COLUNA-Dilma precisa mais do que pronunciamentos para vencer "batalha da comunicação"
Brasil|Do R7
(O autor é editor de Front Page do Serviço Brasileiro da Reuters. As opiniões expressas são do autor do texto)
Por Alexandre Caverni
SÃO PAULO (Reuters) - Em sua primeira reunião ministerial neste segundo mandato, no final de janeiro, a presidente Dilma Rousseff mostrou preocupação com a "a batalha da comunicação", uma batalha que agora parece cada vez mais perdida. E o pronunciamento na noite de domingo não ajudou muito para mudar essa tendência.
A presidente tentou.
Argumentou que o governo absorveu até o ano passado "todos os efeitos negativos" da crise internacional, para proteger a população, mas que isso não era mais sustentável e agora a carga precisava ser dividida entre todos.
Disse que o ajuste fiscal em curso está sendo feito de forma equilibrada e que ele não é um fim em si mesmo, mas o meio para recuperar a economia.
Mas ao justificar as medidas, como as mudanças no acesso a benefícios trabalhistas e previdenciários e a redução nas desonerações, foi muito superficial.
Além disso, voltou a culpar a crise internacional pelo quadro atual da economia brasileira, desta vez acrescentando a falta de chuvas como um outro vilão.
Ainda que a situação na Europa esteja longe da ideal e de a China ter reduzido seu ritmo de crescimento --vale lembrar para algo em torno de 7 por cento ao ano--, fica difícil pensar em grave momento da crise internacional, quando os Estados Unidos estão batendo seguidos recordes na criação de empregos.
Parece pouco dizer que a população "tem todo o direito de se irritar e se preocupar", quando a inflação atinge níveis não vistos desde 2005 (no caso da taxa acumulada em 12 meses) e desde 2003 (no caso da taxa mensal), com o custo da eletricidade crescendo continuamente.
Pedir paciência, compreensão e união argumentando que "a situação é passageira" não ajuda muito quando a economia caminha para uma recessão neste ano e o mercado de trabalho, um dos pilares da popularidade de Dilma, piora.
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DIÁLOGO
Ao vencer a eleição mais apertada desde a redemocratização, Dilma prometeu mais diálogo em seu segundo mandato.
Mas as medidas estão sendo tomadas sem nenhum diálogo prévio, seja com as partes interessadas ou com os aliados no Congresso.
Sem entrar no mérito da correção ou necessidade das medidas, os líderes sindicais não têm como apoiar as mudanças nas regras de acesso ao seguro-desemprego, para ficar num só exemplo, e aceitar que se está preservando "os direitos sagrados dos trabalhadores", como disse Dilma.
Para os empresários, a redução das desonerações, ou de outro modo aumento de impostos, sobre a folha de pagamento representa apenas mais custos justamente num momento em que a demanda fraqueja e o financiamento encarece.
E político nenhum gosta de ter sua imagem associada a notícia ruim. Ou seja, em condições normais de temperatura e pressão já não seria simples a aprovação das medidas pelo Congresso Nacional. Num quadro de turbulênica na relação do Palácio do Planalto com a base governista, a dificuldade fica muito maior.
A batalha da comunicação só vai começar a ser revertida pelo Palácio do Planalto quando conseguir atrair lideranças trabalhistas e empresariais diretamente interessadas nas medidas do governo que as entendam e as apoiem e convencer aliados políticos a fazer o mesmo. Para tanto é preciso intenso diálogo e muita negociação.
E isso não se resolve com um pronunciamento ensaiado e gravado, ainda que tivesse sido muito bom, o que não foi exatamente o caso aqui, panelas e buzinas à parte.
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* Esta coluna foi publicada inicialmente no terminal financeiro Eikon, da Thomson Reuters.















