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Tecnologia e Ciência Tornados podem não ter vínculo com mudanças climáticas

Tornados podem não ter vínculo com mudanças climáticas

Especialistas afirmam que é difícil apontar ligação entre aquecimento global e o fenômeno extremo que atingiu os EUA

AFP
Tornados no estado do Kentucky deixaram ao menos 80 mortos

Tornados no estado do Kentucky deixaram ao menos 80 mortos

Brendan Smialowski/AFP - 12.12.2021

As mudanças climáticas provocaram os tornados catastróficos que varreram os Estados Unidos no fim de semana? Embora as condições para o fenômeno possam ser fomentadas pelo aquecimento global, os cientistas têm visto com cautela um possível vínculo direto.

Neste ano, estabeleceu-se uma conexão entre as mudanças climáticas, uma onda de calor no noroeste dos Estados Unidos e até mesmo as inundações na Alemanha e na Bélgica. No entanto, o fenômeno dos tornados é um dos mais difíceis de estudar.

Nas últimas décadas, tem-se visto uma tendência de condições mais favoráveis à formação dos tornados "no meio-oeste e no sudeste" dos Estados Unidos, explicou à AFP John Allen, climatologista da Central Michigan. "E esse sinal é mais forte no inverno." 

De qualquer forma, ele esclareceu que "é desonesto atribuir esse evento às mudanças climáticas". 

James Elsner, professor de climatologia da Universidade Estadual da Flórida, faz uma comparação eloquente: embora a neblina tenda a aumentar o número de acidentes automobilísticos, a causa de um acidente específico em um clima nebuloso pode ser outra.

Para determinar essa causa, é preciso fazer uma pesquisa: a ciência de "atribuir" eventos extremos às mudanças climáticas está realmente no auge, mas um estudo como esse levará tempo, se chegar a ser feito.

Enquanto isso, podemos ao menos dizer que as mudanças climáticas, ao criarem essas condições favoráveis, aumentarão o número de tornados no futuro? 

"A evidência parece apontar nessa direção. Mas não acho que possamos afirmar isso definitivamente ainda", admite Allen. 

O relatório mais recente dos especialistas climáticos da ONU, datado de agosto, destacou "um baixo grau de confiança" em relação a um vínculo entre as mudanças climáticas e fenômenos tão localizados quanto os tornados. E isso se aplica tanto às "tendências observadas" quanto às "projeções". 

Quais mudanças observamos?

A média anual de tornados nos Estados Unidos, a maioria dos quais ocorre na primavera, não aumentou nos últimos anos: o número se mantém ao redor de 1.300. 

"A maioria dos meses está parelha", diz Jeff Trapp, chefe do departamento de ciências atmosféricas da Universidade de Illinois. "A exceção são os meses de dezembro e janeiro, que viram um aumento dos tornados nos últimos 30 a 40 anos", assinala. Particularmente no sul dos Estados Unidos, o que é "consistente" com uma "explicação potencialmente ligada às mudanças climáticas". 

Isso se deve ao fato de que os dois ingredientes necessários à formação dos tornados são ar quente e úmido perto do solo e ventos soprando em direções contrárias e em altitudes diferentes.

Mas hoje observamos "uma probabilidade maior de dias quentes durante o período de frio, o que pode favorecer a formação de tempestades e tornados", avalia Trapp. 

Por outro lado, os tornados parecem se concentrar em menos dias. Quando eles se formam, a tendência é que ocorram mais ao mesmo tempo, explica Chiara Lepore, pesquisadora da Universidade de Columbia. E "isso tem consequências em termos de danos", destaca.

Finalmente, os cientistas observam uma mudança geográfica para o leste, em comparação com a área dos Estados Unidos apelidada de Tornado Alley, ou "alameda dos tornados", migrando para os estados de Arkansas, Mississippi ou Tennessee, os três afetados nesta semana.

O que esperar no futuro?

O problema que os cientistas enfrentam para estudar os tornados é que eles são muito transitórios e pequenos para aparecer nos modelos climáticos que são usados habitualmente. Portanto, os cientistas se veem limitados a estudar apenas a evolução das condições potencialmente favoráveis à sua formação.

Um estudo publicado no começo de novembro estimou que, a cada grau Celsius adicional de aquecimento, a probabilidade de condições favoráveis a um temporal severo (com chuva de granizo, furacões etc.) aumentava entre 14% e 25% nos Estados Unidos. 

No entanto, isso não significa que furacões vão ocorrer toda vez que as condições forem propícias – inclusive, isso é muito pouco provável.

"Essa é uma espécie de teto do que poderemos ter com cada grau de aquecimento global", disse Chiara, autora principal do estudo. 

Segundo outro estudo, que será publicado em breve, "os tornados poderiam ficar mais potentes em climas futuros", segundo Trapp. Para chegarem a essa conclusão, os cientistas pegaram um evento já observado e analisaram como as condições climáticas futuras o afetariam.

De qualquer forma, os tornados muito violentos continuarão sendo "eventos incomuns", prevê. 

"Ainda estamos nas primeiras etapas da nossa compreensão do vínculo entre as mudanças climáticas e o que chamamos de tempestades localizadas severas", afirma James Elsner. "Mas, nos próximos cinco ou dez anos, veremos alguns avanços reais."

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