humanoide de IA, chamada Mika. A própria Mika anunciou, no LinkedIn, que era “desprovida de preconceitos pessoais, garantindo escolhas imparciais e estratégicas que priorizam os melhores interesses da organização”.

Executivos da Associação Nacional de CEOs podem ter algo a dizer sobre essa tendência – mesmo que seja apenas para negá-la –, mas seu website não lista nenhum ser humano real afiliado ao grupo. Uma mensagem enviada por meio do prompt “fale conosco” não recebeu resposta.

Especialistas em IA do tipo humano alertaram que ainda estamos no início de uma transição, mas disseram que se trata de uma progressão natural. “Antes, terceirizávamos o esforço. Agora estamos terceirizando a inteligência. Mesmo que você não precise do mesmo número de líderes, ainda vai precisar de liderança”, comentou Vinay Menon, que lidera a prática global de IA na consultoria Korn Ferry.

No ano passado, grande parte da discussão sobre a IA no local de trabalho girou em torno de como funcionários comuns estão em posição de fragilidade, a menos que incorporem novas tecnologias em seu emprego – sem, é claro, deixar que os serviços que prestam se tornem IA. Sabemos que, historicamente, a automação coloca os trabalhadores em risco, ao mesmo tempo que beneficia investidores e gestores.

Agora a situação se inverteu. Alguns pesquisadores especulam que a automação, no nível executivo, poderia até ajudar trabalhadores de nível inferior. “Alguém que já tem bastante experiência na carreira e está motivado pode dispensar um chefe humano. Nesse caso, o software para autogestão pode até melhorar a capacidade dos trabalhadores”, disse Phoebe V. Moore, professora de gestão e futuro do trabalho na Escola de Negócios da Universidade de Essex.

A pandemia abriu caminho para isso. Muitos funcionários de escritório trabalharam em casa em 2020, e muitos continuam assim, pelo menos vários dias na semana. A comunicação com colegas e chefes executivos é feita por meio de máquinas. Faltam poucos passos para que a comunicação seja feita com uma máquina que não tem uma pessoa do outro lado.

“Algumas pessoas gostam dos aspectos sociais de ter um chefe humano. Mas, depois da covid, muitos concordam que é bom não ter um”, afirmou Moore.

c. 2024 The New York Times Company

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