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Rio abriga só 40% da população de rua em albergues

Secretaria diz que vai criar mais 800 vagas em albergues até 2016

Rio de Janeiro|Rodrigo Teixeira, do R7

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A cidade do Rio tem cerca de 5.719 pessoas em situação de rua
, segundo pesquisa
A cidade do Rio tem cerca de 5.719 pessoas em situação de rua , segundo pesquisa

Cerca de 5.700 pessoas fazem das ruas da cidade do Rio de Janeiro o seu lar e na política municipal de acolhimento uma conta não fecha: as atuais 2.301 vagas em albergues acolhem menos da metade da população de rua da capital (40%).

O vice-prefeito e secretário municipal de Desenvolvimento Social, Adilson Pires, disse ao R7 que a criação de mais 800 vagas no sistema de albergues deve ajudar a regularizar o sistema de acolhimento.


— Até 2016 vamos criar mais 800 vagas no nosso sistema de acolhimento municipal. O déficit existe, mas temos que entender que atender essa população envolve uma complexidade bem específica e, para isso, desenvolvemos um plano de nove meses para reinserir na sociedade esse morador em situação de rua.

A busca por abrigo é tarefa árdua e diária de grupos que perambulam por cartões-postais da cidade, como a Lapa e o centro histórico da cidade. A reportagem também identificou certa resistência aos albergues por parte de moradores de rua, apesar de o secretário negar que hajam vagas ociosas no sistema.


Mãe de dois filhos que hoje estão sob os cuidados da avó, Glória Belizário, de 26 anos, que saiu de casa após uma briga de família, diz que prefere a liberdade das ruas a ter de ficar num albergue.

— Hoje eu estou na rua, porque eu não tenho outra escolha. Abrigo não é vida, você lá é mandado, tem hora para tudo. Eu prefiro a liberdade da rua ou uma casa para mim que ainda não tenho. 


Segundo levantamento realizado em 2013 pela Prefeitura do Rio em parceira com IETS (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), os principais motivos que levam as pessoas às ruas são drogas, problemas de convivência com a família e desemprego.

É o que relata Ubiratan Silva, de 40 anos, que mora nas ruas há três décadas. A desestruturação familiar — Ubiratan perdeu a mãe aos oito anos e nem sequer conheceu o pai — acabou por levá-lo às ruas do centro do Rio.


— Minha mãe faleceu por causa de bebida. Hoje, eu sou alcoólatra. Bebo compulsivamente. Prefiro ficar sóbrio e não beber nada porque, se eu começar com um gole, não consigo parar. Eu já saí da rua e voltei de novo nesses 30 anos. Eu já tive casa, mas, quando fiquei desempregado, voltei para a rua de novo.

Outra questão apontada pelo secretário é a migração de populações de outros Estados.

— Outra questão do nosso trabalho de acolhimento envolve também os que deixam seus Estados atrás de oportunidades e, quando não conseguem, nada acabam na rua.

Segundo a pesquisa de 2013, entre a população de rua do Rio predominam homens (81,8%), com idade entre 25 a 59 anos (69,6%) que concluíram o ensino fundamental (75,11%). O levantamento mostra ainda que 64,3 % sequer tem a carteira de identidade.

Há dois anos nas ruas, Glória diz que encontrou a paz em um novo amor: "Aqui todo mundo se respeita e meu namorado me defende de tudo e todos aqui. Tenho segurança ao lado dele"
Há dois anos nas ruas, Glória diz que encontrou a paz em um novo amor: "Aqui todo mundo se respeita e meu namorado me defende de tudo e todos aqui. Tenho segurança ao lado dele"

— Com esses dados que levantamos em 2013 conseguimos traçar um perfil mais detalhado dessa população. Em 2014, tabulamos isso e começamos as licitações para dar suporte para esse cidadão. Tudo é um processo. Temos que cumprir todas as exigências e fazer licitações dentro da lei para atender essa demanda e, por isso, o prazo até 2016 para termos essas novas vagas e poder de fato fazer essa reinserção.

O caminho para a reinserção social é longo. Ubiratan diz que sonha com casa própria e um trabalho. Fala que "se morasse num albergue bom conseguiria até trabalhar". Mas, sua realidade hoje é poder escolher entre dormir na rua ou ir para um abrigo.

— Uma das poucas liberdades é a nossa escolha, nosso poder de escolha de ficar na rua ou ir para um abrigo, entendeu? Eu queria entrar em um shopping ou em um cinema e não ver as pessoas me olhando com medo ou superioridade.

Outra medida apontada pela prefeitura para controlar o problema dos moradores em situação de rua é a construção de "Centros Pop", onde o morador de rua poderá, entre outras coisas, comer e tomar banho.

— Estamos revitalizando um de nossos abrigos no centro do Rio para que ele se transforme em um Centro Pop e possa atender 200 pessoas diariamente. Lá, o morador vai ficar das 7h às 19h e receber todo atendimento necessário e cursos de capacitação. E, durante a noite, ele poderá ser encaminhado para um hotel conveniado à secretaria ou abrigo.

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