Minhocão volta ao centro do debate: paulistanos querem parque ou desmonte?

Plano Diretor de 2014 prevê a desativação gradual da via, que é polêmica desde sua criação

Daniel quer que o Minhocão vire parque, José Geraldo não vê a hora em que a via seja desmontada, João acha que o que vier será só para as futuras gerações, Francisco prefere que nada mude.

Neste domingo (25), aniversário de São Paulo, uma série de imagens de áreas verdes será projetada nos prédios que beiram o elevado Costa e Silva. A intervenção “Ver o Parque Minhocão” será mais uma etapa na disputa sobre o futuro do viaduto.

Desde 1º de agosto do ano passado, quando, entre as 350 páginas do suplemento do Diário Oficial em que foi publicado o novo Plano Diretor da cidade, um pequeno parágrafo, na folha 18, definiu a desativação gradual do elevado, o debate esquentou. Desmonta? Vira parque? Fica do jeito que está?

Nos debates públicos, dois grupos têm tido forte atuação: os que querem o parque e os que querem o desmonte. Os favoráveis à manutenção observam de longe, alguns um pouco descrentes do que possa acontecer.

O texto do parágrafo único do artigo 375 do novo Plano Diretor tem 37 palavras: “Lei específica deverá ser elaborada determinando a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação, parcial ou integral, em parque.”

Ainda de acordo o texto do Plano Diretor, os objetivos previstos na lei “devem ser alcançados até 2029”.

Conquista

Athos Comolatti, 61 anos, fundador da associação Parque Minhocão, afirma que a lei foi uma grande conquista, considerando o tempo de articulação entre os interessados em transformar o Minhocão em parque.

Athos Comolatti, da associação Parque Minhocão
Athos Comolatti, da associação Parque Minhocão R7

— Essa ideia é antiga. Na década de 1980, o arquiteto Pitanga do Amparo já havia proposto um parque no lugar do elevado. Mas começamos a nos articular durante as eleições de 2012. Eu e a Renata Falzoni, cicloativista, de quem fui colega de escola no Dante Alighieri, começamos a conversar sobre o assunto e fomos conhecendo outros interessados. O fato de, em dois anos, algo sobre o qual pouco se falava, um parque no elevado, aparecer em uma lei importante como o Plano Diretor é surpreendente.

O texto foi fruto da conversa da associação com vereadores que discutiam o novo Plano Diretor.

Morador do terceiro andar de um prédio rente ao Minhocão, José Geraldo Santos Oliveira, vice-presidente do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) Santa Cecília e um dos articuladores do grupo a favor do desmonte do elevado, também elogia o artigo, mas com ressalvas.

— Quem mora à beira do Minhocão ficou, ao mesmo tempo, feliz e apreensivo com esse artigo. Feliz porque vislumbramos, pela primeira vez, a real possibilidade de o elevado ser desmontado. Mas também tememos a possibilidade do parque.

Esperança

Concebido na década de 1960, durante a gestão do prefeito Faria Lima, e desengavetado pelo prefeito Paulo Maluf, o Minhocão foi finalizado em 1971. Já na época, era alvo de debates acalorados. Ao longo do tempo, foi palco de diversos fatos históricos (veja galeria de imagens acima).

Desde muito cedo, moradores de rua também fizeram moradia no canteiro central das rua Amaral Gurgel e da aveinda General Olímpio da Silveira, protegidos da chuva (veja acima vídeo sobre o dia a dia do minhocão). Sem se identificarem, alguns comerciantes disseram à reportagem pagar a seguranças particulares para retirar quem dorme em frente às suas lojas — o grupo de seguranças é chamado de "milícia".

Leia mais notícias de São Paulo

O sapaeito João Paixão, há mais de 40 anos no Minhocão
O sapaeito João Paixão, há mais de 40 anos no Minhocão Daia Oliver/R7

Outros comerciantes parecem já não ter esperaça de que a desativação ocorra de modo rápido. É o caso do sapateiro João Batista Correia da Paixão, de 63 anos.

— Eu queria que derrubasse. Mas estou há 40 anos aqui. Agora, o que for feito, se é que vai ser feito alguma coisa, vai ficar para as próximas gerações. Isso demora. Esse viaduto degradou tudo aqui, as lojas fecharam, não sobrou quase nada do que tinha antes. Até minha sapataria era maior no começo. Eu tinha uma loja mesmo e trabalhava no subsolo.

No final do ano passado, em audiência pública na Câmara foram postos argumentos de ambos os lados: a favor do desmonte e da criação do parque. A reunião, de mais de três horas, foi quente.

Alguns apoiadores do desmonte disseram que preferiam o Minhocão como está do que o parque. Herondina Aparecida de Souza Oliveira, de 63 anos, mulher de Oliveira, concorda.

— Aos domingos, quando o Minhocão fecha, também há ruído. Há ruído das pessoas que passam pelo elevado e há ruído dos ônibus embaixo. Não adianta transformar o Minhocão em parque. Esse ruído vai continuar. A poluição vai continuar. E pior: a falta de intimidade vai continuar.

Herondina Oliveira se queixa da falta de privacidade
Herondina Oliveira se queixa da falta de privacidade Daia Oliver/R7

Herondina diz que, quando abre a janela, tem de aguentar gestos e brincadeiras feitas por quem passa, seja a pé no domingo, seja de carro ou moto nos dias úteis.

— Nessa época do ano, o calor é demais. Comprei até um ventilador portátil, que alivia um pouco, mas é um paliativo. Quem é a favor do parque não mora aqui, não tem essa experiência.

Comollati de fato não mora rente ao Minhocão. Mas comprou um apartamento bem à beira da via, derrubou as paredes e o transformou a sede da associação.

Ele discorda da questão do barulho e da poluição.

— O que faz barulho mesmo são os ònibus. Por que não se propõe substituir os ônibus comuns por ônibus elétricos? Não polui, não faz barulho.

High Line

Em 2013, uma exposição sobre a High Line foi montada no apartamento da associação durante a Bienal de Arquitetura. Diferentemente das bienais anteriores, aquela não ocorreu no pavilhão do Ibirapuera, mas em locais da cidade perto do metrô. Um seguraça ficou na porta e o apartamento aberto a quem quisesse saber mais sobre a área que inspira os defensores do Parque Minhocão. O High Line, linha de trem suspensa de Nova Iorque transformada em parque, é constantemente citada pelos defensores do parque para mostrar que é possível um solução diferente do desmonte. Daniel Guth, outro integrante da associação Parque Minhocão, costuma andar de bicicleta e passear com o cachorro à noite no elevado perto da praça Roosevelt e diz que a pista nova-iorquina é um exemplo.

— Não precisamos ficar, o tempo todo, derrubando e construindo, derrubando e construindo. Podemos dar soluções criativas para o que existe na cidade. O Minhocão é um ícone de uma política “carrocêntrica” [voltada para os carros]. Transformá-lo em parque é muito simbólico.

Trânsito

A bienal acabou, mas a exposição continua lá, aos olhos de que passa pela via. Francisco Matos Silva, taxista que na última terça-feira (20) abastecia em um posto do largo Padre Péricles conhece o escritório.

— É uma coisa que chama a atenção quando a gente passa.

Ele, porém, é dos que não abrem mão da via.

— Há muito se fala em acabar com o Minhocão. Mas não dá para acabar. Imagine o trânsito... Como as pessoas vão se locomover? Eu sou contra.

Entre urbanistas, há quem defenda o parque e quem defenda o desmonte. Em 2006, um concurso foi feito Prefeitura: venceria o melhor projeto para revitalizar a via. Venceu o projeto de José Alves e Juliana Corradini, que previa manter o Minhocão, mas como túnel. E, segundo a proposta, haveria um parque em cima.

Vai ser realmente desativado?

Mas qual a real chance de o projeto de desativação ir para frente? Professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Flavio Jose Magalhaes Villaça, especialista em planos diretores, acredita que a determinação pode não sair do papel.

— O Plano Diretor serve para normatizar a ocupação do solo. Para isso, ele funciona bem. Mas desde o último plano, de 2002, foram incluídas uma série de obras. Isso depende do executivo. Não há lei que obrigue um prefeito a fazer uma obra.

Veja um dia no Minhocão em apenas 30 segundos: