Cubano impedido de entrar no Brasil e voltar ao seu país mora no aeroporto de Guarulhos
Funcionário público em Cuba, ele repete o drama de personagem do filme O Terminal
Brasil|Gilberto Nascimento, para o R7

O drama do personagem Viktor Navorski, mostrado no filme O Terminal (2004), estrelado por Tom Hanks, ressurge de tempos em tempos na vida real. Turista do Leste Europeu, Navorski é impedido de entrar nos Estados Unidos e de voltar para a fictícia Krakozhia. Passa a viver no aeroporto John F. Kennedy, em Nova York.
Agora, um cidadão cubano vive o mesmo sofrimento no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Há cerca de um mês, um ex-servidor público em Cuba mora em uma sala de área restrita e de segurança controlada pela Polícia Federal.
A PF não revela o seu nome nem fornece outros dados pessoais. O homem não pode ingressar oficialmente no Brasil tampouco retornar ao seu país ou viajar para um outro destino. Tornou-se um apátrida.
A companhia aérea na qual viajou tem lhe fornecido alimentação e ele toma banho em um banheiro do aeroporto. Funcionários têm procurado ajudá-lo, também com doações de alimentos e objetos de uso pessoal. A PF afirmou também ser proibida a entrada de jornalistas nessa área de segurança para entrevistá-lo.
Ele está bem tratado onde se encontra. Só não tem assistência consular. Cuba tem se omitido a adotar alguma providência para resolver o problema desse cidadão -, diz o delegado da PF Rodrigo Weber de Jesus, responsável pela área de imigração do aeroporto.
O cubano morava há aproximadamente oito anos no Brasil. Estava em situação irregular no País. Quando o governo brasileiro ofereceu anistia a estrangeiros clandestinos, em 2009, ele chegou a enviar documentação para legalizar-se, mas não concluiu a segunda fase dos procedimentos.
No mês passado, ele cubano decidiu morar no Equador e embarcou para lá em um voo da Avianca. Sem o visto (exigido de cidadãos cubanos pela maioria dos países), foi devolvido para São Paulo. Irregular no Brasil, acabou barrado. Para Cuba, também não pode voltar por estar fora há muito tempo e não ter regularizado sua situação.
Segundo o delegado Weber de Jesus, a única solução no momento seria ele pedir um pedido de refúgio no Brasil. Mas essa decisão teria de partir dele. Por enquanto, foram realizadas reuniões entre o Itamaraty e o consulado de Cuba em São Paulo, mas o impasse permanece. Quem acompanha de perto o imbróglio, critica a ação de Cuba no caso.
Aparentemente, o homem seria um dissidente e viria daí o desinteresse da diplomacia cubana no caso. Agentes da PF afirmaram não ter informações sobre as razões de sua saída de Cuba, mas revelaram que ele diz não ter nada contra o regime político de Havana.
A situação é dramática. Ele diz que, se não houver jeito, ficará aqui trabalhando com a gente. Mas não podemos assumí-lo assim. Ele precisa de assistência do consulado. Foi feito contato com a representação diplomática de Cuba, por meio do Itamaraty, e continuamos tentando resolver o problema -, explicou o delegado da PF.
Segundo Weber de Jesus, a sala onde ele se encontra dispões de recursos para um atendimento adequado.
Os aeroportos dispõem de um espaço assim para atender quem é impedido de entrar no País por algum motivo. A sala tem banheiro e chuveiro. E ele pode andar pela área restrita. Se precisar, tem também atendimento médico do aeroporto -, afirmou o delegado.
A Embaixada de Cuba, o consulado cubano em São Paulo e o Itamaraty (Ministério das Relações Exteiores) foram procurados pelo R7, mas não se manifestaram.
O filme O Terminal, dirigido por Steven Spielberg, foi inspirado na história do refugiado iraniano Merhan Karimi Nasseri, impedido de entrar em Londres e também de retornar a seu país. Ele teria teria morado durante 18 anos no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Entre abril e maio, o grego Konstantinos Onassis Toulis também “morou” por três semanas no aeroporto internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro.















