Ex-eletricitário, preso pela Lava Jato ficou milionário com trabalho no PT
Publicitário Valdemir Garreta, caracterizado pela Justiça como praticante de “corrupção sistêmica”, construiu fortuna em menos de 20 anos
Brasil|Da RecordTV e do R7

Apontado por procuradores da Lava Jato como marqueteiro e operador de propinas da Odebrecht ao PT, o publicitário Valdemir Garreta é nome-chave para entender o esquema de corrupção que implodiu o partido e como os envolvidos enriqueceram à sombra generosa da política e seus negócios escusos. Garreta foi preso provisoriamente na sexta-feira (23), durante a 56ª fase da Lava Jato, e teve sua prisão transformada em preventiva nesta terça-feira (27) pela juíza Carolina Moura Lebbos, da Justiça Federal de Curitiba. Para a Justiça, foi caracterizada “corrupção sistêmica”.
Ex-eletricitário, Garreta ficou rico, muito rico em bem pouco tempo. Ele fez carreira nos bastidores do Partido dos Trabalhadores, se tornou marqueteiro e operador e adquiriu um patrimônio milionário. Para se ter uma dimensão, duas mansões registradas no nome dele valem pelo menos R$ 15 milhões.
O patrimônio milionário de Garreta foi construído em menos de 20 anos. No período, ele deixou a Vila Prudente, na zona leste de São Paulo, e passou a morar em um imóvel alto padrão no Jardim Paulista (zona oeste), onde mais uma vez teve como companhia de muro a mais refinada elite paulistana. Segundo levantamento do R7 em cartórios, a residência foi comprada em 2014 por R$ 8 milhões, segundo o 4º Cartório de Registro de Imóveis da capital (veja foto).

Menos de um ano depois, em abril de 2015, o empresário voltou às compras e o terreno de 5.000 metros no Loteamento Santa Marina, em Porto Feliz (SP). Ele desembolsou R$ 7 milhões pelo espaço no local estrelado. O loteamento integra o empreendimento Fazenda Boa Vista, reduto de milionários no interior paulista.
O que fez com que Garreta desfrutasse de uma vida nababesca na mansão de 1.700 m² de área construída em Porto Feliz, cidade a 125 quilômetros da capital paulista. O endereço não é uma escolha aleatória: trata-se de uma região cercada de hotéis e casas de luxo protegidos pela discrição. Em seu dolce far niente rural, Garreta conviveu com milionários que habitam nos fins de semana condomínios como a Fazenda Boa Vista, lugar onde uma parte do PIB brasileiro descansa e abriga em seus 12 milhões de metros quadrados dois campos de golfe assinados por designers famosos, um centro equestre e campo de polo, emoldurados por belos projetos paisagísticos, mas a cereja do bolo é o hotel Fasano, uma das maiores grifes da hotelaria mundial.
Um luxo que nem mesmo o motivo da prisão pela Polícia Federal é capaz de explicar. Garreta é apontado como o operador que arrecadava propinas pagas pelas construtoras Odebrecht e OAS para a construção da Torre Pituba, sede da Petrobras em Salvador. Segundo as investigações, o superfaturamento foi R$ 1 bilhão e o publicitário teria recebido ao menos R$ 973 mil pagos do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da Odebrecht.
Somente imóveis e empresas declarados, Garreta possui patrimônio que ultrapassa os R$ 19 milhões. Os imóveis não foram bloqueados na ação da PF, que suspendeu os ativos de contas e investimentos bancários de seis das empresas do ex-eletricitário.
Garreta também é proprietário de ao menos sete empresas, quatro delas voltadas ao marketing eleitoral, uma que atua com cinema e duas de empreendimentos imobiliários, setor em que o ex-eletricitário investiu alto nos últimos anos.
No mesmo período da compra dos imóveis de luxo, a Rentalcine firmou um contrato para fornecer equipamento de televisão para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Os serviços eram orçados em R$ 7,6 milhões, mas a casa legislativa paulista dispendeu R$ 8,1 milhões com os serviços entre dezembro de 2014 e dezembro de 2015.
Entre as empresas, aparecem a Rentalcine e a VG Marketing Eleitoral Ltda, que receberam, respectivamente, R$ 9,6 milhões e R$ 1,1 milhão das campanhas de Lula e Fernando Haddad nas eleições deste ano.
A VG Marketing Eleitoral também recebeu R$ 1,1 milhão para a produção de programas para a campanha de Katia Maria, candidata a governadora pelo PT em Goiás.
Citações
Nos arquivos do “Departamento de Propina” da construtora Odebrecht, Garreta aparecia com o codinome “Programa” e é citado em uma mensagem eletrônica do dia 13 de outubro de 2014 como beneficiário de um pagamento de R$ 973 mil vinculado à obra “Torre Pituba”.
Garreta também teria coordenado o recebimento de R$ 6,528 milhões de pagamentos indevidos pela OAS a Luís Carlos Fernandes Afonso, ex-presidente da Petros, que também foi preso nesta sexta-feira (23).
A denúncia destaca a proximidade entre Garreta e o presidente da OAS, Leo Pinheiro, com quem chegou a trocar mais de 1.000 mensagens eletrônicas e outras 871 ligações telefônicas, discutindo, inclusive, a sucessão da presidência da Petros.
O MPF cita ainda que em 2014 as empresas EE Participação Ltda, FG Marketing Eleitoral SPE Ltda e MEK Comunicação Ltda não tinham nenhum empregado declarado na RAIS. Já as empresas FX Comunicação Global Ltda e Brasiliense Empreendimentos Imobiliários tinham um único empregado, todas de propriedade de Garreta.
Segundo os procuradores, “é possível, pois, que Valdemir Flavio Pereira Garreta tenha recebido valores das empreiteiras por meio de suas empresas, algumas aparentemente inexistentes de fato”.
Exterior
O ex-eletricitário também já era investigado pela Lava Jato no Peru sob a acusação de receber e intermediar propinas e caixa 2 oriundos de pagamentos efetuados pela Odebrecht. No país, o publicitário prestou serviço para várias campanhas eleitorais.
Garreta chegou a firmar acordo para colaborar com autoridades peruanas na investigação que apura o pagamento de US$ 3 milhões via caixa 2 pela construtora para assessora na campanha do ex-presidente Ollanta Humala, que foi preso desde julho de 2017.
O pagamento, segundo autoridades locais, teria sido efetuado a pedido do PT. Na delação, Garreta ainda se comprometeu a informar detalhes do uso de caixa dois na campanha do ex-presidente, do governador Félix Moreno em 2014 e da ex-prefeita de Lima Susana Villarán.
Quem intermediou o contato entre Valdemir Garreta e presidente peruano foi o publicitário Luis Favre, outro investigado pela Lava Jato peruana e ex-marido da senadora Marta Suplicy.
Trajetória política
Garreta entrou na política na virada dos anos 80 para os 90, quando entrou para o sindicato do eletricitários. Foi tesoureiro da campanha de Luiza Erundina, na época filiada ao PT, à Prefeitura de São Paulo na campanha contra Celso Pitta em 1996. Pitta foi eleito e chegou a processar Garreta por calúnia e difamação — ele acabou condenado em 2003 a pagar uma multa. Em 1998, ele trabalhou na campanha da então deputada federal Marta Suplicy (na época no PT e hoje no MDB-SP) para o governo de São Paulo e caiu nas graças do partido.
Em 2000, ele foi um dos coordenadores da campanha de Marta à Prefeitura de São Paulo. Com a eleição da então petista, tornou-se secretário Municipal de Comunicação Social.
À frente da pasta, Garreta apareceu como protagonista num dos maiores escândalos da gestão Marta: a crise do lixo. Uma das empreiteiras de lixo contratadas pela prefeitura tinha como mesmo endereço a produtora de campanha petista, contratada por Garreta. O caso virou CPI na Câmara e inquérito na polícia. O publicitário não foi incriminado, mas perdeu o cargo — caiu para uma secretaria com menos poder e visibilidade, a do Abastecimento. Nela, apareceu em outro escândalo: foi apontado pelo Ministério Público como beneficiário de propinas pagas por empresas que forneciam a merenda terceirizada para as escolas municipais.
Ainda assim, Garreta ajudou na coordenação da campanha do PT à reeleição, em 2004. Marta foi derrotada por José Serra, do PSDB.
Já fora da prefeitura, Garreta foi acusado pelo então tesoureiro do PPS paulista, Ruy Vicentini, de, juntamente com Silvio Pereira, ter tentando comprar apoio do PPS na Câmara dos Vereadores durante o mandato petista. O ex-eletricitário teria oferecido R$ 4 milhões ao PPS. O Ministério Público abriu inquérito para investigar o caso, que ficou conhecido como “Mensalão de São Paulo”.
No âmbito criminal, Garreta foi investigado, mas não foi denunciado. No entanto, ele é citado em ação de Improbidade Administrativa e precisou devolver R$ 2,1 milhão de supostas propinas recebidas durante o período em que ele foi secretário de Marta.
Outro lado
O R7 procurou os advogados de Valdemir Garreta solicitando esclarecimentos sobre a prisão ocorrida nesta sexta-feira (13) e as acusações relacionadas à Operação Sem Fundos, além de questões relacionadas à construção de seu patrimônio.
A resposta foi enviada pela advogada de Garreta, Danyelle Galvão. "Não temos interesse em responder àquelas perguntas. A única declaração é de que nosso cliente está colaborando com as investigações."















