Ciclovia em Higienópolis é apagada após pressão de comerciantes

Dono de padaria afirma que clientes precisam de espaço para estacionar seus carros 

Diretor da Ciclocidade criticou a alteração
Diretor da Ciclocidade criticou a alteração Marco Ambrosio/Estadão Conteúdo

O trecho da ciclovia que passa pela da Praça Vilaboim, em Higienópolis, região central da capital paulista, está sendo apagado após pressão de comerciantes. Uma grossa tinta cinza começou a cobrir, na noite desta quarta-feira (12), a faixa exclusiva para as bikes, que é vermelha, diante de uma série de estabelecimentos comerciais, a maioria do setor gastronômico.

Ciclistas criticam a alteração e afirmam que a medida prioriza os carros em detrimento das magrelas. Cerca de 60 metros da ciclovia, que passa pelo local desde o início de setembro, já foram removidos. Com isso, ciclistas que vêm pedalando da rua Armando Penteado de repente ficam sem sinalização própria, entrando no meio do trânsito motorizado.

De acordo com a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), a ciclovia será remanejada para a rua Aracaju, ao lado da praça. Depois disso, prosseguirá pelo caminho já existente, na rua Piauí. A previsão é que a atual ciclovia seja totalmente apagada até o fim de semana. O prazo para a construção do novo trecho é o mesmo.

Proprietário da padaria Barcelona, na esquina das ruas Armando Penteado e Alagoas, Vicente Safon, de 65 anos, é um dos envolvidos no processo que levou à desmontagem da ciclovia.

— Fizemos até um abaixo assinado contra. Só aqui, juntei mais de 500 assinaturas. O trânsito em São Paulo é cada vez mais caótico e as ciclovias têm que ser planejadas direito, o que faltou aqui. Tem um comércio ao lado do outro e os carros precisam parar na frente. Ficou uma confusão danada.

Sobre a alteração prevista pela CET, de colocar a ciclovia no lado oposto da Praça Vilaboim, Safon diz não saber avaliar o impacto.

— Não sei se não vão trocar seis por meia dúzia.

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Ele afirma não ser contra ciclovias, mas, na sua visão, elas devem ficar em vias menos movimentadas e "sem passar na frente de escolas e hospitais".

O diretor de planejamento da ONG Ciclocidade, Daniel Guth, critica a alteração.

— Se essa intervenção representar uma volta maior para o ciclista é um problema e nenhum ciclista vai respeitar.

Segundo ele, a prefeitura abriu uma brecha prejudicial aos ciclistas em seu plano de expansão de ciclovias.

— Eles subjugaram o que é interesse dos ciclistas.

Para Guth, "é normal" que a CET faça ajustes em suas ciclovias, corrigindo erros e melhorando alguns trechos.

— Mas, nesse caso, não se trata disso. Trata-se de obviamente de colocar o ciclista novamente atrás do interesse dos carros.

Ele questiona o motivo pelo qual a prefeitura não decidiu mudar os valets dos estabelecimentos da Vilaboim, em vez da ciclovia.

— Por que o carro tem que ser um veículo porta a porta? Por que o valet não pode ficar do outro lado da praça? Qual é a dificuldade de o cara que vem de carro ao restaurante andar 50 metros de onde parou o carro?