Queridinha das famosas, dieta sem glúten não ajuda a emagrecer, dizem especialistas

Pessoas com doença celíaca e alergia são as que devem cortar a proteína da alimentação

Isis Valverde descobriu na infância que tem doença celíaca, intolerância ao glúten
Isis Valverde descobriu na infância que tem doença celíaca, intolerância ao glúten AgNews

Adotada por várias famosas na busca pelo corpo perfeito, a dieta sem glúten promete ajudar na perda dos quilos indesejados. Mas será que tal proteína, presente em diversos alimentos do cardápio do brasileiro, é realmente inimiga dos que querem manter a linha? Para descobrir a resposta, o R7 conversou com especialistas que foram categóricos: o glúten não está ligado à perda de peso.

O glúten é uma proteína que existe no trigo, no centeio, na cevada (malte) e também na aveia (em menor quantidade). Em outras palavras, ele está presente em todos os alimentos produzidos com essas matérias-primas, como pão, massas, bolos, bolachas, cereais e até a cerveja, segundo explica Vera Lucia Sdepanian, professora de gastropediatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

— Não se pode confundir o glúten com o carboidrato. Quando as pessoas [incluindo os famosos] dizem que emagreceram com a retirada do glúten, na verdade, perderam peso porque tiraram os alimentos ricos em carboidratos do cardápio. Não é o glúten que engorda, mas sim os alimentos calóricos que são feitos à base de trigo, entre outros, que têm glúten.

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Segundo a nutricionista Salete Britto, do HC (Hospital das Clínicas da Unicamp de São Paulo), atualmente, não há estudos científicos relevantes que comprovem algum tipo de ação maléfica do glúten no organismo.

— Dizer que o glúten deixa a barriga inchada, por exemplo, é mito. Há pessoas com tendência a sofrer de flatulências [gases] quando ingerem pães ou massas, por exemplo. Isto, geralmente, ocorre devido à fermentação durante a digestão, e não por causa do glúten. Na verdade, o glúten é importante para manter a quantidade de carboidrato em nossa dieta. Na alimentação diária, a pessoa deve ingerir de 60% a 70% de carboidrato.

A nutricionista e pesquisadora de alimentos Renata Padovani ainda ressalta que o Conselho Regional de Nutrição de São Paulo emitiu parecer recente em que “restrição indiscriminada ao consumo de glúten não encontra respaldo na ciência” e que apenas pacientes com doenças de sensibilidade ao glúten diagnosticadas devem cortar alimentos com a proteína da dieta. O descumprimento destas diretrizes “oferece indícios de infringência do Código de Ética do Nutricionista", ressalta a especialista.

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Quem não pode ingerir glúten?

Há pessoas que por predisposição genética sofrem de intolerância, então, apenas nestes casos, é necessário cortar os alimentos com a proteína, alerta a professora da Unifesp. São três as doenças decorrentes da intolerância ao glúten: alergia, dermatite herpetiforme e, a mais comum, a doença celíaca.

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Quem tem alergia sofre com urticárias (lesões) na pele, lábios inchados e até falta de ar, diz Vera Lucia. Já a dermatite herpetiforme, também conhecida como "doença celíaca da pele", provoca bolhas com coceira nos cotovelos, na região lombar e das costas, e pode ter algum tipo de alteração e prejuízo na mucosa do intestino delgado.

— Quem tem doença celíaca e ingere glúten terá o intestino delgado danificado, pois há uma alteração na mucosa do órgão. Como uma das consequências é a diarreia, o organismo não absorve as proteínas, gorduras, vitamina e cálcio, e a pessoa poderá ter anemia. Além disso, haverá perda da massa óssea, provocando osteopenia e até mesmo osteoporose. O consumo de glúten para estas pessoas também pode causar problemas no esmalte do dente, na musculatura, e até consequências neurológicas.

Importância do diagnóstico

Além da diarreia, ao sinal de emagrecimento, baixa estatura (em crianças), barriga inchada, gases e até úlceras "que vão e vem na boca", a primeira coisa é procurar um médico, alerta a médica.

— Muitas vezes, o indivíduo que se identifica com estes sintomas retira o glúten por conta própria volta. O problema é que depois de um tempo, ele volta a comer. Mas quem tem esta doença deve eliminar totalmente de sua alimentação por toda a vida para não ter complicações. Por isso a importância de um diagnóstico feito por especialistas.

Segundo Lucélia Costa, presidente da Fenacelbra (Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil), quase dois milhões de brasileiros são celíacos, “embora muitos nem saibam disso”. A incidência é maior em mulheres e, geralmente, aparece nos primeiros anos de vida, apesar de poder se manifestar na fase adulta.

— Como não possui tratamento clínico medicamentoso específico, a única forma de intervenção é o controle rigoroso da ingestão alimentar.

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A chave do sucesso para quem quer emagrecer e se livrar de vez dos quilos extras não é a dieta restritiva, mas sim a reeducação alimentar, garante Salete.

— Não é recomendado tirar os alimentos calóricos de uma vez só, pois o corpo vai começar a trabalhar cada vez mais devagar e, quando você voltar a comer, vai engordar tudo de novo. Para ter o corpo bonito é necessário fazer escolhas, ou seja, ter uma alimentação saudável, comer de três em três horas e tomar água. Para emagrecer, bastar ter vontade de mudar hábitos e ter disciplina. Afinal, todos nós também temos direito de ter nossos momentos de pecado, não é [risos]?