Logo R7.com
RecordPlus
Notícias R7 – Brasil, mundo, saúde, política, empregos e mais

Análise: Mentes sobrecarregadas resultam em baixo aprendizado

Com o advento das redes sociais, cada vez mais temos ciência da perda de senso crítico e de problemas de interpretação de textos simples

|Do R7

  • Google News
Excesso de informação cria “fenômeno neurológico"
Excesso de informação cria “fenômeno neurológico"

Talvez você se surpreenderia se lesse algumas mensagens que recebo sobre alguma postagem no meu blog ou nas redes sociais. É comum as pessoas perguntarem coisas cujas respostas estão no texto que acabaram de ler, pois registraram pouco ou deram uma interpretação completamente diferente.

Quando informamos que a resposta está no terceiro parágrafo, muitas ficam incrédulas e até perguntam se acrescentamos isso depois, afinal quando elas leram “não estava lá”. Pior que isso é quando você escreve “preto”, mas a pessoa entende “branco” e ainda lhe chama de racista... Você explica que escreveu p-r-e-t-o, mas ela lhe responde que “não vai mudar de opinião”. Tempos difíceis!


No Brasil, segundo pesquisas sobre alfabetização, apenas 8% da população tem capacidade de interpretar textos sem nenhum tipo de dificuldade. Sim, você não leu errado e nem tampouco falta um zero, são apenas OITO porcento mesmo.

Somado a isso, temos a “patrulha do idioma” que demoniza palavras e expressões usadas há séculos e tenta nos impor uma nova Língua Portuguesa. Em um país onde 92% da população tem dificuldades para interpretar textos simples é realmente com esse tipo de coisa que precisamos nos preocupar, não é mesmo?


Lendo o artigo “Circuitos sobrecarregados” escrito pelo psiquiatra e especialista em distúrbios do aprendizado, Edward M. Hallowell, para a Harvard Business Review, vejo que não é à toa que esses números assustadores fazem parte da nossa estatística.

Hallowell afirma que o excesso de informações causa um “fenômeno neurológico real, mas bastante ignorado” que ele chama de Traço de Déficit de Atenção ou ADT (do inglês Attention Deficit Trait). Essa sobrecarga do cérebro, segundo o psiquiatra, virou epidemia e os principais sintomas são distração, frenesi interno e impaciência. “Quem sofre de ADT tem dificuldade em se manter organizado, em definir prioridades e em gerenciar seu tempo”, explica Hallowell.


Outro dado alarmante que o artigo traz é que o número de pessoas com ADT atendidas pelo especialista aumentou dez vezes na última década. Ele afirma que “o ADT não é uma doença e nem um defeito de caráter. É a resposta natural do cérebro a exigências cada vez maiores em relação ao nosso tempo e à nossa atenção.”

O que devemos fazer é poupar nosso cérebro dessa sobrecarga naquilo que podemos. Antes de iniciar uma palestra ou curso, quase sempre peço que as pessoas pensem no seguinte: se elas estiverem ali de corpo presente e mente ausente, irão simplesmente perder seu tempo (e o meu!). Peço que desliguem os celulares (medida nada popular e que causa ansiedade em muita gente) e foquem no que será transmitido pelos próximos minutos.


Há quem simplesmente não consiga, embora não esteja com entes queridos internados, não tenha crianças pequenas e não esteja com nenhuma urgência em família. Elas sabem que nada vai acontecer, mas não querem ficar “desconectadas” por sentirem que estão “perdendo alguma coisa”. Mas, na verdade, o que estão perdendo — além de tempo — é a oportunidade de aprender, enquanto sobrecarregam o cérebro com coisas que não lhes acrescentam nada.

Essa história de que podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo é conversa fiada! Podemos ter várias atividades diferentes e sermos multitarefas, mas só conseguimos fazer algo bem-feito colocando toda atenção em uma coisa de cada vez.

Se você leu um texto e não entendeu, não é porque lhe falta inteligência, mas talvez, lhe falte atenção devido à sobrecarga a qual você submete sua mente. Portanto, antes de julgar, comentar ou dizer a primeira coisa que lhe vem à cabeça, releia, reflita, raciocine e melhore a qualidade do seu senso crítico. Isso não se faz em segundos, portanto, invista tempo em aprender de fato. Esta é a minha forma de desejar que seu 2019 seja realmente um ano novo!

Patricia Lages

É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo, palestrante e conferencista do evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard. Apresenta quadros de economia na TV Gazeta e RecordTV e é facilitadora do programa mundial WomenWill – Cresça com o Google.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


    Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.