Em quarentena, mulheres encaram desemprego e sobrecarga emocional
Malabarismo diário para dar conta do trabalho e da vida doméstica vem se intensificando durante crise gerada pela pandemia de covid-19
Brasil|Nayara Fernandes, do R7

“Não vou dar conta”. Se, durante a pandemia, essa frase tem ecoado em sua mente no intervalo entre garantir a renda da família, colocar a roupa na máquina e os filhos para dormir, saiba que você não está sozinha. Antes da quarentena, as mulheres já trabalham em média 7,5 horas a mais do que os homens e gastavam o dobro de tempo nas atividades domésticas. Diante dos efeitos do isolamento, como o fechamento das escolas, o cenário do trabalho feminino foi um dos mais afetados.
Malabarismo diário
“Aumentaram as tarefas de cuidado que já recaíam sobre as mulheres, além de diminuir a rede de apoio formada pelo auxílio de avós e familiares”, explica Tayná Leite, consultora da ONU Mulheres.
A psicóloga Raquel Guimarães aponta que mesmo quando elas contam com a ajuda de um parceiro dentro do lar, ainda resta o chamado “trabalho emocional”.
“Ela gerencia, por exemplo, que horas bater a roupa, que tarefas são prioridade, o que precisa comprar no mercado, como organizar a rotina. São várias minúcias que, por mais que os homens se envolvam na vida doméstica, é muito comum que permaneçam em uma posição desapropriada do próprio lar, de receptores daquelas ordens", diz Raquel.
Ninguém fala sobre o quão cansativo é ter a carga mental de pensar em tudo

Para além do trabalho e das demandas do lar, a sobrecarga emocional também é sintoma de uma outra epidemia que assola o país: o aumento das denúncias de violência doméstica durante a quarentena.
Viviane Duarte, fundadora do Instituto Plano de Menina, aponta que, durante o projeto de atendimento psicológico, nota como as relações abusivas têm impactos em projetos de vida.
"Temos recebido mensagens de meninas e mulheres exaustas que relatam o aumento do consumo do álcool e das brigas dentro de casa. A maioria possui empregos informais e tem enfrentado dificuldades econômicas", diz Viviane.
De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, a perda maciça de renda já afeta 90% dos trabalhadores informais.
O lugar do trabalho
Nos Estados Unidos, a presidente do Instituto de Pesquisa e Política para Mulheres, Nicole Mason, nomeou a crise econômica causa pela pandemia de shecession — em português, “recessão feminina”— uma vez que a taxa de desemprego das mulheres quintuplicou de fevereiro a abril deste ano, contabilizando 20 milhões de empregos perdidos.
Segundo a consultora e palestrante de diversidade Ana Bavon, o cenário pode se repetir no Brasil, onde a taxa de desemprego já é mais alta, especialmente para mulheres negras.
“Grupos vulneráveis geralmente se encontram em posições operacionais, enquanto cargos executivos são mantidos por terem um custo maior para a empresa em caso de demissão”, explica Bavon. Ela ressalta que os empregadores deve aproveitar o momento para repensar as bases da produtividade.
"Nossa produtividade esta sendo afetada porque não paramos para entender de que forma a gente se relaciona com o trabalho a partir desse novo cenário: jamais seremos produtivos do modo que éramos antes, porque nossas bases eram todas formadas naquele mundo em que vivíamos."
"Vamos conhecer quem tem real comprometimento com o futuro das mulheres."
A frente de iniciativas de empregabilidade para mulheres, Viviane Duarte também aponta que o momento é crucial para as grandes empresas combaterem à desigualdade de gênero: "as pessoas que estão com a caneta na mão precisam parar e olhar o que está acontecendo para além da bolha delas."
"No momento, o papel da liderança não é pensar em escalabilidade e esticar a corda para essas mulheres, mas promover resultados interessantes e socialmente responsáveis."















