Crise política no Brasil causa aumento de epidemias como a da H1N1, afirmam especialistas

Momento histórico de forte turbulência tem gerado estresse e diminuído imunidade da população

RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Nos últimos tempos, uma série de surtos de doenças se espalhou pelo Brasil e evidenciou ainda mais algumas dificuldades do sistema de saúde no País. Isso, porém, não é coincidência para os especialistas. Segundo eles, o aumento do número de pacientes infectados por doenças como a gripe causada pelo vírus H1N1 tem  relação com a atual crise política que assola o País de maneira intensa.

Divergências políticas, população sobressaltada a cada manchete, rusgas institucionais têm se repetido à exaustão, deixando a população com um alto nível de estresse, o que, de acordo com o psicólogo Edson Luiz de Toledo, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), a torna mais vulnerável a surtos como o de H1N1. 

— A crise faz com que as pessoas fiquem mais tensas, mais agressivas e estudos apontam que há uma grande relação entre baixa imunidade e estresse. Nesta medida, o estresse dessa situação - com a indefinição o tempo todo, a economia com desemprego, preços subindo, instabilidade - gera estresse, libera uma série de hormônios como o cortisol (hormônio ligado ao estresse) e pode contribuir para uma baixa imunidade.

O psicólogo acrescenta que discordâncias radicais também influenciam no estado de tensão, em um momento em que o país vive uma espécie de histeria coletiva a cada nova revelação ligada à Operação Lava Jato ou à possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

— As pessoas tendem a tomar atitudes e comportamentos mais extremistas, com a agressividade por causa de pontos de vistas polarizados gerando violência e agressões. Tudo é um gatilho para outras situações como epidemias.

Imunidade em baixa

Toledo ressalta que mesmo com o fato de se tratar de um vírus, que por questões biológicas já tem o potencial de infectar, o número de pessoas acometidas pela doença, porém, pode aumentar, já que muitas têm a possibilidade de não contraí-la, ou a enfrentarem com muito mais facilidade, caso estejam com a imunidade alta.

— Quando o sistema imunológico está mais enfraquecido, a resistência abaixa e o indivíduo fica mais sujeito a ter doenças como gripes, resfriados, outras doenças pulmonares. Entendo que haja uma relação entre esses dois aspectos: estresse e baixa imunidade da população. A mídia alerta em relação à H1N1: evite aglomerações, mas o trânsito e aglomerações têm aumentado, tudo está correlacionado.

Na opinião da imunologista Maria Angela Amato Vigorito, do Hospital Albert Einstein, além do aumento do estresse, a falta de infraestrutura do sistema de saúde brasileiro influencia na propagação de surtos.

— Hoje vivemos duas situações. Uma é que o sistema de saúde está falido, não foi feito nada preventivo e as vacinas nos anos anteriores não foram aplicadas de maneira correta. Segundo, as pessoas estão mais preocupadas, com mais medo e, por eu também trabalhar com acupuntura, sei que isso gera baixa resposta imunológica, baixa energia do rim. As pessoas ficam mais suceptíveis a pegarem as doenças. É assim que a leitura do corpo reage ao estresse: a gente pega o que está pronto para pegar, no caso atual, a H1N1, mas pode ser dengue ou outra doença. Agora, se você não está no lugar certo na hora certa, você também não pega. Ou seja, as condições de saúde também devem ser levadas em conta.

Globalização e soluções

O aumento do número de patologias também é decorrente, segundo Maria Angela, de uma falta de atenção às questões de prevenção de doenças no Brasil.

— Só se costuma cuidar da saúde quando se está doente. É uma somatória. As grandes epidemias vêm quando as pessoas estão mais mobilizadas com estresse por algum motivo, como guerras. E a vida que a gente leva é uma guerra pela sobrevivência. Isso abaixa a resposta imune, como está muito bem descrito nos livros. Antes tínhamos a teoria do câncer em relação à resitência imunológica, agora é a do estresse crônico.

Já o imunologista Mário Geller, membro titular da Academia de Medicina do Rio de Janeiro, diz que é difícil atribuir à ansidedade o aumento de epidemias como a da H1N1. Ele considera que tal situação tem mais a ver com a globalização do mundo moderno.

— Hoje a movimentação das pessoas faz com que elas possam estar em outro país em poucas horas. E o vírus, quando surge em algum lugar do planeta, com a mobilização das pessoas, também vai de um lugar ao outro com essas movimentações. Não acredito que o vírus H1N1 seja autóctone, acredito que ele venha de fora do Brasil. Há outros locais do mundo com mais ansiedade, com guerras e conflitos armados que não estão tendo essa epidemia. Acho perigoso atribuir ao lado emocional, ficaria mais com a mobilidade da globalização.

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Toledo, porém, traz uma solução. Que a atual turbulência do país, em vez de, segundo ele, facilitar a ocorrência das epidemias, seja capaz de trazer benefícios em um curto prazo. Inclusive para a saúde e bem-estar da população.

— É por outro lado um momento oportuno. Nunca se falou tanto em política, todos os níves sociais e culturais estão discutindo, alguns polarizando, mas outros discutindo e isso é saudável. Teria condições de reverter em uma vida mais consciente e com isso mais saudável.

Só no primeiro trimestre de 2016, segundo o Ministério da Saúde, o País registrou 71 casos de morte por H1N1, até 26 de março, em boletim divulgado no último dia 4. No ano passado inteiro foram 36 mortes por H1N1 no país. Quem sabe um dia, segundo a visão dos especialistas, quando o "Impeachment já" se entender com o "Não vai ter golpe", o Brasil tenha chance de trabalhar mais unido por um novo slogan: "Não vai ter surto".

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