Agrotóxico, o perigo invisível: o veneno e a depressão
Nos últimos sete anos, 9.583 brasileiros desenvolveram depressão por causa do contato com produtos químicos e tentaram o suicídio
Brasil|Marcelo Magalhães, Rogério Guimarães, Laura Ferla e Gustavo Costa, da Record TV
A maior paixão da vida de Erenil Werneck é o futebol. Principalmente, o Botafogo. As fotos de times históricos do clube do coração estão espalhadas pela sala de casa. O manto alvinegro não sai do corpo. Mas, aos 43 anos, o esporte para ele é como um amor platônico: uma fascinação interminável, condenada a ficar para sempre distante.
Há dez anos, Erenil não joga futebol. Um problema grave na traqueia o deixa com dificuldades para respirar. É a consequência de um ato impensado: Erenil tentou se matar bebendo um copo de agrotóxico.
"Eram dois venenos para broca de café. Botei os dois tipos e misturei. Bebi e vomitei logo. Só andei uns dez metros e caí. Tonteei na hora", conta o ex-lavrador, que hoje trabalha como caminhoneiro.
Erenil ficou 14 dias internado no CTI fazendo lavagem estomacal.
"Eu sofri muito, né? Tava comendo tudo por dentro. Aí, fiquei com esse problema na traqueia."
A tentativa de suicídio veio depois um longo período de depressão.
"Dava uma tristeza, tinha dia que não dava vontade de fazer nada. Desânimo de tudo, se tivesse fazendo um serviço, dava vontade de largar e ir embora. Sumir do lugar."
O serviço era justamente pulverizar plantações de café com o agrotóxico. Erenil trabalhou nas lavouras por mais de 30 anos.
"Não tinha roupa preparada para bater. Se tava de bermuda, batia de bermuda, chinelo. Mas a gente nem ligava, não conhecia os sintomas. "
O que muitos trabalhadores rurais como Erenil não sabem é que há uma relação comprovada entre o uso abusivo de pesticidas e quadros profundos de depressão.
"A gente já tem trabalhos no Brasil e no exterior que comprovam essa conexão entre a exposição a alguns agrotóxicos e casos severos de depressão. E o limite disso é a tentativa de suicídio," afirma a professora Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do laboratório de Geografia Agrária da USP.
Segundo a especialista, em alguns estados, 70% dos casos de intoxicação por pesticidas registrados foram agricultores que beberam veneno para se matar.
"O veneno leva a pessoa à depressão porque impregna o sistema nervoso central. Cai a produção da serotonina e, automaticamente, a pessoa começa a entrar no ciclo vicioso da depressão," diz o oncologista Nivaldo Kiister.
A poucos quilômetros da casa de Erenil, também em Santa Maria de Jetibá-ES, Nelina mantém os agrotóxicos trancados em um paiol afastado de casa.
"A gente tampa isso aqui do jeito que tá por causa do meu irmão, que já tomou veneno uma vez, né? Vou ter que tirar isso breve, breve daqui," conta a lavradora.
Por muitos anos, Davi pulverizou as plantações de inhame, milho e feijão da família. A depressão o atingiu de uma forma avassaladora.
"Ele já tinha tentado cortar o pulso, cortar o pescoço. Depois apareceu com agrotóxico em um vidro de remédio. Aí, ele tomou naquela casa velha lá atrás", conta a irmã Nelina.
Há dois anos, o agricultor também sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e perdeu parte da fala e dos movimentos do lado direito do corpo. Agora, a vida agora do homem de 41 anos se resume a um cômodo pequeno na casa da irmã.
"Ele fica aqui no quarto dele, assiste TV quando quer. Toma sete tipos de remédio todo dia. E fica aí," diz Nelina.
Davi trabalhava na lavoura. Tentou se matar bebendo agrotóxico
Davi trabalhava na lavoura. Tentou se matar bebendo agrotóxico
Assim como Davi e Erenil, 9.583 brasileiros tentaram o suicídio da mesma forma nos últimos sete anos.
"Isso é um problema do Brasil, que tem de ser atacado de frente," defende o oncologista Nivaldo Kiister.
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