Cultura Hip-Hop deve ser ensinada nas universidades, afirma grafiteiro autor de livro
Para Kaseone, ensino vai possibilitar um maior acesso às ferramentas políticas pelos artistas
São Paulo|Do R7*

Ver a cultura hip-hip como tema de estudo nas universidades brasileiras é o sonho do grafiteiro Fábio Mota, o Kaseone, autor do livro “Hip-Hop Cultura de Rua – Eixo 1”, que será lançado no próximo final de semana em São Paulo.
Kaseone faz parte da primeira geração do hip-hop nacional e é membro da Nação Zulu — grupo de break fundado em São Paulo na década de 1980. Em 2011, ele lançou o seu primeiro livro “Hip-Hop Cultura de Rua”, em parceria com seu amigo Raul Dias, sobre o surgimento dos grupos de break em São Paulo e o início do hip-hop no Brasil.
Já o novo livro foi escrito em parceria com Ruberval Oliveira, o Mc Who?, e financiado com recursos do programa VAI, projeto de incentivo à cultura da prefeitura de São Paulo.
Desta vez, o grafiteiro aborda os desafios e obstáculos envolvidos na construção da cultura de rua no Brasil, não só no eixo Rio - São Paulo, mas também nas cidades de Brasília, Belo Horizonte e Goiânia.
O livro foi produzido com base em depoimentos de protagonistas da primeira geração do hip-hop de cada uma das cidades pesquisadas, como a MC Sharylaine, da zona leste de São Paulo, o DJ Jamaika, de Brasília, e o grupo Código 13, além de fotografias cedidas por coletivos e documentos históricos.
O lançamento da obra acontece no próximo sábado (30) na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, e vai contar com uma ampla programação cultural, que vai desde apresentações de Spoken Word — poesias rimadas semelhantes à poesia marginal — com o rapper Marcello Gugu e o produtor cultural Banks até uma exposição de boomboxes — os rádios enormes populares nos anos 80 —, além de um pocket show com o grupo Monarckas.
Para Kaseone, a obra tem como objetivo principal fornecer um material de qualidade para futuras pesquisas, e até mesmo servir de fonte para trabalhos acadêmicos. Com uma primeira tiragem de mil exemplares — que será comercializada nos eventos de lançamento da obra nas cidades pesquisadas, além de através do site hiphopculturaderua.com.br — o autor conta que já está em negociação uma segunda fornada do livro, com mais 2 mil unidades e traduzido também para o inglês, e que irá circular por universidades, tanto brasileiras quanto norte-americanas, e ONGs.
Ferramenta de acesso
Kaseone acredita que a cultura hip-hop vivencia hoje um período de “abertura” de negociação com o poder público. Ainda assim, ele diz haver um desconhecimento grande a respeito do assunto, que faz com que os governos tenham dificuldade ao dialogar com artistas e comunidades.
Para Kaseone, essa questão pode ser amenizada por meio de estudos mais profundos do hip-hop.
— Estamos construindo uma cultura há 30 anos. Não adianta o poder público querer dialogar com a gente se ele não tiver noção do que é o hip-hop. Ele tem que entrar na grade escolar, nos estudos, para que possamos construir um diálogo e ter acesso às ferramentas políticas para realizar nossas ações.
Para atingir esse objetivo, o autor acredita que devem ser criados cursos de estudo do hip-hop nas universidades — o que já existe em pelo menos 23 escolas norte-americanas.

— Precisamos instruir todo um campo profissional que existe e não sabe de nada — desde DJs até pesquisadores e historiadores. As pessoas brincam com uma cultura, enquanto muita gente faz dela um mecanismo de trabalho e de atuação social. Estamos falando de famílias, filhos, netos, de gerações. Temos de preparar melhor esses profissionais.
Um dos exemplos de profissionalismo no hip-hop citados pelo autor é o Laboratório Fantasma, empreendimento criado pelo rapper Emicida, e que hoje atua como selo musical — reunindo um grande leque de artistas —marca de roupas, produtora musical e de eventos.
A empresa existe há sete anos e tem no casting artistas como Rael, Evandro Fióti, Kamau, o próprio Emicida, entre outros.
Ele lembra também do trabalho dos grafiteiros OsGêmeos, que, segundo Kase, estão entre os maiores responsáveis pela gradativa aceitação do estilo nos meios mais conservadores.
— Hoje, o grafite entra dentro da casa das pessoas de uma forma elegante, porque tiveram diversos artistas que foram para segmentos diferentes e levaram o Hip-Hop junto para lá.
*Por Luis Jourdain, colaborou Juca Guimarães
Serviço:
Lançamento do livro Hip-Hop Cultura de Rua - Eixo 1
Data: Sábado, 30/4
Horário: Das 18h às 23h
Local: Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94 — Consolação — São Paulo)
Preço do livro: R$ 60
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