Logo R7.com
RecordPlus

"Eles estavam desarmados", diz coronel Erasmo Dias sobre caso Rota 66

Morte de três jovens durante ação desastrada da polícia em bairro nobre de SP faz 40 anos

São Paulo|Do R7

  • Google News
"O Rota 66 foi o primeiro episódio drástico que enfrentei", afirma Dias, morto em 2010
"O Rota 66 foi o primeiro episódio drástico que enfrentei", afirma Dias, morto em 2010

Uma investigação fraudada. Jovens desarmados foram perseguidos, metralhados e mortos porque acabaram confundidos com bandidos perigosos. Ao perceber o erro, os homens das Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) "enrustiram" maconha e armas no Fusca dirigido pelos três rapazes. Quarenta anos depois, é a voz do homem que comandava a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o coronel Antônio Erasmo Dias, que conta essa história e dá um testemunho inédito sobre um dos mais famosos episódios de violência policial: o caso Rota 66.

Símbolo de um tempo — os anos do regime militar —, Erasmo Dias esteve à frente da secretaria de 1974 a 1977. Mandava prender e soltar. Impulsivo e explosivo, desde que lhe parecesse justo, acobertava seus subordinados civis e militares. Dava prêmios a policiais que caçavam e matavam bandidos. Reformou a Segurança Pública paulista, criando uma estrutura até hoje existente. Alto, magro e de olhos azuis, quem o conheceu nos anos 1970 diz ser difícil imaginar o quanto ele foi de fato poderoso.


Erasmo chegou ao gabinete, na Câmara Municipal de São Paulo, às 9h. Era julho de 2004. Em poucos meses terminaria seu último mandato parlamentar. O homem cumprimentou um assessor, apanhou papéis e sentou na cadeira de couro do gabinete. A conversa ia durar quase duas horas. Tudo terminado, fez um pedido depois de o gravador ser desligado: que a entrevista fosse publicada somente depois de ele morrer — o que aconteceria em 4 de janeiro de 2010.

Sentia-se, década após década, perseguido pelo protesto dos estudantes da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) que, em 1987, mandaram-lhe balas e uma coroa de flores no 10.º aniversário de sua ação mais controversa à frente da secretaria: a invasão do câmpus Monte Alegre da universidade, em 22 de setembro de 1977. A ação pretendia impedir um encontro nacional, que buscava reorganizar o movimento estudantil no País — a UNE (União Nacional dos Estudantes), posta na ilegalidade pelo regime em 1964.


A memória de Erasmo o levou ao dia em que os três jovens — Francisco Nogueira Noronha, José Augusto Diniz Junqueira e Carlos Ignácio Rodrigues Medeiros — foram mortos nos Jardins. "O Rota 66 foi o primeiro episódio drástico que eu enfrentei."

Conta pra mim


Naquele 23 de abril de 1975, quando Erasmo chegou ao 15.º Distrito Policial, nos Jardins, a guarnição 66 da Rota havia acabado de estacionar. O secretário foi para a sala do delegado de plantão. Em cima da mesa, estavam as armas dos cinco PMs — duas submetralhadoras calibre 9 mm e cinco revólveres calibre 38.

Três dos cinco PMs da Rota 66 estavam ali. "Conta pra mim o que houve", disse o secretário aos policiais. O relato que se seguiu é o conhecido: os rapazes fugiram, a perseguição se estendeu por diversas ruas. Os policiais, dependurados na janela da Veraneio, atiravam para responder aos disparos dos jovens, que bateram o carro na esquina das ruas Alasca e Argentina. Os rapazes, diziam os PMs, desceram e continuaram atirando.


O ex-secretário fazia questão de estar presente em todos os lugares onde acontecesse um caso grave. Erasmo ouviu o relato calado. E apanhou uma das armas que os homens da Rota diziam ter apreendido com os jovens — dois revólveres calibre 22 e um calibre 32. "Aí eu peguei assim a arma e fiquei com o tambor na mão", contou o coronel. A arma estava com defeito. Seria impossível que tivesse sido usada pelos rapazes. Erasmo riu e perguntou aos PMs: "Bandido estava com isso?". "É", respondeu o policial.

Erasmo então mostrou como escondeu em uma gaveta da delegacia a arma com defeito. "Meu amigo, eu peguei a arma, numa gaveta assim." Outro revólver foi providenciado pelos policiais para simular a resistência das vítimas. "Mais alguma coisa?", perguntou um policial. "Não, faz o inquérito aí, pô", disse Erasmo ao delegado. O secretário ainda daria "um esculacho" nos PMs: "Olha, vocês aprendem, viu, que eu sempre estarei do lado de vocês, mas nada explica e justifica. Não adianta mais ficar discutindo, agora vocês vão responder processo".

Desarmados

Depois de relatar a bronca, Erasmo esclareceu o que houve naquela noite: "É aquela história: eu sei como são as coisas. Depois de uma hora e meia perseguindo os caras, correndo risco de vida do c..., aqueles três garotos miseráveis... pô! Para, pô! O cara vai lá, o estado de ânimo do camarada... Eles (os rapazes) não estavam armados porra nenhuma", confessou, rindo. "Na hora H, por que foge? Se foge é bandido! Então dá essa desgraça que a gente torce pra não dar."

E prossegue

Para ele, a perseguição, o escuro, a tensão, tudo induziu os homens da Rota 66 a pensar que os jovens de classe média eram bandidos perigosos. "Cada vez que eles corriam atrás do camarada — e isso acontece muito com a polícia —, o ‘gordo’ vira mais bandido do que é. E são três bobinhos que não tinham habilitação. Mas é a tal história: aí foi uma culpa dolosa... Não pode enfrentar a polícia! Não pode fugir da polícia! Quem foge da polícia é bandido." E conclui: "Depois vem a merda; conforme o caso, enruste uma maconha, uma arma. É autodefesa".

Essa não seria a última vez que isso aconteceria com Erasmo. Ele respirou e continuou. "Não foi uma nem duas vezes... Às vezes, chegava assim e o cara estava morto sem ninguém vendo — só Deus sabe — e eu chegava assim e via o revólver e tic, tic, tic." O ex-secretário demonstrou em seu gabinete como fazia para simular que o "bandido" atirava até descarregar sua arma.

"Cansei de ver no começo: polícia deu cinco tiros e o bandido um só. É excesso de zelo! Economia! Eu fazia, quando eu ia (aos locais de crimes). A primeira coisa que eu fazia era isso (descarregar a arma do suspeito morto). Quando eu não estava lá, não recomendava que o cara (o policial) fizesse isso, pois o cara põe a mão nisso, ele vai ser indiciado; eu não vou ser indiciado."

No fim, Erasmo explicou como a experiência na Secretaria da Segurança transforma um homem: "A gente vai ficando meio sádico; vê tanta brutalidade dessa gente (criminosos) que dá vontade de matar".

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.