Ativista do parto humanizado, baiana utiliza fotografias para disseminar movimento nas redes sociais
Em entrevista, Carolina Lube contou como começou a paixão pela fotografia
Bahia|Do R7*


Como vir ao mundo? Nos últimos meses, a via de nascimento de uma criança virou polêmica no Brasil. De um lado estão os defensores da cesárea, que tem um índice alto no Brasil e está longe da recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde), e, do outro, as ativistas do parto humanizado, que querem ter o direito de trazer seus filhos ao mundo da forma mais natural. Na Bahia, a jovem Carolina Lube, que é natural de Santo Antônio de Jesus, descobriu um novo sentido para vida através do nascimento dos seus filhos.
Fotógrafas registram momentos emocionantes de partos na Bahia
Aos 27 anos, a mãe de Sophia e de Cauê já foi doula e hoje fotografa partos, coordena um grupo de apoio ao parto natural e se tornou um dos ícones da luta pela humanização do parto em Salvador. Sua história ficou conhecida quando uma carta aberta que escreveu ao médico que realizou a cesárea do seu primeiro filho viralizou nas redes sociais. Em um misto de ternura e firmeza, a baiana que imprime em suas fotografias a força e a delicadeza do movimento que defende, contou a reportagem do R7 BA como começou a fotografar partos e engajar-se no direito de escolha da mulher.
R7 BA: Como começou sua paixão pela fotografia?
Carolina Lube: Eu já estudava fotografia como hobby desde a infância, sempre estive envolvida neste meio porque tenho familiares fotógrafos. Quando minha filha nasceu, fui estudar mais sobre o assunto porque queria fazer o registro do dia-a-dia, mas de maneira espontânea. Quatro anos depois do nascimento dela, eu fiquei grávida do Cauê e planejei um parto domiciliar. Eu pensei no seguinte: se registrei meu casamento e aniversários, como poderia deixar o nascimento do meu filho de fora? Foi em 2013, só que não achei nenhum profissional em Salvador que fizesse esse tipo de registro e contratei duas fotógrafas de São Paulo.
R7 BA: Pode dizer que o registro do seu segundo parto mudou sua vida?
C.L.: Eu já estava envolvida com o parto humanizado. Mas, quando fiz esta escolha, grande parte da minha família não entendia e achou que eu estava inventando moda. Quando as fotos chegaram e eu compartilhei o momento que é tão íntimo, eles mudaram de ideia. No meu primeiro parto não me deram o direito de escolha e fiquei muito chocada pelo que deixei de viver. Entrei em trabalho de parto, mas o médico disse que o bebê era grande demais. Minha filha nasceu com 3,700 kg. Quatro anos depois, meu segundo filho nasceu em casa, com 4,350 kg. Quando as fotos chegaram fiquei muito emocionada, porque tinha vivido algo muito forte e não tinha percebido isso. Ali, entendi que o registro de um parto era essencial. Eu vivi de fora o que senti por dentro, estava tão entregue ao meu processo de parto, que não tinha noção das coisas que aconteceram naquele dia.

R7 BA: E quando decidiu que iria fotografar partos?
C.L.: Na época isso era uma loucura, como iria ser fotógrafa de parto se aqui em Salvador se o parto humanizado estava começando a ser aderido? Decidi seguir meu coração. Minha intenção era ser o mais invisível possível, que a mulher não lembrasse que eu estava ali e assim registrar tudo da forma mais natural. Tive que investir alto em equipamentos, porque não podia estar cheia de flashes ou qualquer coisa que distraísse a mãe. O foco sempre vai ser o parto. Viajei, fiz cursos em São Paulo, estudei e investi. Costumo dizer que meu coração não foi da fotografia para o parto, mas do parto para fotografia.
R7 BA: Como é o retorno das mulheres ao receber as fotos?
C.L.: É maravilhoso. Quando era doula percebi que, assim como no meu parto, elas não se lembram dos detalhes. Elas sempre ficam extasiadas ao receber as fotos e ver o que viveram. O retorno delas faz tudo e mais um pouco valer a pena. Eu não dirijo nada no parto, eu acredito no momento e, que tudo por si só, é tão emocionante, que não preciso interferir. Eu sento, fico calada, sinto o ambiente e tento captar a emoção do momento. Antes tenho reuniões para saber a expectativa, vou entendendo as relações das pessoas que estarão presentes no dia e até para saber se me enquadro naquele ambiente. Eu não acho justo ir só para ganhar dinheiro, o nascimento é um momento muito sagrado.
R7 BA: Você consegue ser imparcial no momento das fotografias?
C.L.: Não. Eu me entrego 100% ao casal e ao parto. Por isso pego pouquíssimos partos por mês, para estar bem e com uma energia legal. Faço fotos de, no máximo, quatro por mês e torço por elas. No dia, não é apenas a fotógrafa que vai, é Carol Lube, que pariu, que chora e que se envolve. Já estive em mais de 70 partos e em todos é uma emoção diferente.
R7 BA: Você também é ativista do parto humanizado. Como a fotografia de partos ajuda nesta luta?
C.L.: É muito difícil optar pelo parto humanizado, não só aqui na Bahia, mas no Brasil inteiro. Muitas vezes a mulher tem que ir contra uma sociedade, contra a família. Ela tem que convencer muita gente e é um caminho que não é fácil. A fotografia de parto tem um papel importante neste processo de humanização. São esses registros íntimos que mulheres decidiram compartilhar para mostrar que é possível parir desta forma. O boom desta luta foi quando o vídeo do primeiro parto domiciliar foi divulgado no youtube. Depois, as mulheres decidiram sair pelas ruas do Brasil para gritar pelo direito de parir em casa. Só aí a gente percebe o tamanho da força deste movimento. Em minha página no facebook as mulheres permitem essa divulgação e contribuem pela luta da humanização. Não sou contra a cesárea quando ela é necessária, pois independente da via de nascimento, há um bebê vindo ao mundo e uma família emocionada. Mas, a mulher precisa ser respeitada. Nos trabalhos que faço, a ideia é registrar a emoção do momento e não apenas captar uma imagem.
*Colaborou a estagiária Kátia Prado















