Apesar de renúncia de governo e fim de leis repressoras, opositores ucranianos mantêm protestos
Com renúncia de primeiro-ministros, todos os ministros perderam cargo, mas presidente continua
Internacional|Do R7, com EFE

A oposição da Ucrânia obteve nesta terça-feira (28) uma vitória crucial ao conseguir que duas de suas principais reivindicações fossem cumpridas: a renúncia de todo o governo e a revogação das leis que limitavam as liberdades fundamentais (e, consequentemente, cerceava as manifestações).
Mas a luta não está nem perto do fim. Os opositores querem agora a libertação dos manifestantes presos, o retorno à Constituição de 2004 e, o mais importante: eleições presidenciais antecipadas.
"O mais importante agora é conservar a unidade e a integridade territorial. Isto é muito mais importante que qualquer plano ou ambição pessoal", disse na carta de renúncia Nikolai Azarov, primeiro-ministro desde março de 2010.
Azarov, braço direito do presidente Viktor Yanukovitch, garantiu que deixava o cargo para facilitar "um acordo político", mas insistiu que as autoridades fizeram todo o possível para evitar o derramamento de sangue.
Poucas horas depois, Yanukovitch promulgou não só a renúncia do primeiro-ministro, mas a de todo o governo, acusado pela oposição e pelos manifestantes de dar as costas à União Europeia em favor do fortalecimento das relações com a Rússia.
Azarov, que nasceu na Rússia, sempre defendeu a suspensão da assinatura do Acordo de Associação com a União Europeia e a rejeição das condições impostas pelo Fundo Monetário Internacional, por considerar que significariam a ruína para a Ucrânia.
O afastamento da Europa foi o detonador da explosão dos grandes protestos populares em 21 de novembro.
Por enquanto, não se sabe quem assumirá a responsabilidade de governo, já que o líder do principal partido opositor (Batkivschina), Arseni Yatseniuk, rejeitou a possibilidade de dividir o poder com Yanukovitch.
A renúncia de Azarov, que será substituído interinamente pelo vice-premiê Sergei Arbuzov, aconteceu logo antes da sessão extraordinária da Rada Suprema (Congresso) que discutiu a revogação das leis aprovadas em 16 de janeiro, consideradas "ditatoriais" por limitar a liberdade de reunião e associação.
Uma arrasadora maioria de deputados, incluídos quase todos os membros do governista Partido das Regiões, de Yanukovitch, votou a favor da revogação de 9 das 11 leis.
Só os comunistas apoiaram essas leis, cuja aprovação na Rada provocou a explosão de desordens violentas em Kiev, que deixaram seis manifestantes mortos, segundo a oposição — o governo fala em três mortos.
Apesar de tudo, a oposição não se deu por satisfeita e insiste que seu objetivo é "a transformação de todo o sistema de poder e o retorno à Constituição de 2004, na qual os poderes eram divididos entre o presidente, o primeiro-ministro e a Rada Suprema".
"A revogação dessas vergonhosas leis é um pequeno, mas importante passo. Agora, devemos continuar avançando. É necessária uma anistia em toda Ucrânia", afirmou Vitali Klitschko, carismático boxeador e líder da formação UDAR.
Manifestantes presos e culpa do governo
O líder nacionalista da Svoboda, Oleg Tiagnibok, disse que, para a oposição, é preciso que o governo assuma a culpa pela repressão violenta aos protestos. Os opositores acusam em particular o titular do Ministério do Interior, Vitali Zajarchenko.
Não houve acordo na aprovação de uma lei de anistia que deve aplanar o caminho para a libertação de todos os detidos nos protestos contra o governo, embora Yanukovitch garanta que não a promulgará até que os manifestantes desocupem as ruas.
No entanto, os manifestantes continuam fortificando suas posições em todo o centro de Kiev. A impressão é que o quartel de Resistência Nacional não está disposto a determinar que os inquilinos do Euromaidan, a Praça da Independência de Kiev, recolham seus objetos e voltem para suas casas.
A anistia encorajaria alguns a voltar ao trabalho e às universidades, já que muitos manifestantes são procurados pelas autoridades, mas o ânimo entre as barricadas é tão belicoso quanto há uma semana.
Os manifestantes exigem a renúncia de Yanukovitch e muitos deles não pensam abandonar nem a cidadela montada com barracas nem os prédios oficiais tomados, até que sejam convocadas novas eleições presidenciais.
Esse é exatamente o nó da atual crise política na Ucrânia, já que Yanukovitch, que já teve que renunciar à presidência após a Revolução Laranja de 2004, tinha pensado em se candidatar a reeleição.
Se as eleições previstas para 2015 forem antecipadas, a vitória do candidato de oposição, provavelmente Klitschko, está cantada.
Se a resistência continuar, os protestos poderiam radicalizar e se propagar por todo o país, avaliam analistas políticos.
Logo após assinar a renúncia do governo, Yanukovitch recebeu o comissário de Ampliação da UE, Stephan Fülle, que afirmou que o parlamento ucraniano tinha dado o primeiro passo para a saída da crise.









