Logo R7.com
RecordPlus

Na Índia, modernidade deixa os camelos para trás

Mercado de venda destes animais está em baixa, abalando uma tradição centenária

Internacional|Do R7

  • Google News
Dono de camelos participa da feira no dia 10 de novembro, na cidade de Pushkar. Neste ano espera-se que sejam vendidos mais de 4.700 camelos, em comparação aos 8 mil de 2011, segundo o consultório veterinário local
Dono de camelos participa da feira no dia 10 de novembro, na cidade de Pushkar. Neste ano espera-se que sejam vendidos mais de 4.700 camelos, em comparação aos 8 mil de 2011, segundo o consultório veterinário local

Milhares de camelos se espalham pelos arredores da cidade indiana de Pushkar para serem vendidos em uma das maiores feiras do setor no mundo, mas a cada ano o número de animais diminui, deslocados pela modernidade.

Uma pequena colina serve de acampamento aos comerciantes de camelos de todo o estado do Rajastão, no norte da Índia: os animais pastam entre barracas, enquanto os homens vestindo turbantes coloridos os preparam para a venda.


"Agora há mais tratores e máquinas, por isso nosso negócio está indo abaixo. Cada vez há menos camelos. Agora são sacrificados para vender a carne", explicou à agência Efe Om Prakash, de 60 anos, que passou 12 anos visitando a feira para fazer negócios.

A Feira de Camelos de Pushkar, realizada entre 10 e 17 de novembro, é na verdade uma feira de dromedários, mas ninguém a chama assim. Prakash chegou a Pushkar, pequena cidade do Rajastão em torno de um lago sagrado, com cinco camelos vindo de Ganganagar, uma viagem de quatro dias pelo deserto, acompanhado de sua família.


Prakash é filho e neto de comerciantes de camelos e espera que seus descendentes se dediquem ao mesmo serviço.

— Há cinco ou seis anos havia tanta gente nessa feira que não era possível nem ficar de pé.


Na Índia os camelos são tradicionalmente utilizados para trabalhar na agricultura e como meio de transporte, mas a chegada da modernidade em forma de tratores e caminhões está deslocando esses animais. De acordo com o último levantamento feito pelo Ministério da Agricultura, mais de 1 milhão de camelos percorriam o país asiático em 1982, mas três décadas de desenvolvimento econômico reduziram esse número para 500 mil em 2007, 80% deles no Rajastão, A Feira de Camelos de Pushkar sofreu as consequências desse processo: neste ano espera-se que sejam vendidos mais de 4.700 camelos, em comparação aos 8 mil de 2011, segundo o consultório veterinário da cidade.

A situação chegou a um ponto em que agora se vendem camelas, antes um tabu, já que as fêmeas garantiam a sobrevivência de uma manada com seus filhotes: atualmente inclusive são vendidas para serem sacrificadas pela carne.


Prakash lamenta a matança das camelas, que dão à luz apenas uma vez por ano, diminuindo o número desses animais

— A carne é exportada para outros estados da Índia e até mesmo para o Nepal. Para eles, é como frango.

O comerciante Mahendra Singh, que passou uma década no ramo e trouxe cinco camelos para a feira, expressou uma opinião semelhante.

— Cada vez há menos compradores e precisamos vender mais barato.

Os camelos jovens, de 4 e 5 anos, são os vendidos por um preço mais alto, entre 40 e 60 mil rúpias (cerca de R$ 1.429 e R$ 2.155), enquanto os animais mais velhos valem a metade. O comércio de camelos consiste em comprar os animais de um ano — até essa idade devem estar com a mãe — por cerca de 10 mil rúpias (R$ 340), criá-los por dois ou três anos e depois vendê-los por um preço maior.

Mas se o mercado dos camelos está em baixa, o turismo gerado pela presença dos quadrúpedes segue o caminho contrário. Pushkar, popular destino de "mochileiros" durante todo o ano, recebe milhares de turistas durante a feira. Atraídos pelo exotismo do evento, pelos passeios de camelo e pelo bazar cheio de colares e produtos de couro, o número de turistas estrangeiros "armados" com suas câmeras fotográficas provavelmente supera o de camelos.

Além disso, um festival dedicado ao deus Brahma — Pushkar acolhe o primeiro templo dedicado à divinidade — atrai por sua vez milhares de indianos à cidade. Enquanto os peregrinos rezam e os turistas fazem compras, o comerciante de camelos Umeda Ram, de 60 anos, é pessimista.

— Trouxe cinco camelos, talvez eu venda todos, ou só dois. Mas talvez eu tenha que levar os cinco para casa.

O que acontece no mundo passa por aqui

Moda, esportes, política, TV: as notícias mais quentes do dia

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.