Operação Lava Jato

Brasil Doleiro preso na Lava Jato já foi contrabandista e operador em outros escândalos de corrupção

Doleiro preso na Lava Jato já foi contrabandista e operador em outros escândalos de corrupção

Alberto Youssef entregou uma série de políticos no passado, mas voltou a cometer crimes

  • Brasil | Mariana Londres, do R7, em Brasília

Alberto Youssef foi preso na Lava Jato em 17 de março de 2014

Alberto Youssef foi preso na Lava Jato em 17 de março de 2014

06.02.2015/Rodolfo Buhrer/Reuters

Antes de ficar conhecido nacionalmente, Alberto Youssef, o doleiro preso pela operação Lava Jato e um dos delatores do esquema de corrupção da Petrobras, já era velho conhecido de promotores, procuradores e juízes de seu Estado natal, o Paraná.

O próprio Sérgio Moro, o juiz linha-dura que conduz as ações penais da Lava Jato, já tinha prendido e feito um acordo de delação com Youssef em 2004, no caso Banestado. 

O que os titulares do Ministério Público e da Justiça do Paraná não poderiam imaginar é que mesmo após ter sido preso oito vezes e, nesta última em 2004, ter colaborado com a Justiça, entregue seus parceiros, pago uma multa alta, ter ficado atrás das grades por um ano e meio e prometido abandonar a atividade, Alberto Youssef voltaria a operar no mercado negro do dinheiro. E, desta vez, para vários partidos e dentro de um esquema bilionário de corrupção na maior empresa brasileira.

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Promotores que participaram da prisão de Youssef no caso Banestado ouvidos pelo R7 explicam que acreditavam que ele estaria fora do mercado por ter delatado seus parceiros. No entanto, o que aconteceu é que ele voltou a operar até mais forte por ter tirado seus concorrentes do mercado como explica Luiz Fernando Delazari, promotor na época dos escândalos Copel e Banestado e ex-secretário de Segurança do Paraná.

— Os juízes e promotores assim como eu achavam que Youssef não estava agindo [após o caso Banestado], uma vez que fez delação premiada contra todos os seus parceiros, assim era razoável supor que estaria fora do mercado.

A capacidade de Beto Youssef de operar grandes quantidades de dinheiro, no entanto, não surpreendeu as autoridades paranaenses. Além de ser considerado muito inteligente e corajoso até pelas redes de lavagem de dinheiro que montou, Youssef também é descrito como quieto e muito educado. 

Natural de Londrina, norte do Paraná, a poucos quilômetros de Maringá, cidade onde o juiz Sérgio Moro passou a infância e se formou em direito, Alberto Youssef começou a vida de contravenção levado pela irmã mais velha, cruzando a Ponte da Amizade (que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este, no Paraguai) na década de 80 para trazer uísque e aparelhos de videocassete contrabandeados a clientes no Brasil. Chegou a ser preso com contrabando, e após algumas prisões — sempre solto pouco tempo depois — passou a correr riscos maiores, virou doleiro.

Em 2000, foi preso pelo Ministério Público de Londrina acusado de lavar dinheiro no escândalo Ama/Comlurb. Na ocasião, o MP descobriu um esquema de desvios de recursos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Ama) operado por Alberto Yousseff. O esquema foi descoberto porque o doleiro movimentava uma quantidade enorme de dinheiro nas suas 30 contas abertas no Banestado local, como explica o promotor responsável pela prisão na época, Cláudio Esteves. 

— A prisão de Youssef chamou atenção porque ele foi processado por lavagem de dinheiro de R$ 120 mil, que é uma questão pontual, mas chamou atenção porque no processo tinham diretores do Banestado. Ele tinha mais de 30 contas em uma agência e o movimento diário era grande.

O caso ainda não foi julgado em primeira instância.

A capacidade de lavar grandes quantidades de dinheiro logo fez com que fosse contratado para operar esquemas corruptos dentro de administrações públicas. Em 2001 foi preso novamente, desta vez por formação de quadrilha por participar de um esquema de desvio de fundos em Maringá. 

Em 2002, os crimes do doleiro passaram para o âmbito estadual. Naquele ano ele foi preso a pedido do Ministério Público do Estado do Paraná na operação que descobriu desvios de R$ 104 milhões na Copel, a empresa de energia do Estado. Youssef foi acusado de comprar créditos de ICMS de uma empresa falida do setor agropecuário, a Olvepar. Como os créditos não existiam, o dinheiro era desviado.

Na mesma operação, foi decretada a prisão do presidente da Copel, Ingo Hubert, que acumulava a função com a de secretário de Fazenda do Estado. Hubert, no entanto, fugiu no porta-malas de um carro. O caso tramita na Justiça até hoje. Ainda não foi julgado nem em primeira instância e os outros acusados de envolvimento seguem em liberdade.

O encontro de Youssef com o juiz Sérgio Moro aconteceu pela primeira vez em 2004, quando Moro foi responsável pela ação penal do caso Banestado. Na ação, Youssef foi acusado de lavar US$ 830 milhões por meio de contas CC-5, que enviavam dinheiro para o exterior. Youssef foi condenado a sete anos de prisão. Mas, como fez acordo de delação premiada, teve a pena reduzida, ele ficou detido em Curitiba por um ano e meio. A delação do doleiro envolveu novamente o secretário de Fazenda do Estado, Ingo Hubert, além de Heins Herveg, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e Durval Amaral, deputado estadual e líder do governador Jaime Lerner. Os acusados de colarinho branco, no entanto, não foram presos. O único detido foi Youssef.

Após cumprir a pena, longe dos olhos dos investigadores, Alberto Youssef voltou a operar no mercado negro do dinheiro. Comenta-se que teria sido sócio de José Janene, deputado federal pelo PP, da mesma cidade natal de Youssef (Londrina), acusado de envolvimento no mensalão. Promotores, no entanto, acreditam que Youssef não era sócio, mas apenas operador de Janene.

Foi Janene, no entanto, o elo de ligação entre as atividades do doleiro e o esquema de corrupção dentro da Petrobras. Após a morte do deputado, em 2010, Youssef passou a operar os recursos mais perto do Congresso Nacional, em uma casa de câmbio do Posto da Torre, a menos de um quilômetro da Praça dos Três Poderes. A ação de Youssef na casa de câmbio dentro do posto batizou a operação da Polícia Federal de Lava Jato.

O fato de Youssef já ter sido preso outras vezes e ter voltado a cometer crimes fez com que o juiz Sérgio Moro, declaradamente favorável às delações premiadas, hesitasse na hora de estabelecer um novo acordo de colaboração com o doleiro. 

O acordo, no entanto, foi fechado. Preso há um ano em Curitiba, Youssef já entregou dezenas de políticos, empresários e outros operadores. Pelos termos da delação que fez com o Ministério Público, não pode ficar preso por mais de cinco anos, independente da condenação, e tem direito a cela especial. 

Procurada, a defesa de Alberto Youssef não quis se pronunciar sobre as informações apuradas pelo R7

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