“Ex-salvador da pátria”, Beltrame tenta salvar própria imagem durante turbulência das UPPs
O secretário ainda não se manifestou sobre se irá continuar na Segurança do RJ após eleições
Rio de Janeiro|Bruno Rousso e Pedro Neville, do R7

Gaúcho de Santa Maria, José Mariano Beltrame, de 56 anos, ganhou fama no Rio de Janeiro. Em 2007, início do mandato como secretário de Segurança, surgiu como “salvador de pátria” e cabeça pensante do protejo das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro. A era da pacificação prometia favelas sem tráfico de drogas e a tão exaltada “retomada de território”. Os primeiros passos deixaram ótima impressão. De fato, territórios foram recuperados das mãos do crime e os dados atuaram boa parte do tempo a favor. Menos assaltos, menos homicídios e mais paz nas favelas. Só que a roda gigante mudou o sentido.
Bandidos migraram para Niterói e, hoje, distribuem terror pela cidade que era chamada de Sorriso. Nas comunidades cariocas, mesmo com reforço das Forças Armadas, traficantes reagem. Policiais são atacados toda semana e não negam: cada ronda é cercada de muito medo.
Se antes Beltrame gozava de prestígio nacional, com ideias que serviam de modelo, agora, o secretário procura saídas para o contra-ataque cada vez mais agressivo dos criminosos. Para José Vicente Filho, ex-secretário nacional de Segurança, Beltrame precisa cobrar maior presença da Polícia Civil nas comunidades pacificadas.
— O Beltrame faz um trabalho muito corajoso no Rio, mas faltou uma estratégia global de segurança. O que se fez foi saturar de PMs as comunidades pacificadas, enquanto outras áreas ficaram com poucos. Era óbvio que os traficantes iriam para lá, para Niterói e para Baixada Fluminense. Eles não iriam procurar emprego nos classificados, porque o tráfico é o negócio mais rentável que há. Faltou estratégia de inteligência para identificar os grupos, como funciona a recepção das drogas, dos armamentos. As três facções do Rio continuam com 2.000 fuzis e não se desenhou um cenário para o retorno deles às favelas. É a Polícia Civil que faz isso e precisa estar mais ativa nas favelas.
Até o fim de 2013, quando a política das UPPs parecia menos vulnerável, Beltrame era disputado por partidos. Apesar da pressão, o secretário dizia que não tinha planos para a carreira política, por questões pessoais. Lindbergh (PT) chegou a afirmar que, se eleito fosse para o governo do Rio, manteria Beltrame na Secretaria de Segurança. Já Pezão (PMDB), candidato da situação, via o gaúcho como vice perfeito. Agora, o secretário não só não irá concorrer, como ainda não se posicionou sobre se continuará tentando domar a arredia segurança pública do Rio, depois de oito anos.
José Vicente Filho entende que, de todos os ex-delegados que assumiram importantes secretarias de Segurança no Brasil, Beltrame, que era delegado federal, foi um dos únicos que se destacou positivamente.
— Os delegados foram um fracasso de uma maneira geral. Ele foi uma exceção. Soube dominar as duas polícias. Deu um passo muito grande. Precisa agora dar valor a Niterói e à Baixada Fluminense. A UPP Social não acompanhou a entrada da PM nas comunidades, como ele mesmo já reclamou. Mas o auge pessoal e político do Beltrame já passou. A sucessão de más notícias rói a reputação de qualquer um. Dele, do Cabral. A opinião pública é imediatista e ingrata. Há um ano atrás, a imagem era bem melhor.
Já João Trajano, cientista político do Laboratório de Análise da Violência da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), torce para que Beltrame não ceda à pressão para enveredar pela carreira política, pois enxerga no gaúcho um forte candidato a ocupar cargos importantes na segurança pública nacional.
— Ele ficou muito vinculado a essa política específica das UPPs. O momento não é favorável. A imagem dele sofre, mas não está totalmente comprometida. Ele sempre soube dialogar com a mídia, teve posicionamentos firmes nas cobranças por respostas em possíveis violações de PMs. A atitude foi muito positiva. Discordo que as UPPs estejam comprometidas. O projeto não pode ser jogado no lixo. Eu gostaria muito que o Beltrame não partisse para a política eleitoral, porque o que qualifica ele não é seu desempenho como liderança. Ele é um técnico especializado em segurança pública e com ideias interessantes para a área. Queria vê-lo à frente da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública). Acho que ele não tem perfil para a política e não teria um fôlego muito longo para isso.
O R7 procurou José Mariano Beltrame para comentar a reportagem, mas a Secretaria Estadual de Segurança informou que o secretário está em viagem no exterior.















