Luis Favre, ex-marido de Marta Suplicy, é convocado a depor na Lava Jato do Peru
Ele terá de explicar seu vínculo com o PT e com as empreiteiras brasileiras investigadas no país
Brasil|Lumi Zúnica, especial para R7

A comissão do Congresso peruano que investiga casos ligados à Operação Lava Jato no país decidiu convocar o publicitário Luis Favre, ex-marido da senadora Marta Suplicy e assessor do Partido dos Trabalhadores do Brasil, para prestar depoimento na próxima terça-feira (15) na condição de investigado.
A convocatória é assinada pelo congressista Juan Pari Choquecota, que preside a comissão, e foi publicada no diário oficial “El Peruano” do dia 4 de março.
A texto estabelece que o tema abordado será o vínculo de Favre com o Partido dos Trabalhadores do Brasil e sua relação laboral, contratual ou comercial com as empresas Odebrecht, Camargo Correa, OAS, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão. Os convocados – além de Favre, foram citados um ex-vice ministro, dois executivos de estatais peruanas – poderão se apresentar acompanhados de advogado, esclarece o documento.
Em entrevista telefônica, Mauricio Mulder, congressista peruano que integra a comissão, declarou:
— Aprovamos ontem na Comissão Lava Jato que o sr. Luis Favre será considerado investigado por ser gestor de interesses das empresas que estão imputadas no Brasil e aqui [no Peru].
Mulder afirma que foi pedida a quebra do sigilo bancário e tributário de Favre e diz que ele foi pago por construtoras brasileiras por “seu conhecimento sobre a política interna de nosso país”.
— Se se trata de uma pessoa que faz lobby para essas empresas e essas empresas tem pago propina, algo ele terá a nos dizer.
Quem é Favre
O verdadeiro nome de Luis Favre é Felipe Belisário Wermus. Nasceu na Argentina em 1950 e militou no partido de esquerda radical “Política Operária”. Em 1970 se autoexilou na França, fugindo da ditadura argentina, onde passou a usar o nome de Luis Favre.
Em Paris integrou os quadros da Quarta Internacional, organização que prega princípios comunistas defendidos por León Trótski, e trabalhou na gráfica do grupo, sendo nomeado responsável pelos grupos latino-americanos e supervisor da entidade no Brasil, para onde veio em 1985.
No Brasil articulou o movimento que acabaria levando a seção brasileira da Quarta Internacional ao PT, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva.
Após dois casamentos desfeitos com uma francesa e uma americana, no Brasil casou-se pela terceira vez. A nova mulher era Marília Andrade, filha do dono de uma das empresas investigadas na Lava Jato, a Andrade Gutierrez. O casal mudou-se anos depois a Paris retornando ao Brasil em 2000 onde acabou se separando.
A quarta mulher foi Marta Suplicy, que tinha separado do então senador Eduardo Suplicy. O namoro anunciado em abril de 2001 acabou em casamento em 2003, com Lula e a primeira dama Marisa como padrinhos. A união durou até 2009.
Durante esses oito anos, Favre trabalhou nas campanhas de Marta aos governos estadual e municipal de São Paulo, que acabaram derrotadas.
Conhecido de Humala
Favre é um velho conhecido dos peruanos. Segundo o parlamentar Javier Diez Canseco, nos anos 1980 o argentino foi enviado pela Quarta Internacional.
Em 2006, por recomendação do Partido dos Trabalhadores, Favre foi contratado pelo então candidato a presidência do Peru, Ollanta Humala, com o objetivo de se livrar da imagem de “chavista”. Humala perdeu a eleição.
Já em 2011. Favre foi responsável pela campanha eleitoral que levou Humala à presidência.
Acusações no Peru
O publicitário já é alvo de acusações desde seus primeiros contatos com Humala. Em 2006, um assessor presidencial questionou a proximidade de Favre com o presidente A também congressista Marisol Espinoza pediu uma investigação para esclarecer qual a função de Favre no governo e informar quem pagava pelos seus serviços.
Atualmente a acusação que pesa contra ele é a de fazer lobby favorecendo construtoras brasileiras para conseguir contratos de obras com o Estado peruano.
Em janeiro deste ano foi contratado como assessor de Cesar Acuña, candidato a presidência da república no Peru pelo partido APP (Alianza para el Progresso), investigado pela ONPE (Oficina Nacional de Procesos Electorales).
Documentos da Justiça Eleitoral daquele país mostram que no dia 18 de dezembro, Acuña teria emprestado 1,7 milhão de soles, (US$ 485 mil) a seu partido político.
No dia 23, cinco dias depois, o partido fez uma remessa de 1.720.464,40 de soles ao exterior para a empresa brasileira Epoke Consultoria em Midia Ltda., de propriedade de Luis Favre. O registro contável da transferência tem uma inscrição ao lado: “Contratação Favre”.
Como a lei que regula as doações eleitorais no Peru proíbe que pessoas naturais e jurídicas doem mais do que 237 mil soles, o aporte de Acuña está sob suspeita de ser uma doação “maquiada” de empréstimo.
Acuña foi condenado em primeira instancia acusado de ter “presenteado” dinheiro a comerciantes de uma localidade nos arredores de Lima.
Apelou ao Jurado Nacional de Elecciones e aguarda decisão final em segunda instância para saber se será excluído do processo eleitoral do próximo 10 de abril. Ele é acusado de ter plagiado sua tese de formatura e a íntegra de um livro.
Favre renunciou ao cargo de assessor de Acuña no dia 28 de fevereiro.
Outro escândalo envolvendo o nome do assessor foi o contratado US$ 150.000 firmado em 2011 para assessorar a ex-prefeita de Lima, Susana Villarán, para evitar que ela fosse deposta numa consulta eleitoral que ficou conhecida como “processo de revocatória”.
Acusações no Brasil
Favre foi investigado pelo Ministério Público no Brasil em 2007 suspeito de operar duas contas offshore para abastecer as contas do Partido dos Trabalhadores com dinheiro ilícito.
As suspeitas vieram à tona em 2006, quando Antonio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, operador de câmbio acusado de lavagem de dinheiro, enviou desde a prisão uma série de cartas para sua mulher contando como eram feitas as transações e triangulações de dinheiro que beneficiariam o Partido dos Trabalhadores.
As cartas deviam ser publicadas caso ele fosse assassinado.
O dinheiro teria sido operado através de duas contas administradas pelo francês Felipe Belisario Wermusdit e pelo argentino Felipe Belisario Wermus. Ambos na verdade eram Luis Favre, segundo “Tonihno da Barcelona”.
O francês teria sido responsável pela conta “Naston Incorporation” que fazia as remessas a outras duas contas através da filial do Banco Rural do Brasil nas Ilhas Cayman, o Trade Link Bank. Já o argentino enviaria valores para uma conta da Empire State Scorpus no Panamá.
O dinheiro depois retornava ao Brasil através de uma sofisticada rede de operações de câmbio coordenadas por Toninho da Barcelona.
Favre foi liberado das acusações.















