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Em noite de gala, escritor brasileiro se torna imortal

O escritor baiano Antônio Torres toma posse na cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras 

Brasil|Felipe Machado, chefe de reportagem do R7

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O escritor Antônio Torres no discurso de posse da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras: 'Aqui chega um baiano'
O escritor Antônio Torres no discurso de posse da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras: 'Aqui chega um baiano'

Escrever sobre a Academia Brasileira de Letras é uma tarefa perigosa (e pretensiosa) para qualquer reles mortal como eu. Sim, porque qualquer adjetivo mal colocado, qualquer substantivo fora de lugar e pronto: minha chance de ser convidado para entrar para a Academia vai por água abaixo. Na última quarta-feira (9), no entanto, a Academia não teve alternativa a não ser aceitar a minha entrada triunfal. Entrei, inclusive, pela porta da frente. E como convidado de honra.

Antes que você entenda errado, é bom deixar claro e em bom português que entrei na Academia, e não para a Academia. Apenas compareci a um evento como humilde representante do meu pai, o jornalista Adones de Oliveira, amigo de longa data do homem que se tornou imortal naquela noite.


Espera um pouco, eu disse imortal? Sim, esse é o termo utilizado para designar os membros da Academia, indicando que os escolhidos para entrar nesse seleto grupo viverão para sempre na memória da cultura brasileira. Foi assim que o premiado escritor baiano Antônio Torres, com 18 livros no currículo e 73 anos no documento, conquistou a imortalidade.

A posse de um escritor na Academia Brasileira de Letras é uma cerimônia bastante formal. No convite, a exigência de ‘traje de rigor’ me deixou na dúvida. Como eu não sabia exatamente do que se tratava, fui perguntar a um amigo que entende tudo do assunto. Não, eu não liguei para nenhum consultor de estilo. Para saber sobre 'trajes a rigor', ninguém melhor do que... Roger, vocalista do Ultraje a Rigor.


“Você está falando sério?", questionou, suspeitando que tal figurino não combinava muito com meu estilo. "Se estiver, então traje a rigor é smoking”, decretou o roqueiro e especialista. Foi a primeira vez que usei black-tie e gravata borboleta. Gostei do visual, só não descobri até agora se fiquei mais parecido com um garçom de luxo ou com o 007.

Veja aqui a galeria de imagens da cerimônia de posse de Antônio Torres


Os acadêmicos exibiam uma elegância bem maior que a minha, vestidos com o fardão de sarja inglesa bordado com fios de ouro. O valor do lendário figurino pode chegar a R$ 70 mil, doados tradicionalmente pelo governo do estado de origem do homenageado. Apesar de toda essa formalidade, há uma descontração no ar que nos faz lembrar que estamos no Brasil e não na França, onde a nossa Academia buscou inspiração para a sua criação, em 1897. O discurso de Torres, por exemplo, foi bem-humorado e o excesso de elogios aos antecessores deu aquele clima de ‘panelinha’ que reina entre os acadêmicos desde que Machado de Assis tomou posse como o primeiro presidente.

Quem lembra daqueles rostos sérios dos escritores do passado não imagina o quanto eles eram bem-humorados. O poeta Olavo Bilac, por exemplo, brincava que os acadêmicos eram chamados de ‘imortais’ porque ‘não tinham aonde cair mortos’. Piada, claro: a Academia paga a seus membros planos de saúde, jetons por participação no tradicional chá às quintas-feiras e ainda garante um lugar no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro. Sim, os imortais também morrem.


E é apenas quando isso acontece que uma cadeira fica vaga. Ao todo, são quarenta cadeiras fixas — quando um dos membros morre, é convocada uma nova eleição. Por isso, a idade média da Academia é tão alta: o mais jovem ali é Paulo Coelho, com 66 anos. Esse ritual de ‘herança das cadeiras’ cria uma verdadeira árvore genealógica de cada uma delas. A de número 23, que Antônio Torres assumiu na última quarta-feira, é uma das mais cobiçadas devido à sua linhagem: além de ter José de Alencar como patrono, foi ocupada por Machado de Assis, Jorge Amado e Zélia Gattai, entre outros. O antecessor de Torres, o jornalista e crítico musical Luiz Paulo Horta, virou imortal em 2008 e morreu no ano passado.

Prédio luxuoso doado pelo governo francês

O prédio da Academia é chamado de Petit Trianon, doação do governo francês e inspirado pelo palácio homônimo que fica em Versailles. O prédio fica no centro do Rio de Janeiro e confesso que deu pena ver sua arquitetura tão majestosa cercada por lojinhas e camelôs, como uma velha cortesã cercada por adolescentes desrespeitosos. Apesar do entorno degradado, a Academia é bastante luxuosa e bem conservada, fruto do gordo aluguel pago pelas empresas que ocupam o prédio anexo.

No Salão Nobre, às nove em ponto, Antônio Torres fez seu tradicional discurso de posse. Exaltou sua infância na pequena cidade de Junco – que hoje se chama Sátiro Dias –, lembrou os antecessores da cadeira 23 e exaltou a sua origem: “Aqui chega um baiano.” E aproveitou para homenagear outros escritores nordestinos, como Raquel de Queiroz, José Lins do Rêgo, Graciliano Ramos. Premiado e publicado em diversos países. Torres ficou conhecido no Brasil e no exterior por livros como Um Cão Uivando Para a Lua e Essa Terra.

Torres foi aplaudido de pé por uma plateia formada por nós, reles mortais, mas também por imortais como o presidente Fernando Henrique Cardoso, o jornalista Merval Pereira, o cineasta Nelson Pereira dos Santos e a escritora Ana Maria Machado, entre outros. Depois foi a vez de Nélida Piñon, primeira mulher a presidir a ABL — as mulheres só passaram a ser aceitas na Academia em 1977, quando Raquel de Queiroz foi eleita —, a fazer o discurso de boas-vindas.

Segundo Nélida, a obra de Torres é marcada por "desestabilizar a ordem e a hierarquia das paixões humanas" - acho que nunca ouvi uma descrição tão bela de uma obra literária. Na sequência do ritual, Torres recebeu a medalha e a espada dos imortais, e foi levado por colegas para o salão anexo, onde recebeu os cumprimentos dos... mortais.

A posse na ABL deve ser um dos poucos dias em que um escritor brasileiro tem um dia de celebridade. Sem o fardão, esses senhores tão importantes para a cultura do País são bem menos conhecidos que qualquer cantor de rap ostentação. Agora que foi chamada de ‘grande pensadora’, será que a Valesca Popozuda vai se candidatar a uma cadeira da Academia?

“Ainda não senti nenhuma diferença”, Torres me confidenciou, quando o indaguei sobre a sensação da imortalidade recém-adquirida. Talvez ele não saiba, mas essa imortalidade é muito mais que a sagração de suas muitas primaveras dedicadas à palavra. A partir de agora, nessa casa que parece parada no tempo, o escritor se sentará entre seus pares não apenas para saborear o charmoso chá das quinta-feiras, mas para degustar a felicidade de viver o resto dos seus dias sabendo que sua obra não morrerá jamais.

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