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Empresária denuncia violência na Venezuela: “Estudantes são atacados até dentro das salas de aula”

Carta foi enviada na véspera da reunião dos governos sul-americanos sobre a crise

Internacional|Do R7

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Funcionários da saúde enfrentaram tropa de choque na última segunda-feira
Funcionários da saúde enfrentaram tropa de choque na última segunda-feira

A crise na Venezuela é tema da reunião da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) que acontece nesta quarta-feira (12), em Santiago do Chile. Enquanto a oposição e o governo de Nicolás Maduro não chega a um consenso, o país continua em crise.

Para mostrar a situação dramática pela qual passa o país, o R7 publica a carta de uma empresária venezuelana, em que ela desabafa sobre os problemas do país. Com medo de represália, a empresária pediu que sua identidade fosse mantida no anonimato.


A seguir, a carta enviada à Redação do R7:

“Sou uma mulher de 43 anos, estudei numa escola pública até 1987 e me formei na faculdade em 1992. Fiz uma pós numa instituição de renome. Pertenço a uma família típica venezuelana e tudo o que tenho (um apartamento, um carro e a possibilidade de dar educação as minhas filhas) é fruto do meu trabalho. Sou mãe de duas jovens (uma na faculdade, outra em ensino médio) e vivo angustiada pela situação que vivemos na Venezuela e pelo futuro negro em que não vejo saída. Sou uma pequena empresária do setor gráfico, de classe média, e, portanto, muito longe de merecer os adjetivos que o governo dá a quem pensa diferente, como: “oligarca”, “imperialista”, “apátrida”,” golpista” e “ fascista”.


A revolta dos venezuelanos começou com a insegurança que sofremos diariamente, não só nas cidades mais populosas e importantes do país, mas pelo contrário, em todo o território nacional. Os indicadores nesta área nos colocam numa posição lamentável. Todos neste país já fomos vítimas de atos criminosos pelo menos uma vez ou tivemos algum parente ou pessoa próxima que foi vítima do crime. Não me refiro ao roubo de uma bolsa, normal nas cidades grandes, mas de episódios muito mais graves, como sequestro ou ameaça com armas de fogo em troca de um simples telefone celular. Não é segredo para o povo que muitos destes crimes são realizados por autoridades envolvidas na segurança da nação.

Não estou exagerando. Minha própria família já foi vítima. A minha filha universitária, utilizando o transporte público, teve uma arma apontada à cabeça para que entregasse o telefone celular quando chegava à faculdade, às sete da manhã. Tenho dois irmãos que foram vítimas de sequestro relâmpago, quando saíam do trabalho, em plena luz do dia, às quatro da tarde. Motoqueiros já tentaram bater no meu carro para me assaltar. Tive sorte porque outras pessoas perceberam a situação e buzinaram, me alertando de que se tratava de uma emboscada. Aqui na Venezuela não é mais possível sair à noite. Vocês podem pensar: 'isso também acontece no Brasil'... mas será que acontece com todo o seu círculo familiar e os seus amigos?


Isso já virou cotidiano até nas faculdades. Os estudantes não escapam nem mesmo dentro das salas de aula. São sequestrados nos estacionamentos das instituições e sofrem arrastões inclusive durante as aulas, dentro das salas, sem que ninguém se importe se é uma universidade pública ou privada. Quando uma jovem estudante sofreu uma tentativa de estupro dentro da Universidade de Los Andes (San Cristobal, Estado Tachira) e os estudantes solicitaram ao governador do estado, numa manifestação pacífica, que o Estado fizesse algo, ouviu que a segurança é responsabilidade da Universidade. Esta passeata acabou com a prisão dos líderes dos estudantes da ULA, que foram retirados de suas casas e enviados a prisões com criminosos comuns e perigosos, sem acesso aos seus pais e advogados. Esses eventos desencadearam uma série de protestos em apoio aos estudantes de diferentes movimentos de universidades em todo o país.

Em vez de atender o que a população pedia — mais segurança —, o governo tomou medidas como retirar do ar e cortar o sinal do único meio de comunicação internacional que transmitia a nossa realidade ao vivo: NTN24, que só podia ser assistido na TV a cabo. Os canais de TV aberta, sob o controle total do estado, foram ainda mais censurados e minimizaram os fatos, transmitindo na hora programas de entretenimento. A onda de protestos só aumenta graças à brutal repressão, a negação dos fatos por parte das autoridades nacionais, a constante atuação dos grupos armados e coletivos, o ataque contra a sociedade civil desarmada, as torturas aos detidos, os isolamentos, os mortos e feridos. Tudo isto mostra que na Venezuela não há democracia. Além disto, o governo se mostra indolente ao não enviar sequer um representante aos enterros dos falecidos nem condolências aos familiares. Muito pelo contrário, faz acusações infundadas e falsas que injuriam as vítimas.


Os protestos já não obedecem a um clamor político, nem de cores, nem de ideologia. Buscam liberdade, oportunidades e um país melhor para todos. O governo unicamente oferece um discurso evasivo das suas responsabilidades (econômicas, sociais e civis) e que acaba em farsa quando diz que sofre ameaça de golpe de estado, o que ninguém acredita. Queremos corrigir o país, queremos ser escutados. Queremos apenas os direitos mais básicos, como o direito à vida.

Quando sofremos com a escassez de alimentos, o próprio presidente apresenta como solução um pedido ao povo para diminuir o consumo. Pedimos uma melhor administração dos serviços públicos para evitar o corte constante de água e luz. Pedimos um sistema educacional melhor, mas não é do interesse do governo educar o povo para que possa chegar à classe média. Pedimos o fim da corrupção no sistema financeiro, a fuga de divisas e talentos, a entrega de recursos a países como Cuba, Bolívia, Nicarágua, Ilhas do Caribe, Equador e Argentina. Pedimos para não sermos tratados como idiotas, como aconteceu durante a doença de Chávez, que a cada dia tinha uma versão diferente. Pedimos para que a resposta aos questionamentos sobre infiltrados cubanos nas Forças Armadas Venezuelanas não seja um simples: “Não acredito...” e que seja formalmente realizada uma investigação. Queremos a verdade em relação a uma denúncia de um estudante que afirma ter sido violado por um fuzil. Não é apenas uma luta da oposição contra o Chavismo, trata-se de uma luta contra um regime ditatorial que abusa do poder. A única via que resta à população venezuelana é elevar sua voz, fechar ruas e avenidas em protesto pelas repressões, publicar o que acontece nas redes sociais e resistir. Resistir até que seja possível.”

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