Internacional

12/3/2013 às 00h30 (Atualizado em 12/3/2013 às 10h39)



Bento 16 ficou em estado de choque após ser eleito papa em 2005

Novo papa vai encontrar uma Igreja Católica com queda no número de sacerdotes e praticantes

Reuters

Por Tom Heneghan

Em 2005, Joseph Ratzinger saiu vitorioso no 2º dia do conclave, após quatro votações: era o início de Bento 16 Montagem: AP/Reuters

Joseph Ratzinger nunca escondeu o fato de que achava que o papado católico romano era muito grande para um homem.

Por vários dias após ser eleito, em 2005, o papa Bento 16 — como ele escolheu ser chamado — falou como se estivesse em estado de choque. Na sua primeira missa pública, ele perguntou: "Eu devo assumir esta tarefa enorme, que realmente excede toda a capacidade humana. Como posso fazer isso?"

Em uma reunião com colegas alemães no dia seguinte, Bento surpreendeu seus simpatizantes ao comparar a experiência de ser eleito na Capela Sistina a uma tontura enquanto observa a queda de uma guilhotina sobre ele.

Agora que ele quebrou seis séculos de tradição e renunciou, a Igreja Católica está se perguntando se em uma era de democracia, de televisão e Twitter o tempo inteiro, o papado modelado na monarquia renascentista está sofrendo o mesmo destino. Houve escândalos de abuso sexual, querelas com muçulmanos e judeus, suspeita de lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano e gafes de comunicação. Pilhas de arquivos privados roubados pelo mordomo do próprio Bento 16 registraram a corrupção e brigas internas entre altas autoridades.

Bento entrega uma instituição de 2.000 anos de idade, cuja reputação está manchada, cujo ensino é desafiado por um mundo cada vez mais secular e cujos sacerdotes têm dificuldades para ministrar a sua crescente população. O homem que lidera a maior igreja do mundo deve ser um guia espiritual para milhões de pessoas, uma inspiração para os oprimidos e o gerente de uma conflituosa burocracia disfuncional do Vaticano.

"Nenhum homem sensato busca o fardo do papado", afirmou o proeminente teólogo católico em Washington, George Weigel.

— É, por definição, impossível, porque pede a um homem para assumir um fardo de liderança que nenhum ser humano pode eventualmente atrair por suas próprias forças.

O desafio para os cardeais que iniciam o conclave nesta terça-feira (12) é aproveitar a chance para enfrentar os problemas e identificar reformas que ajudem o próximo papa a abordá-los. O trabalho de liderar cerca de 1,2 bilhão de católicos em todo o mundo precisa ser feito por um homem.

Thomas Reese, um estudioso jesuíta e autor de Inside the Vatican (Dentro do Vaticano) diz simplesmente: "O que eles estão procurando é Jesus Cristo com um MBA."

O que deu errado

Para chegar à raiz dos problemas da Igreja Católica Apostólica Romana, alguns olham para trás, antes do papado de Bento 16, para 1978, mais precisamente, quando, depois de um período turbulento, o papa João Paulo subiu ao trono de São Pedro para reafirmar a doutrina ortodoxa católica e a autoridade do Vaticano.

O então cardeal Ratzinger era um fiscal doutrinário para um papado vigoroso, que sufocou discussões sobre questões como o papel da mulher na igreja ou questões relativas à sexualidade humana.

Esse problema será destacado pela ausência de um homem no conclave. Na semana passada, o cardeal escocês Keith O'Brien juntou-se à categoria do clero exposta por abuso sexual ao longo das últimas décadas, quando deixou o cargo de arcebispo de Edimburgo. Sacerdotes mais jovens reclamaram que ele havia se comportado de forma inadequada com eles nos anos de 1980. Desde então, ele pediu desculpas por conduta sexual "abaixo dos padrões esperados de mim".

Bento lidou com casos de abuso sexual nos últimos anos do pontificado de João Paulo 2º, e, quando se tornou papa, começou de forma ousada. Ele ordenou que o reverendo Marcial Maciel, fundador da rigorosa ordem Legionários de Cristo — e a favorita de seu antecessor —, se retirasse para um mosteiro em penitência por sua vida secreta como pai de vários filhos, agressor sexual de seminaristas e usuário de drogas.

Ele pediu desculpas pelos escândalos e fez com que reuniões privadas com vítimas de abuso se tornassem parte regular de suas visitas ao exterior.

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Acobertamentos

Mas a sujeira continuava vindo à tona. Quatro relatórios oficiais sobre abuso infantil por padres na Irlanda em quatro anos expuseram detalhes do pecado sacerdotal, e como a hierarquia acobertou-os. Um dos documentos claramente disse que o Vaticano era cúmplice, levando a uma repreensão, outrora impensável, pelo primeiro-ministro Enda Kenny. A embaixada de Dublin na Santa Sé foi fechada no final de 2011 e as relações permanecem tensas.

Entre dezembro de 2009 e abril de 2010, três bispos irlandeses renunciaram e pediram desculpas pelos erros na abordagem de casos de abusos em suas dioceses. Também em 2010, um bispo alemão saiu e se desculpou por abusar fisicamente de crianças. Um bispo belga renunciou após admitir ter molestado seus próprios sobrinhos menores de idade. Um bispo chileno acusado de abusar de um coroinha em 2012 se desligou, dizendo que havia cometido "um ato imprudente", mas que o menino não era menor.

Essa "tolerância zero" nem sempre se aplicava aos bispos que protegiam os predadores em suas dioceses. O cardeal Roger Mahony, de Los Angeles, ficou no cargo por anos, apesar das acusações — mais tarde comprovadas — de que ele protegia clérigos molestadores da polícia. Ele admitiu ter cometido "erros" e disse que tinha sido ingênuo sobre o impacto do abuso.

Nestes casos e em outros, o padrão era que a igreja agia apenas sob pressão, e resistia aos apelos que pediam a punição dos bispos que haviam lidado mal com essas situações. Católicos que veem políticos envergonhados com escândalos sexuais e executivos demitidos por terem lidado mal com eles, questionam por que as autoridades da igreja não devem ser responsabilizadas.

"Aguardamos o dia em que as autoridades da Igreja vão anunciar que este cardeal ou aquele bispo está sendo rebaixado porque... as autoridades da Igreja querem limpar as coisas", disse o diretor da Rede de Sobreviventes de Abuso ​​por Padres, David Clohessy.

Não existem dados centralizados para avaliar o impacto desses abusos sobre as receitas da igreja, mas nos Estados Unidos, um estudo realizado em 2006 pelo Centro de Pesquisa Aplicada no Apostolado da Universidade de Georgetown (Cara, na sigla em inglês), em Washington, mostrou que os católicos tornaram-se menos generosos para suas dioceses depois de 2002, ano em que os escândalos estouraram.

De 2005 a 2011, a igreja arcou com mais de US$ 2,3 bilhões em custos relacionados a acordos de compensação por abuso, afirmou o centro de pesquisas.

Na Alemanha, cerca de 180 mil pessoas deixaram a Igreja Católica em 2010, um salto de 40% sobre o ano anterior, depois de que acusações de abuso sexual explodiram lá naquele ano. A taxa caiu para 127 mil — em torno do nível normal dos que saem por razões financeiras ou outros motivos — no ano seguinte.

Retiro da religião

O abuso não é a única razão pela qual os católicos viraram as costas à igreja. Um recuo mais geral da religião organizada desconcerta líderes que cresceram em sociedades em que a igreja teve profunda influência.

A tendência é mais marcante na Europa, o tradicional centro do catolicismo. Oito anos depois de o cardeal Ratzinger escolher o nome papal de Bento, em homenagem ao santo padroeiro da Europa, vocações, batismos e casamentos em igrejas ainda estão em declínio.

A tendência tem consequências políticas. Governos e os tribunais têm ignorado as objeções da igreja e legalizaram casamentos ou uniões do mesmo sexo, e insistiram para que agências católicas de adoção ajudem casais homossexuais a encontrarem uma criança.

Bispos na Europa e América do Norte começaram a defender os ensinamentos da igreja com mais força contra tais pressões políticas. Nas Filipinas, o único país da Ásia com maioria católica, as tendências seculares chegaram ao ponto de Manila aprovar uma lei de planejamento familiar, apesar da dura oposição da igreja.

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Papel para as mulheres

No subúrbio de Evanston, em Chicago, a advogada Lynne Mapes-Riordan já está se preparando para a mudança, estudando para um papel de liderança que a igreja não permite agora. "Espero que eles abram isso para as mulheres um dia", afirmou a mulher de 50 anos, mãe de dois filhos.

— Eu não tenho nenhum conhecimento especial a respeito de quando isso pode ocorrer.

Este limite para as mulheres está cada vez mais fora de sintonia em um mundo onde elas fazem todo tipo de trabalho, de soldado até CEO, onde a chanceler alemã, Angela Merkel, é a política mais poderosa da Europa e até mesmo alguns países muçulmanos tiveram primeiras-ministras mulheres.

Muitos dizem que a igreja não pode funcionar sem as mulheres, porque elas passam adiante a fé como mães e educadoras de religião. No entanto, no ambiente tradicionalista que Bento promoveu, pequenos avanços, como coroinhas meninas nas missas, estão sendo eliminados. Mesmo as mulheres que não defendem a ordenação feminina — algo que o Vaticano descarta completamente — questionam que lugar a igreja tem para elas e para suas filhas.

Pesquisas nos Estados Unidos mostram que mulheres católicas com menos de 30 anos são agora menos religiosas do que os homens de sua idade: cerca de 45% assistem à missa uma vez por ano ou menos, em comparação com 39% dos homens.

África conservadora

O novo papa também vai estar sob pressão para trazer a liderança da igreja a bons termos com a grande mudança em seu centro de gravidade.

Cerca de 68% da população católica mundial está agora na América Latina, África e Ásia, mas isso não se reflete no Vaticano. A Europa ainda terá 61 cardeais, dentre os 115 eleitores no conclave, enquanto o mundo em desenvolvimento terá apenas 39 — cerca de 34% do total.

Estes católicos do "sul do Globo" estão longe de ser um bloco. Cada região tem seu próprio foco, e balancear diferentes prioridades regionais requer a habilidade de um diplomata experiente.

A África subsaariana foi de longe a região com crescimento mais rápido da fé ao longo do século passado, subindo para 16% da população católica mundial em 2010, de apenas 1%, em 1910. E os católicos africanos são muito mais conservadores do que os "inclusivos" católicos do norte.

"A África defende fortemente as crenças católicas", disse o reverendo Isaac Achi, cuja igreja localizada perto da capital nigeriana Abuja perdeu 44 paroquianos quando um extremista islâmico do grupo Boko Haram lançou um carro carregado de explosivos contra sua igreja no dia do Natal, em 2011.

— Nós lutamos contra o aborto, nós lutamos contra homossexuais, lésbicas e métodos de contracepção.

Protestantes práticos

A pobreza assombra muitas congregações da América Latina, também, mas os principais desafios da igreja na região são as profundas incursões feitas por igrejas evangélicas e pentecostais no que já foi um bastião católico. Essas igrejas protestantes oferecem serviços religiosos mais animados, ajudam na prática os pobres e passam uma mensagem otimista mais sintonizada com economias em crescimento do continente do que o sacrifício que os católicos são ensinados a suportar.

O número de pessoas abandonando a Igreja Católica é dramático. No Brasil, o maior país católico do mundo, pouco mais de 65% da população é católica agora, uma queda acentuada dos 92% registrados em 1970.

Miriam Vargas Nunes, de 35 anos, mãe de dois filhos que vive em Niterói, perto do Rio de Janeiro, deixou a igreja uma década atrás, depois de visitar uma igreja batista com os amigos. "Senti-me mais acolhida como nunca me senti em uma missa católica", disse ela. Na Argentina, Claudia Valenzuela, 26, uniu-se a um grupo de estudo evangélico da Bíblia há dois meses, depois de perder seu emprego e não encontrar ninguém em sua Igreja Católica para consolá-la.

Grande parte dessa mudança veio com a migração de trabalhadores rurais para as grandes cidades, e a movimentação também se mostra entre as comunidades latinas dos EUA. Uma pesquisa do Gallup, no ano passado, registrou 54% de católicos e este número em queda, e os protestantes em 28%. O número de latinos sem religião subiu de 11% em 2008 para 15% em 2012.

Falta de sacerdotes

Há também uma crescente escassez cada vez mais urgente de sacerdotes, particularmente nos países ocidentais; há tantos que estão perto ou além da idade de aposentadoria, que a igreja enfrenta um "abismo eclesiástico". O catolicismo é centrado em sacramentos, especialmente a eucaristia na missa, que apenas homens ordenados podem administrar. Sem sacerdotes, as igrejas locais ou paróquias não podem operar.

Nos Estados Unidos, por exemplo, havia 58.632 sacerdotes em 1965 e apenas 38.964 no ano passado.

A Irlanda, que já foi um grande exportador de sacerdotes, viu apenas seis ordenações, enquanto 55 sacerdotes morreram em 2010. A Polônia foi o único país europeu com números positivos, mostrando 516 ordenações e 285 mortes. Mesmo lá, no entanto, as mortes estão acelerando enquanto as ordenações, diminuindo. Mesmo na África, um boom de novos sacerdotes não está acompanhando o crescimento da população católica.

Isto significa uma carga de trabalho crescente. Sacerdotes, muitas vezes, têm de servir mais de uma paróquia para compensar colegas ausentes. Paróquias estão sendo reagrupadas em unidades maiores para compartilhar pessoal. Na América Latina, onde há apenas um sacerdote para mais de 7.000 católicos, em comparação com 1 para cada 1.500 na Europa, a escassez é citada como uma das razões pelas quais muitos acharam movimentos evangélicos mais acolhedores.

Curando a cúria

Dentro do Vaticano, o novo papa terá que enfrentar a cúria, uma burocracia de séculos dominada por clérigos italianos, que pode criar ou arruinar um papado, pois pode bloquear ou atrasar projetos papais.

A maioria dos cardeais que traçam suas prioridades para o futuro coloca "governança" ou "reforma da cúria" no topo de sua lista, dizendo que outras reformas podem fluir a partir daí.

O escândalo do Vatileaks no ano passado mostrou corrupção e rixas internas a níveis elevados, e a cúria não é conhecida pela eficiência de sua hierarquia. No Vaticano, que gerou o termo moderno "nepotismo", pois os papas do Renascimento davam empregos para seus sobrinhos não qualificados ("nipote" em italiano), a contratação não é sempre no mérito.

A influência da cúria dentro da igreja é surpreendente, porque tem apenas cerca de 2.000 funcionários, e eles costumam sair do trabalho no início da tarde. Não há reuniões de gabinete, e a coordenação interna entre os departamentos — atribuída com tarefas como defesa da doutrina católica, nomear novos santos, ou promover a unidade dos cristãos — são irregulares.

Weigel, dos Estados Unidos, citou uma série de reformas que o papa que for escolhido poderia fazer, incluindo a introdução de uma semana de trabalho de 40 horas, transformando a equipe de um feudo italiano em um time verdadeiramente internacional, e criar uma equipe executiva para o pontífice. Mas nenhuma reforma estrutural vai funcionar, afirmou, se a equipe só tiver a mentalidade de um gerente, em vez de se enxergar como missionários que trabalham para o papa.

"A cúria ainda está profundamente influenciada por hábitos de trabalho italianos, e isso é problemático", disse.

— Se você olhar para o resto desta sociedade, isso não parece estar funcionando muito bem.

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(Reportagem adicional de Philip Pullella, em Roma, Ed Stoddard, em Johanesburgo, Elias Biryabarema, em Luwero, Joe Brock, em Abuja, Noah Browning, em Nablus, Padraic Halpin, em Dublin, Christian Lowe, em Varsóvia, Paulo Prada, no Rio de Janeiro, Hilary Burke, em Buenos Aires, e Mary Wisniewski, em Chicago)

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