Brasil Homem forte de Serra, Paulo Preto já foi preso por receptação de joia

Homem forte de Serra, Paulo Preto já foi preso por receptação de joia

Relembre as polêmicas do ex-diretor do Dersa, que foi denunciado pelo Ministério Público Federal por desvios em três obras do governo de SP

Homem forte de Serra, Paulo Preto já foi preso por receptação de joia

Paulo Preto, ex-Dersa, tem R$ 113 milhões no exterior

Paulo Preto, ex-Dersa, tem R$ 113 milhões no exterior

Mateus Bruxel/Folhapress - 31.10.2010

O ex-diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A), Paulo Vieira de Souza, conhecido como "Paulo Preto" — denunciado pelo MPF (Ministério Público Federal) por desvios na estatal paulista —, tem um passado cheio de polêmicas e envolvimento em escândalos de corrupção. Homem forte de José Serra (PSDB), ele é apontado como operador de propinas do partido por sete delatores da Lava Jato.

Paulo Preto chegou à Dersa por meio de Geraldo Alckmin (PSDB), em 2005, pouco antes de o tucano se candidatar à presidência da República. Paulo Vieira de Souza foi diretor da empresa estatal entre os anos de 2005 e 2010. Primeiro, nas Relações Institucionais, e depois na engenharia, nomeado por Serra.

Em 2006, já com Serra à frente do governo, Paulo Preto chegou à diretoria de Engenharia. Nesse cargo, fez as obras da nova marginal do Tietê, a construção do eixo Sul do Rodoanel e de prolongamento da Avenida Jacu Pêssego.

As três obras realizadas no governo Serra são alvo da investigação do MPF. Segundo a denúncia, o esquema montado por Paulo Preto fraudava o cadastro de moradores desalojados pelas obras e que deveriam ser reassentados em outros locais.

Ao todo, o Ministério Público Federal suspeita que cerca de 1.800 pessoas foram inseridas indevidamente nos programas de reassentamento, incluindo seis famílias de empregadas da família de Paulo Preto. Os desvios chegam a R$ 7,7 milhões (em valores da época).

Serra (em pé) e Paulo Preto (agachado, de camisa listrada) no Rodoanel

Serra (em pé) e Paulo Preto (agachado, de camisa listrada) no Rodoanel

Danilo Verpa/Folhapress - 30.03.2010

Relações com a cúpula do PSDB

Preto também trabalhou no Palácio do Planalto durante os quatro anos do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso no programa Brasil Empreendedor Rural, ocupando o cargo de assessor especial da Presidência.

O responsável por levá-lo ao Planalto foi Aloysio Nunes (PSDB), que tinha acabado de se eleger como senador. Atualmente, Nunes é o ministro das Relações Exteriores e senador licenciado pelo Estado de São Paulo. Nunes foi chefe da Casa Civil no governo Serra.

Em 2007, a filha de Paulo Preto fez um empréstimo de R$ 300 mil para Nunes comprar um apartamento. O atual ministro, à época, declarou que pagou o empréstimo, mas sem juros.

Em 2010, mais polêmicas envolvendo Serra: Paulo Preto foi acusado por integrantes do PSDB de ter embolsado cerca de R$ 4 milhões da campanha do partido. O dinheiro foi doado por empreiteiras para a candidatura de José Serra para a presidência da República.

À época, integrantes tucanos ameaçaram abandoná-lo por causa das denúncias, mas Preto soltou declarações polêmicas, que soaram como ameaça velada e fizeram com que os tucanos recuassem.

Além disso, delatores da Operação Lava Jato afirmam ainda que Preto pediu dinheiro para caixa dois das campanhas Serra e Nunes.

Preto ainda é alvo de outros dois processos que estão no STF (Supremo Tribunal Federal), ambos pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os processos estão nas mãos do ministro Gilmar Mendes. A defesa de Preto pediu ao Supremo para que o caso tramite na Corte, pois, inicialmente, estavam relacionados a pessoas que têm direito a foro privilegiado.

As polêmicas que envolvem Preto vão além da política. Em junho de 2010, o engenheiro foi preso em flagrante na loja da Gucci do shopping Iguatemi, em São Paulo, ao tentar avaliar um bracelete de diamantes avaliado em R$ 20 mil à época. A joia havia sido furtada na própria loja de luxo em que o engenheiro tentou fazer a avaliação. Ele foi acusado de receptação de material ilícito.

Fortuna no exterior: R$ 113 milhões fora do país

Na denúncia do MPF, o engenheiro é acusado de desviar dinheiro em proveito próprio e de terceiros entre os anos de 2009 e 2011. De acordo com o MPF, Preto fraudava o cadastro de moradores das regiões afetadas pelas obras. Indenizações e desvios de apartamentos da CDHU estão entre os auxílios recebidos indevidamente pelas pessoas cadastradas nos programas por Preto.

Durante as investigações, o Ministério Público da Suíça informou que Preto é titular de contas de offshores que somam R$ 113 milhões. O valor do dinheiro em contas fora do Brasil é incompatível com os ganhos dele.

Segundo os documentos enviados pelo MP suíço, o dinheiro estava depositado em quatro contas bancárias, que foram abertas em 2007, por meio de uma offshore sediada no Panamá. Em fevereiro de 2017, o dinheiro — cujo beneficiário da conta é Paulo Vieira de Souza — foi transferido para um banco nas Bahamas.

Outro lado

Procurado pelo R7, o advogado Daniel Bialski, que defende Paulo Preto, afirma que a denúncia do MPF “é contrária à própria conclusão da auditoria interna e investigações internas que inocentaram Paulo Vieira de Souza de qualquer ato ilícito ou favorecimento a quem quer que seja".

“Igualmente, a denúncia não se ampara nos elementos informativos colhidos no inquérito policial que mostraram que ele não cometeu qualquer crime”, diz Bialski.

“Reiteramos, como dissemos antes, esses delatores a cada vez que são ouvidos, dão versões diferentes, mudando detalhes, datas etc., o que mostra a mendacidade de suas palavras. O Paulo jamais pediu, exigiu ou solicitou qualquer valor para quem quer que seja e sua menção por estas pessoas se deve ao fato de nunca ter cedido às pressões das chamadas 'grandes empreiteiras', que pretendiam exercer monopólio e ditar regras. Paulo sempre agiu com zelo, transparência e correção nas suas funções, as quais eram eminentemente técnicas e não possuía qualquer poder ou decisão sobre questões de licitações", continua o advogado.

"Ele já foi ouvido pela Polícia Federal sobre estes fatos e mostrou documentos que eliminam estas especulações, e isso motivou a reoitiva de vários destes delatores, os quais quando novamente mudam de história, personagens e datas conforme lhes convém", concui Bialski.

A assessoria do ministro Aloysio Nunes ressalta que ele não é mais investigado no mesmo inquérito que o senador José Serra e que segundo o próprio MPF "não há indício de conexão entre os fatos [desvios no rodoanel]".