Estudantes relatam violência e abuso de poder em escola técnica de São Paulo
Alunos veem perseguição após ocupação da Basilides de Godoy; governo nega as acusações
Educação|Peu Araújo, do R7

“O meu sonho era que meu filho entrasse numa Etec”. O relato de Rosana Kunha, pedagoga e mãe de um estudante secundarista, é bastante comum. A busca por uma das 44 Escolas Técncias Estaduais da capital paulista — ou uma das 220 do Estado — é enorme e o vestibulinho chega a ter mais de 1.000 candidatos por vaga.
Rosana completa. “A Etec depois virou o meu pesadelo.”
O filho dela Gabriel Kunha, de 18 anos, entrou em 2013 na Escola Técnica Estadual Professor Basilides de Godoy, na Lapa, zona oeste da capital, para cursar o Ensino Médio e sua rotina escolar, principalmente nos dois últimos anos, ficou bem conturbada. Transferido compulsoriamente, o aluno não pode voltar aos estudos e, por causa da burocracia, já repetiu de ano.
“Eles me transferiram, mas não me deram opção para onde ir. Eles só falaram que lá eu não estudo mais”, explica o secundarista, que se mantém firme na intenção de voltar às aulas. “Eu me esforcei, eu fiz uma prova. Eu tenho todo o direito de continuar nesta escola. Pode levar o tempo que precisar, mas eu vou voltar para esse lugar, porque eu tenho direito de estar lá.”
Em nota, o Centro Paula Souza se pronunciou sobre o aluno. “A Assessoria de Comunicação do Centro Paula Souza (CPS) informa que houve, de fato, a transferência de um aluno, referendada pelo conselho escolar por unanimidade e ocorrida antes da ocupação da escola. Este estudante recebeu diversas advertências, uma delas referente ao porte de arma branca, antes de ser transferido. O jovem foi notificado e teve prazo de defesa, mas recusou-se a exercê-la.”
Gabriel Kunha desmente a versão apresentada pelo Paula Souza. “Eram quatro advertências e duas delas não eram verdadeiras. Elas eram sobre uma briga no pátio que não ocorreu e uma ameaça à inspetora que também não ocorreu. Não assinei as advertências, porque não concordava com elas. Além disso, eles não me deram a oportunidade de responder”. O estudante explica também a arma branca atribuída pela instituição. “A arma branca existia, mas era um nunchaku que estava na minha mochila. Eu tinha kung fu a tarde.”
Ele fala sobre seu currículo escolar com sinceridade. “Eu nunca fui o melhor aluno, eu sempre tive muita dificuldade em relação ao ensino, tanto que não é a primeira vez que eu reprovo, mas isso não tira o meu direito à educação”. Gabriel ainda questiona a quebra de protocolo em sua expulsão. “Antes de me transferir eles teriam que ter me notificado, depois me advertido, depois me suspendido e aí sim me transferido. Eles quebraram três etapas”. E conclui. “Eu acho que eles vão me perseguir dia e noite se eu voltar, mas não tem arrego.”
Agressão no pátio
O aluno do curso de mecânica Luciano*, de 23 anos, também relata uma situação temerária no Basilides de Godoy. Um dos raros estudantes do noturno a apoiar a ocupação da escola, ele conta cenas de perseguição e agressões de outros alunos e comenta a falta de cuidados da coordenação da escola.
“No intervalo eu sempre compro um suco e um hambúrguer. Eu tava sentado comendo no pátio e um cara passou por mim e falou. ‘Brigou tanto por comida e ta aí. Cadê sua marmita?’. Eu respondi pra ele. ‘Por que você não compra uma pra mim se está tão preocupado?’ Ele começou a me ofender e me agrediu.”
Luciano conta como foi a recepção da diretora da escola. “Eu fui até a coordenação e a diretora disse ‘Depois que eu jantar a gente vê’ e simplesmente não se mexeram.”
Na sequência, ele foi até a sala de seu agressor para identificá-lo e outra confusão aconteceu. “Quando ele me viu levantou com mais três e saiu da sala de aula. Num piscar de olhos saíram mais três salas e eles me cercaram no corredor. Se não fossem algumas pessoas com bom senso eu teria sido espancado.”
Novamente Luciano fala sobre a conduta da coordenação do Basilides de Godoy. “Fomos levados à sala da diretora e a todo momento eles não falavam que eu fui agredido, comentavam que eu fui atrás do cara que me bateu na sala de aula como se eu tivesse pedido por isso. Eu fiquei quieto, porque ali sozinho eu não iria resolver nada.”
O Centro Paula Souza se pronunciou em relação ao caso. “Sobre o aluno agredido por outro estudante, a direção da Etec informou que o agressor sofreu suspensão de 15 dias. O aluno agredido solicitou transferência da unidade e foi atendido”. E acrescentou que “a unidade desenvolve atividades pedagógicas permanentemente para minimizar eventuais conflitos e promover a boa convivência entre a comunidade escolar."
A transferência do estudante foi feita no dia seguinte. Ele mostra o seu ponto de vista. “Eles incentivaram a violência, mas perderam o controle. Por isso me transferiram tão rápido” e ainda faz sérias revelações sobre a conduta do corpo docente da escola técnica. “Os professores contaram muitas mentiras para quem estava contra a ocupação. Para eles nós éramos terroristas, nós éramos pagos pelo PT, estávamos ganhando pão com mortadela, não queríamos ter aula, queríamos ferrar com a vida deles.”
Má conduta dos professores
Os entrevistados elencam, ainda, conduta inapropriada de vários professores. “Teve professor que entrou na escola e agrediu aluno fisicamente, arrancou o celular da mão e quebrou. Teve um professor que agrediu e humilhou a minha mãe. Teve uma professora que avançou com o carro pra cima da gente”, comenta Gabriel Kunha. “Eu vi vários professores incentivarem agressões aos alunos. Eles focavam nos alunos maiores de 18 anos, que era eu e mais um outro”, completa Luciano.
Eles ainda nomeiam o professor de desenho técnico e coordenador do curso de mecânica Jorge Moriya como um dos principais incentivadores da violência dentro do colégio. “Ele falou que eu era a vergonha do curso de mecânica”, afirma Luciano.
Sobre essas denúncias, o Centro Paula Souza disse apenas. “Não. A resposta é essa.”
*Nome fictício










