Jornalista Ottoni Fernandes queria ajudar Comissão da Verdade a localizar centro de tortura
Ex-militante da ALN morreu em decorrência de um infarto no mês passado
Brasil|Da Agência Brasil
Quando foi preso, em 1970, o jornalista Ottoni Guimarães Fernandes Júnior tentou identificar, mesmo com os olhos vendados pelos agentes da ditadura, detalhes que pudessem, mais tarde, revelar a localização de seu cativeiro.
À Agência Brasil, a psicanalista Maria Rita Kehl, uma das integrantes da CNV (Comissão Nacional da Verdade), relembrou o que ouviu o depoimento de Ottoni concedido em outubro de 2012.
— Ele se preocupou muito para tentar entender para onde estava indo. De que lado estava o barulho do mar, onde virava à direita, se subia morro.
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Vítima de um infarto no último dia 28, o ex-militante da ALN (Aliança Libertadora Nacional) era diretor Internacional da Empresa Brasil de Comunicação.
— Ele ia nos levar lá. Ele disse: "Vamos para o Rio de Janeiro que eu vou tentar achar [a casa de tortura]". Ele fez uma descrição minuciosa do que foi gravando [em mente].
Ela acha que será mais difícil achar a casa de tortura, que ficava em São Conrado, sem a ajuda do jornalista. O local, segundo a psicanalista, foi mencionado por outras pessoas em depoimentos à comissão.
As declarações de Ottoni ajudam, particularmente, a desmentir a versão do regime militar sobre a morte de Eduardo Leite, o Bacuri.
— Na casa, quando ele foi jogado em um quarto, que era um porão, ele viu o Bacuri. O Bacuri fez um sinal para ele não falar nada, porque devia ter gravador. Eles não trocaram uma palavra. Mas ele viu o Bacuri vivo. Ferido, mas vivo.
À época, a ditadura divulgou uma versão falsa de que Eduardo Leite foi morto em uma tentativa de fuga. A história agora foi desmentida por três pessoas, contando com o depoimento de Ottoni.
Maria Rita explica que o maior valor dos testemunhos das vítimas da repressão não são apenas as revelações em si, mas sobretudo o relato das experiências.
— O que nos fez pegar os testemunhos, não foi no sentido de que aquilo pudesse conduzir uma investigação. Ele [depoimento] tem uma certa função de incluir no nosso campo de pensamento alguma coisa que é da ordem do trauma, que ninguém diz, de uma experiência limite.
No caso de Ottoni, é especialmente interessante a maneira como ele despistou os torturadores com um plano elaborado antes de sua prisão.
— Ele entregou um papel que tinha guardado dentro de um forro de mala. Uma coisa complicadíssima que ele tinha produzido antes, pensando nisso.
Depois que os militares acharam o documento falso, o jornalista se livrou da tortura sem ter entregado nenhum companheiro.















