Queda no uso de preservativos e menosprezo às DSTs causam aumento da sífilis congênita no Brasil

Recém-nascidos sofrem com as sequelas causadas por falta de diagnóstico e prevenção

  • Saúde
  • Eugenio Goussinsky, do R7
Sociedade de Pediatria indica testes laboratoriais para diagnóstico
Sociedade de Pediatria indica testes laboratoriais para diagnóstico Thinkstock

O aumento do número de casos de sífilis no Brasil tem preocupado especialistas por dois motivos. Primeiro, a sífilis era, até pouco tempo atrás, uma doença controlada, inclusive por ser enfermidade de tratamento relativamente simples. Segundo: a retomada desta DST (doença sexualmente transmissível) também tem sido responsável pelo aumento da sífilis congênita, que infecta o bebê durante a gravidez. E os prejuízos, nestes casos, são ainda maiores para os recém-nascidos.

Até os médicos em geral, muitas vezes sobrecarregados com as longas filas de espera dos hospitais, sejam eles públicos ou privados, têm parte da responsabilidade em relação à doença, conforme afirma o obstetra Jarbas Magalhães, vice-presidente da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo).

— A sífilis ficou um pouco esquecida e com isso aumentou o número de casos. Hoje se ensina menos clínica (descrição dos sintomas) ginecológica e os médicos saem das faculdades fazendo pouco diagnóstico de sífilis.

No boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado no fim de 2016, os casos de sífilis em adultos aumentaram 32,7% entre 2014 e 2015. Nas gestantes, houve alta de 20,9% dos casos o que, como consequência, causou crescimento do número de transmissões na gravidez, estas chegando a 19% neste período. A instituição detectou uma queda no uso de preservativos, em jovens entre 15 e 24 anos. Em 2004, 58% deles utilizavam a proteção. Em 2015, a porcentagem caiu para 57%.

Para contrapor tal situação, a campanha Outubro Verde, da Sociedade Brasileira de Pediatria, surgiu em 2016, impulsionada por um período de desabastecimento de penicilina. A mensagem era compensar a então falta do medicamento com a prática da prevenção. Dentre as orientações estão a necessidade de realização de pelo menos seis exames pré-natais, testes laboratoriais, tratamento da mãe e do parceiro e utilização de preservativos nas relações sexuais.

Transmissão pela placenta

Por ser uma doença muitas vezes de difícil diagnóstico, confundindo-se com doenças dermatológicas, Magalhães considera que a sobrecarga dos médicos também é um dos muitos fatores que prejudicam uma análise mais minuciosa.

— Consultas de convênio médico são realizadas em 15 minutos, então, por isso, se faz um exame muito superficial e se deixa passar muitos diagnósticos de sífilis. E a prevenção necessária também fica prejudicada.

Causada pela bactéria Treponema pallidium, transmitida principalmente mas mucosas ou ferimentos na pele, a sífilis é uma doença contraída por via sexual em 95% dos casos. Após a primeira etapa, formada por aparições dos chamados cancros, os sintomas iniciais somem, mas a infecção reaparece depois de cerca de 90 dias, com outras manifestações, como febre, gânglios inchados e dor de garganta. Posteriormente, ela tende a regredir aparentemente, até chegar a uma terceira etapa, esta mais grave.

Muitas vezes o portador nem sabe que tem a doença, que pode ser detectada por meio de exame de sangue cerca de um mês após a infecção. Nestes casos, durante a gestação, a mãe pode transmitir a sífilis para o feto, por meio da placenta, provocando a sífilis congênita, que pode até provocar o aborto.

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Após o nascimento da criança, não há um momento específico de manifestação da doença durante os primeiros anos de vida. Ela pode ser percebida logo após o nascimento, até os dois anos ou até depois, por meio de sintomas como feridas no corpo, dentes deformados ou mais frágeis, pneumonia, problemas ósseos, surdez, cegueira ou deficiência mental, conforme afirma Magalhães. Há casos em que a infecção pode até levar à morte da criança.

— A sífilis congênita deixa sequelas muito graves, o diagnóstico deve ser feito no pré-natal, de preferência nos primeiros três meses. Geralmente a sífilis congênita acaba sendo diagnosticada pelo pediatra, mas ela deve ser evitada antes.

Magalhães afirma que nos primeiros meses é mais difícil o diagnóstico, sendo este um período onde a sífilis pode não se manifestar. O tratamento também pode ser eficaz se o diagnóstico ocorrer posteriormente, segundo o médico. Mas para evitar o pior, o exame inclusive é recomendado no pós-parto.

— Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, menos sequelas a criança terá.

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