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Comissão da Verdade aponta que atentado do Riocentro foi realizado por militares

Relatório aponta que manobra foi tentativa de retardar a abertura política no País

Brasil|Do R7

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A CNV (Comissão Nacional da Verdade) apresentou nesta quarta-feira (29) o relatório preliminar de pesquisa "Riocentro: Terrorismo de Estado Contra a População Brasileira" no qual conclui que o atentado foi "um minucioso e planejado trabalho de equipe realizado por militares do I Exército e do SNI (Serviço Nacional de Informações) e o que o primeiro inquérito policial militar sobre o caso, aberto em 1981, foi manipulado para posicionar os autores diretos da explosão apenas como vítimas.

Duas testemunhas ouvidas pela CNV, Mauro César Pimentel e o almirante Júlio de Sá Bierrenbach, afirmaram, respectivamente, que os militares tinham bombas no carro para um atentado com muito mais vítimas e que o primeiro inquérito foi manipulado desde o início para colocar os dois autores, o capitão Wilson Machado, e o sargento Guilherme do Rosário, que morreu na explosão, como vítimas e não autores de um crime.


Para o coordenador da CNV, Pedro Dallari, o caso Riocentro foi o último de uma série de 40 atentados ocorridos entre janeiro de 1980 e abril de 1981, "que visavam dificultar a abertura política iniciada em 1979 e dar uma sobrevida ao regime militar".

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Segundo o relatório, cerca de 20 mil pessoas estavam no Riocentro na noite de 30 de abril de 1981 para assistir um show organizado por Chico Buarque para o Dia do Trabalhador. O grupo que planejou o atentado conseguiu até que a Polícia Militar recebesse uma ordem para não realizar policiamento dentro do espaço onde ocorria o show.

O número de vítimas do atentado frustrado poderia ser muito maior. Além da bomba que explodiu no estacionamento, mais uma bomba explodiu na casa de força do Riocentro. O intuito era que faltasse energia para impedir o show e causar tumulto, mas o artefato não causou o efeito desejado.


Depoimentos apontam que duas bombas sob o palco foram retiradas do local antes de serem detonadas e Pimentel e outras testemunhas afirmam que havia duas outras bombas no carro, que foram retiradas da cena do crime.

Pimentel havia esquecido a carteira no carro e passou por trás do Puma e pode ver no porta-malas dois cilindros iguais a outro que estava no colo de Rosário. Ele pegou a carteira e caminhou mais alguns metros quando ouviu a explosão.


Imediatamente Pimentel voltou-se para trás, a tempo ainda de tentar socorrer Machado e ver sua identificação de militar. Rosário estava morto. Ele e os amigos decidiram pedir ajuda. Quando voltaram ao carro, Machado e as bombas já haviam sido levados. Pimentel discretamente deixou os documentos de Machado em cima do carro e foi embora.

Ele não tem dúvidas que os militares tinham explosivos suficientes para causar um número muito maior de vítimas no atentado. Ele guardou a história por 30 anos, inclusive de sua família, e só a revelou em 2011, pois foi da PM por 15 anos e temia represálias.

— Não preciso ler, não trago anotação, pois os fatos estão na minha cabeça há 30 anos.

Já o almirante Júlio de Sá Bierrenbach era ministro do STM (Superior Tribunal Militar) quando o inquérito policial militar sobre o Riocentro chegou ao tribunal para ser julgado. O caso já veio arquivado da auditoria militar onde tramitou e o militar da Marinha foi o único a votar contra o arquivamento do processo e pedir que Machado continuasse como investigado e a apuração, retomada.

Para Bierrenbach, "o inquérito [do Riocentro] foi uma vergonha e isso é facilmente demonstrável". Ele afirmou considerar absurdas a absolvição e as promoções que Wilson Machado, coautor do atentado, recebeu na carreira.

— Vítimas uma ova! Eles fizeram o atentado. O capitão vai ao Riocentro com uma bomba, a bomba explode. O colega morre. E ele é promovido. Isso é um absurdo!

O advogado José Carlos Dias, membro da CNV, que conheceu pessoalmente Bierrenbach, disse que o juiz era justo e ponderado. Para Dias, o caso Riocentro deve ser julgado pois sobre ele não recai a lei de Anistia, argumento com o qual concorda o ex-ministro do STM.

— Precisamos julgar o caso do Riocentro. É uma das maiores violências já cometidas pelo regime militar, pois se tivesse dado certo, poderiam ter morrido milhares de pessoas.

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