Análise: Cada um tem o sistema bancário que merece
Não se trata do banco A, B ou C, mas sim de um sistema muito bem pensado para que clientes imprudentes sempre percam achando que estão ganhando.
Brasil|Do R7
Algumas vezes tenho a impressão de que são os explorados que criam e alimentam com todos os nutrientes seus próprios exploradores. Não há um único dia, nos últimos oito anos, que eu não receba pelo menos uma mensagem de alguém que fez uma ou mais bobagens financeiras e acabou comprometendo seu sustento por meses e até anos. São pessoas que não compreenderam ainda que seu futuro depende da boa administração de seus recursos no presente – sejam muitos ou poucos – e que é preciso se dispor a aprender de maneira minimamente eficiente como cumprir com essa responsabilidade.
Mas enquanto tentamos mudar essa mentalidade, as pessoas estão muito ocupadas para ouvir, pois precisam trabalhar em seus discursos que culpam os bancos, as financeiras, as operadoras de cartão de crédito, o governo e até o vendedor da concessionária de veículos. Porém, a verdade nua e crua é que todas elas receberam um contrato, em várias vias, explicando todas condições das negociações que fizeram. Porém, reunindo toda preguiça e irresponsabilidade, assinaram sem ler uma linha sequer, acreditando piamente em tudo o que um desconhecido disse e apoiando-se no pensamento de que “todo mundo faz assim”.

Obviamente sempre haverá quem trate o enganado como vítima, mas além de não ajudar, isso só piora. Em vez de querer culpar o outro lado que, diga-se de passagem, tem as leis a seu favor, é preciso que cada um se responsabilize por seus próprios atos e comece a usar a cabeça. No Brasil, literalmente, há mais smartphones do que gente e todos esses dispositivos vêm com uma calculadora capaz de executar multiplicações que podem facilmente comprovar que as taxas de juros neste país são abusivas, ainda que legais.
O sistema bancário brasileiro é um jogo estruturado para fabricar devedores que percam sempre, mas com a impressão de que estão ganhando. Ou haveria uma definição melhor para negociações onde um lado cobra juros de mais 300% ao ano, mas oferece um rendimento de menos de 3% para o mesmo período?
Deposite mil reais na poupança e você vai receber menos de trinta reais de rendimento ao longo de um ano inteiro. Deva os mesmos mil reais no rotativo do cartão de crédito e ao final de 12 meses você estará com uma dívida de mais de 4 mil reais. Mas em vez de se disciplinar a viver dentro de suas possibilidades e usar o próprio dinheiro para receber juros dos bancos, a maioria age de forma diametralmente oposta.
Apesar de que tudo o que foi descrito não seja nenhuma novidade, não faltam pessoas para alimentar esse sistema, implorando que os bancos lhes concedam mais crédito, que aumentem seus limites e que aprovem o financiamento de carros cada vez mais caros que elas não podem pagar. Elas não ignoram que pagarão caro pelas migalhas que recebem, mas não ligam a mínima e só desejam receber uma dose cada vez maior aquilo que as destrói. E a pergunta que fica é: no fim das contas, quem é que está enganando quem?
Patricia Lages
É jornalista internacional, tendo atuado na Argentina, Inglaterra e Israel. É autora de cinco best-sellers de finanças e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. Ministra cursos e palestras, tendo se apresentado no evento “Success, the only choice” na Universidade Harvard (2014). Na TV, apresenta o quadro "Economia a Dois" na Escola do Amor, Record TV. No YouTube mantém o canal "Patricia Lages - Dicas de Economia", com vídeos todas as terças e quintas.














